Problemas sociais complexos. Soluções lineares?

Por on 09/07/2025

O poder das imagens é fabuloso. Bastou que eu me deparasse com essa capa da publicação da New Philanthropy Capital, 2024, intitulada NPC Systems Practice Toolkit, por Seth Reynolds e Abigail Rose, para antever a mensagem central da referida obra.  Que depois eu vi confirmada logo na Introdução. A figura acima traduz a realidade dos problemas sociais, que são por demais complexos, imbricados e cheios de curvas. Porém, nós – planejadores, avaliadores e financiadores – enclausurados em nossos escritórios, estamos sempre ousando propor intervenções lineares no modo de diagnosticar e, mais ainda, com a pretensão de querer enxergar os resultados de modo linear e direto.

É uma realidade que vivenciei ao longo dos últimos 30 anos, atuando com projetos sociais no Terceiro Setor. Assim, vivi a ascensão do planejamento e avaliação sendo incorporados à prática das organizações filantrópicas, que até então atuavam ao sabor da entrada de doações, boa vontade e caridade.  Com essas instituições passando a ser guiadas por resultados (tal como as empresas!), nós, os planejadores e avaliadores do Terceiro Setor, pudemos, então, passar a acalentar o sonho da efetividade. Sonho esse que conseguíamos explicitar por meio da ferramenta do Marco Lógico, que foi conquistando adeptos a partir da década 1990.

Só que a natureza dos problemas sociais é distinta e bem mais complexa do que a natureza dos problemas econômicos. E o tempo se encarregou de ir nos mostrando isto. Primeiro, e diferente do que ocorre em uma empresa, o impacto social tem caráter abstrato e comporta diferentes nuances para medição do seu “sucesso” – como, por exemplo, promover o desenvolvimento integral das crianças.  Segundo, em um contexto de vulnerabilidade social, a lógica da atuação isolada da organização, que pode funcionar no ambiente empresarial, mostra-se insuficiente e dificilmente consegue gerar o impacto social desejado.  Assim, é preciso uma atuação coletiva, complementar, de idas-e-vindas de diferentes atores e organizações, mirando todos um objetivo comum.

Nesse sentido, vale destacar a colocação dos referidos autores. Eles comentam  que muitas das ferramentas que as organizações sociais têm adotado ultimamente (como planejamento estratégico, marco lógico, monitoramento) assumem um nível irrealista de previsibilidade e de relação linear de causa e efeito que não funcionam em sistemas complexos.  Pois, no fundo, oferecer soluções simplistas para problemas sociais complexos acaba sendo adequado à narrativa organizacional. Mas não é efetivo sob a ótica do impacto social. E a culpa não é da organização, apenas reflete como o setor social tem atuado.

Assim, ao longo desses últimos 30 anos, foi ficando cada vez mais claro que no Terceiro Setor as soluções individualizadas e lineares não se mostravam mais capazes de gerar a transformação social desejada. Porque os problemas sociais são complexos e multifatores e, daí, precisamos de uma abordagem abrangente e sistêmica para dar conta da mudança que queremos ver acontecer.

E o que é a abordagem sistêmica?

A abordagem sistêmica não divide o problema em partes, para entender e tratar cada parte em separado. Ao contrário, como explicam Reynolds e Rose, o pensamento sistêmico enfatiza justamente os múltiplos fatores causais e dinâmicos que afetam um dado problema, os padrões estruturais que reproduzem esses problemas, e as mentalidades, crenças e visões de mundo que invariavelmente dão sustentação a ‘como` e ‘porque` os sistemas estão desenvolvendo daquele jeito. Daí, ao formar essa compreensão abrangente do problema, a abordagem sistêmica consegue identificar modos mais efetivos para atuar nos sistemas como um  todo e promover mudanças dentro deles.

A publicação apresenta um kit de ferramentas que podem ajudar as organizações do Terceiro Setor nessa prática sistêmica, isto é, a pensarem e atuarem no setor social de modo sistêmico, baseado em 8 ferramentas:

Para Entender (o problema social)

  • Ferramenta 1 – Do Bolo, Foguete e Criança: Saber categorizar os problemas sociais em simples (como assar um bolo), complicado (enviar um foguete à lua) e complexo (educar uma criança)
  • Ferramenta 2 – Canvas da Complexidade: Saber identificar as 5 características de sistemas complexos, a saber: Interdependentes, Dinâmicos, Emergentes, Não-lineares, e Adaptativos.
  • Ferramenta 3 Modelo do Iceberg: Saber entender os padrões dos problemas sociais, que vão do Emergencial ao Estrutural

Para Desenhar (planejar a solução)

  • Ferramenta 4 – Mapear o Sistema. Podem ser usados métodos como Design Thinking, Teoria da Mudança, Diagramas de Clusters, e Diagramas de Múltiplas Causas.
  • Ferramenta 5 Referencial dos 3 Horizontes (3 Hs): H1 – Sistema / Situação presente; H2 – Visão / Sistema Novo; H3 – Caminho para o Novo

Para Agir

  • Ferramenta 6 – Esferas da Mudança Sistêmica. As esferas representam as diferentes dimensões das Mudanças, que devem ocorrer dentro das esferas e entre elas, como por exemplo: os modelos mentais, comportamentais, relacionais, organizacionais, grupos / coletivos, infra-estrutura instituicional, políticas e culturais.

Para Aprender

  • Ferramenta 7 – O Triplo Loop da Aprendizagem: Loop 1 (Estamos fazendo certo as coisas?); Loop 2 (Estamos fazendo as coisas certas?); Loop 3 (Como decidir sobre o que é certo?)
  • Ferramenta 8 – Modelo da Prática Reflexiva. Ao mesmo tempo em que o aprendizado é um ato retrospectivo (de olhar para trás e aprender), corresponde também a um ato reflexivo e contínuo de ir aprendendo ao longo das práticas diárias.

ENFIM, problemas sociais complexos não podem ser solucionados com abordagens lineares e simplistas. Demandam abordagens sistêmicas, com vários atores e organizações envolvidas (privadas e públicas) para entender todo o contexto social e suas interrelações,  desenhar soluções, atuar, avaliar e aprender, (re) planejar, atuar, e assim por diante. Ou seja, ter um olhar firme na transformação social desejada, mas flexível o tempo todo para as adaptações que forem sendo necessárias, seja na execução, avaliação e financiamento.

Por último, e como se percebe, a Abordagem Sistêmica para o setor social vai na direção contrária à abordagem do Retorno Econômico de projetos sociais, essa última inspirada na lógica empresarial. Assim, e de modo a abrir horizontes para tratar os problemas sociais, recomendo a leitura da aqui mencionada publicação da NPC (2024).

NOTA – Artigo também publicado no LinkedIn.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.