Acabei de ler um artigo que é provocativo no modo das famílias ricas fazerem filantropia atualmente. O título do artigo é “Poder e Possibilidade: O Papel da Organização dos Doadores (Power and Possibility: the Role of Donor Organizing)”, de Rachel Sherman, publicado em18.02.2026 no site da NPQ (NonProfit Quarterly)(*).
O texto quer ser um chamamento para reformular o modo tradicional de fazer filantropia dos muito ricos que, segundo a autora, é inócuo para gerar transformação social. Vale ressaltar que ela tem o foco nos EUA e nas famílias muito ricas daquele país.
Entendo a filantropia das famílias como sendo doação de dinheiro e tempo dos indivíduos e/ou suas famílias, sem visar qualquer retorno financeiro. Não confundir com investimento social ou investimento de impacto social, que considera tanto o retorno social como o financeiro. E nem com o investimento social corporativo.
Em se tratando do Brasil, acredito que, sim, precisamos difundir e avançar com a filantropia das famílias em geral, aí incluídas também as muito ricas. Embora não concorde com os conceitos e argumentos trazidos pela autora para caracterizar o atual modo de fazer filantropia, acredito que é importante se levar em consideração esses argumentos se pretendemos fortalecer a filantropia das famílias em nosso país. Isto porque as críticas que Sherman faz também costumam ser usadas para criticar a filantropia no Brasil.
A seguir, apresento as principais ideias dessa visão crítica da filantropia trazida por Sherman. E a partir da abordagem dela, levanto cinco questões básicas para reflexão, contrapondo a posição de Sherman e a minha posição.
A filantropia dos muito ricos, segundo Sherman
Na abordagem crítica (de Sherman) para a filantropia dos ricos, alguns dos conceitos e pressupostos básicos adotados foram:
1. Pessoas ricas causam muito mal na forma como gastam e investem o seu dinheiro (isto é, no modo como as suas empresas funcionam, foco apenas em retorno financeiro / lucro, causando danos às outras pessoas e ao meio ambiente). Sendo que ao doarem um pouco do que têm, só fazem justificar o muito que têm, e assim conseguirem legitimidade e poder para seguirem mantendo o status quo da desigualdade social – são os filantropos convencionais.
2. Preservar a riqueza da família é uma responsabilidade / dever da geração presente para com as gerações futuras (das famílias ricas). Penso que, dito em outras palavras, seria como que um compromisso do herdeiro: se herdou, tem a obrigação de fazer o bolo da herança crescer, para passar para frente.
3. A boa paternidade implica em manter as crianças seguras (financeiramente) e protegê-las do futuro imprevisível.
4. Os valores morais transmitidos aos filhos das famílias ricas estão baseados na ética do trabalho e na ética do “não gastar” com supérfluos. No fundo, são esses valores que garantem que a riqueza (ou o patrimônio) da família continue crescendo de geração para geração.
5. Ao contrário da maioria das pessoas, na verdade os ricos não precisam de mais dinheiro para estarem seguros. Mas eles estão sujeitos a essa lógica moral. “Ganhar” dinheiro continua sendo uma medida de sucesso pessoal.
6. Cultura da acumulação (do patrimônio) – É um valor intrínseco nas famílias muito ricas que considera que o patrimônio (riqueza) da família deve sempre crescer. As “pessoas da família” com a atribuição de controlar o dinheiro acreditam que a sua missão é fazer mais dinheiro. Já as “pessoas contratadas” [os chamados assessores, aí incluídos os gestores (de wealth management ou dos family offices), curadores (dos fundos patrimoniais, filantrópicos ou não, criados pelas famílias), contadores e consultores filantrópicos ] consideram também que o seu objetivo é acumular o máximo de dinheiro possível, evitar impostos e doar principalmente para compensar ganhos de capital. Geralmente essas pessoas não chamam isso de “acumulação”; ao invés, preferem os termos crescer, cuidar e preservar o legado.
7. Filantropos “traidores de classe” – Em oposição ao conceito dos filantropos convencionais, os “traidores de classe” são pessoas ricas que usam suas vantagens sociais (dinheiro, conexões, influência) para desafiar o sistema que lhes tem garantido essas vantagens. Ser um filantropo traidor de classe não implica em apenas doar mais. Implica em: (i) focar em direcionar os seus recursos filantrópicos para movimentos de base, de ativistas, com objetivos realmente transformadores; (ii) desafiar as práticas filantrópicas convencionais e modelar práticas melhores, como eliminar os requisitos de relatórios complexos e onerosos, e conceder doações plurianuais para despesas operacionais gerais; (iii) desafiar abordagens centradas no doador, e passar a construir relações profundas com os grupos apoiados; às vezes, isso significa simplesmente liberar fundos para organizações intermediárias lideradas por ativistas.
Filantropia das famílias: 5 questões estruturantes básicas
Embora considere que essa abordagem de Sherman esteja baseada numa visão radical e pessimista do ser humano, penso que, ainda assim, ela é relevante para suscitar uma reflexão norteadora do nosso papel na sociedade, enquanto agentes produtivos e da atitude que queremos ter em relação à filantropia
Nesse sentido, proponho um roteiro com cinco questões estruturantes, de modo a situar essas críticas e a fortalecer o engajamento das famílias com a filantropia no Brasil.
1 – POR QUE NÃO FAZER FILANTROPIA?
A crítica
Porque é função precípua do Estado cuidar dos desfavorecidos e vulneráveis do seu território. E é função dos cidadãos pagar os impostos devidos para que o Estado possa cumprir esse seu papel social. No caso das famílias ricas, como a sua renda e gastos são significativamente mais elevados, elas acabam tendo a obrigação muito maior com o bolo dos impostos, e essa obrigação não lhes deveria ser reduzida (isenção ou abatimento fiscal) sob o pretexto da filantropia. Porque compete ao Estado agir em benefício do coletivo e de suas prioridades sociais, enquanto a filantropia atua quase sempre segundo critérios individuais estabelecidos pelo filantropo.
Porque filantropia não gera transformação social de verdade, de ruptura com o status quo de exploradores (ricos) e explorados (pobres). Apenas contemporiza uma situação de injustiça social que sempre existiu; e que só se resolveria mediante uma revolução, entendida como uma mudança radical e profunda na estrutura política, social, econômica / tecnológica.
Minhas ponderações
As pessoas e famílias devem, sim, fazer filantropia, porque é um modo de elas retribuírem as oportunidades na vida que elas tiveram e/ou estão tendo. É preciso ter a consciência de que, por motivos que estão fora do nosso controle, a natureza é em si desigual, e a realidade social é também desigual. Basta ver que os bebês já nascem diferentes entre si. Foram centenas (e por que não dizer milhares?) de anos de mudanças acumuladas. Alimentar a revolta não é a solução, e ainda pode resultar em mais sofrimento e violência de percurso.
2 – POR QUE FAZER FILANTROPIA?
A crítica
Porque a filantropia sempre foi uma maneira de apaziguar o sentimento de culpa social dos favorecidos, uma vez que a civilização sempre “avançou” com os ricos espoliando os pobres.
Porque é um modo de se permitir ser feliz, sem ter essa dor na consciência.
Porque é uma maneira de compensar os efeitos colaterais negativos que provocamos na vida de outras pessoas, advindos da atividade / função principal e dos investimentos financeiros das famílias que têm posses.
Minhas ponderações:
Porque a filantropia é um modo de agir, motivado por princípios, sentimentos de compaixão, e do desejo de querer propiciar oportunidades para o outro ficar bem. Oportunidades que eles não têm, e nós tivermos.
3 – RELAÇÃO DAS FAMÍLIAS COM O DINHEIRO
A crítica
A autora atribui quase uma relação mística das famílias ricas com o dinheiro. O bolo do patrimônio deve crescer sempre, e esse é o compromisso do herdeiro. A boa paternidade implica em preparar os filhos para terem uma vida segura e exercerem bem esse compromisso. Ter segurança significa estar sempre preparado financeiramente para enfrentar as imprevisibilidades da vida, e é o que justifica também manter o patrimônio sempre em nível elevado e crescente.
Minhas ponderações
É inegável que o dinheiro é necessário para garantir uma vida digna e confortável, e para a família poder propiciar boa educação para os seus filhos e tranquilidade para os idosos. Por outro lado, e sobretudo no caso das famílias ricas (que estão muito além do nível requerido para essa vida digna), o dinheiro deveria ser visto como consequência da atividade / função desenvolvida pela pessoa, e não como a sua razão de ser. Pois, a meu ver, são os sonhos e os ideais em poder contribuir para um mundo melhor que deveriam mover as pessoas para os seus afazeres do dia-a-dia.
4 – ATIVIDADE E/OU FUNÇÃO PRINCIPAL X FILANTROPIA: HÁ INCOERÊNCIA?
A crítica
Para a autora, há sim incoerência. A atividade e/ou função principal das pessoas de famílias ricas está voltada para a “acumulação” do capital da família, que vai sendo transmitido de geração para geração. Mesmo que essa função / atividade prejudique o seu entorno. Isto porque o retorno financeiro é o objetivo maior; e o “sucesso” da pessoa é medido por sua capacidade em gerar mais renda.
Nesse contexto de acumulação de patrimônio, a filantropia da família é, então, vista basicamente como uma maneira para compensar os malefícios causados a determinados grupos sociais e ao meio ambiente, ou apenas para transmitir a imagem de cidadão/ família comprometida.
Minhas ponderações
Na minha opinião, não deveria haver essa inconsistência. Primeiro, porque é uma visão por demais mesquinha supor que a pessoa rica esteja, na sua atuação principal (seja como empreendedor, investidor, colaborador, etc…), exclusivamente focada na ambição do retorno financeiro. Se a pessoa for movida por princípios éticos e/ou religiosos, sonhos, valores [o que é o mais comum], ela vai sempre estar atenta às possibilidades sobre como as suas atividades / funções podem impactar na vida de outras pessoas. Seja no que se refere ao objetivo em si da atividade / função, ou no modo como a pessoa a exerce.
Segundo, porque, para além dessa atuação principal, a filantropia pode entrar como uma maneira adicional da pessoa apoiar uma causa que mais lhe comove ou que ela considera relevante, seja dentro do seu contexto familiar (o caso de uma doença em família) e/ou de sua contribuição para o desenvolvimento humano / social mais abrangente.
5 – QUE TIPO DE FILANTROPIA APOIAR: O MODELO CONVENCIONAL OU O MODELO “TRAIDOR DE CLASSE”?
A crítica
Em ambos os modelos, a filantropia é vista como uma forma dos favorecidos da sociedade (filantropos) darem uma ajuda aos desfavorecidos (pessoas que vivem em pobreza e vulnerabilidade). Só que com objetivos finais diferentes.
Na filantropia convencional o objetivo final dos filantropos seria conquistar o apoio dos desfavorecidos, apaziguar ânimos e, assim, se manterem no poder.
Já no modelo dos “traidores de classe” o objetivo final dos filantropos seria romper com essa estrutura de desigualdade (isto é, eliminar os privilégios da própria classe) como solução efetiva para os problemas sociais e humanos.
Daí porque a autora defende o modelo “traidor de classe”.
Minhas ponderações
A filantropia das famílias não deveria ser percebida como instrumento de luta de classes, seja para manter o status quo ou para derrubá-lo. Assim, nem filantropia convencional nem filantropia dos “traidores de classe”.
A filantropia deve ser vista, sim, como instrumento genuíno para complementar o papel do Estado e contribuir para gerar oportunidades e promover o desenvolvimento humano e social (filantropia de desenvolvimento), além de minorar os sofrimentos individuais (filantropia assistencial).
Em se tratando do caso específico do Brasil, penso que a filantropia das famílias precisa ainda evoluir bastante, de modo a ampliar o seu poder de transformação social. Seja conquistando novas famílias doadoras, seja no modo de doar. E em termos do modo de doar, considero válidas muitas das estratégias sugeridas (no artigo) para a filantropia dos “traidores de classe”, tais como a centralidade nas necessidades dos beneficiários / ONGs executoras; e a simplificação na exigência dos relatórios de resultados, que devem ser compatíveis com o estágio de amadurecimento da ONG executora.
(*) A NPQ (NonProfit Quarterly) é uma organização sem fins lucrativos dos EUA que produz conteúdo especializado sobre o setor social, tendo como lema “empoderar vozes voltadas para reestruturar a filantropia e impulsionar mudanças guiadas por justiça social”.

