A avaliação dos projetos sociais deve ter o “tamanho” da organização

By on 08/02/2017

Como já vem ocorrendo nos países desenvolvidos, também no Brasil as organizações do terceiro setor estão se sentindo “asfixiadas” em ter que fazer a avaliação dos seus projetos sociais. As razões são muitas: “é difícil e complicado; dá muito trabalho; não temos equipe; não temos dinheiro; não ajuda praticamente em nada no nosso trabalho”. Para essas instituições, tudo funcionava muito bem até os anos 1990, e elas não faziam e nem precisavam de avaliação naquele tempo.

O problema é que hoje em dia a avaliação se tornou um requisito necessário de compliance imposto às organizações do terceiro setor. Sem avaliação não há financiamento, seja concorrendo por meio de editais ou repasses diretos.  Ademais, para serem valorizadas e bem aceitas, essas avaliações devem contemplar o rigor estatístico das pesquisas experimentais de impacto, herdado do setor público, e o rigor da medição do retorno econômico, importado do setor corporativo.

Essa percepção de imposição e de complexidade metodológica fez com que o terceiro setor passasse a enxergar as avaliações como um “monstro” a ser vencido, e não como um aliado em prol da causa social que cada instituição defende. Esse sentimento é mais comum do que se pensa, sobretudo no caso das organizações sociais menores, que podem até vir a sucumbir por não conseguirem arcar com as exigências avaliativas.

Para poder ser útil ao trabalho social desempenhado pelo terceiro setor, o fundamental é que a avaliação (aqui entendida como avaliação de processo e avaliação de resultados) tenha o tamanho da organização, isto é, seja feita sob medida para as suas necessidades e a sua capacidade. Definitivamente, one size does not fit all.

Indo também nessa direção, reproduzo aqui as seis dicas de um dos textos da seção “How-to” no site da NCVO [que é uma organização think-tank do terceiro setor no Reino Unido] frente à seguinte pergunta: sendo gestor de uma pequena organização social, como você pode apoiar o desenvolvimento da cultura de resultados (ou cultura da avaliação) em sua organização, e assim ajudá-la a atingir a sua missão?

1.    Comece por analisar onde a sua organização está em termos de sua prática avaliativa: áreas fortes e áreas a serem melhoradas.

2.    Priorize ações a serem tomadas – não tente melhorar tudo de uma só vez. Concentre-se no que é possível, não no que é mais ambicioso.

3.    Atribua a alguém (da equipe, ou a algum voluntário no caso de organização muito pequena) a responsabilidade pela avaliação. Desenvolver a cultura da avaliação requer pessoas, tempo e energia.

4.    Forneça às pessoas da organização o conhecimento e as ferramentas que elas precisam para a avaliação.

5.    Procure garantir que as informações que forem coletadas sejam, de fato, utilizadas para orientar a tomada de decisão – tanto dos dirigentes como das pessoas da equipe executora. Isso significa fazer com que informações relevantes (para a organização) sejam analisadas e estejam prontamente disponíveis. É muito triste ver quando os dados, coletados com tanto esforço, acabam sendo desperdiçados.

6.    Uma vez que a cultura avaliativa foi implantada na sua organização e já estiver funcionando, não esqueça de revê-la regularmente, para poder ir aprimorando aos poucos as ferramentas e os procedimentos.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.