O “Giving Pledge” é uma iniciativa criada em 2010 pelos bilionários Warren Buffet e o (então) casal Bill e Melinda Gates. Seu objetivo é incentivar bilionários a doarem pelo menos metade de suas fortunas para causas sociais ao longo de suas vidas ou após a morte. No início teve repercussão bastante positiva, conseguiu atrair muitos adeptos ultra-ricos, e foi tido como um importante estímulo à filantropia em âmbito global. Passados 16 anos, o Giving Pledge tornou-se objeto de fortes críticas, embora conte ainda com defensores de peso.
O que deu “errado” na Iniciativa? O que deu certo? E indo além do Giving Pledge, será que a filantropia é um sonho “de mudar o mundo” que está ruindo?
Matéria recente no New York Times (de 15.03.2026) traz um bom resumo acerca da evolução e da atual polêmica sobre o Giving Pledge nos Estados Unidos. A seguir, sintetizo os principais aspectos pró e contra o Giving Pledge (em português: Compromisso da Doação) que foram apontados na matéria.
Giving Pledge – Qual o seu propósito? O que tem e não tem funcionado?
- Propósito de difundir a “cultura humanitária”, do “grande capitalismo” convivendo com a “grande filantropia”
- Objetivo de construir uma cultura em que doar seja a norma. O papel do Giving Pledge é fornecer apoio para transformar compromisso em ação (Taryn Jensen, atual líder do Giving Pledge)
- Compromisso moral assumido pelo doador / família doadora. Não há obrigação legal
- Voltado para apoiar causas sociais e organizações sem fins lucrativos
- Filantropia é vista como apartidária. É uma forma dos muito ricos “retribuírem” à sociedade em geral, e sobretudo às pessoas vivendo em pobreza e vulnerabilidade, independente de partido político
- Liberdade de doação. Doa-se quanto quer (em termos do percentual da fortuna); quando quer (durante a vida, após a morte, ou ambos); e como quer (a escolha da causa social; se para a própria fundação do doador ou não; se diretamente para organizações executoras ou organizações intermediárias; se dentro ou fora do país do doador)
- Não há monitoramento das doações (como os recursos estão sendo aplicados e os resultados gerados)
- Reunião apenas 1 vez por ano da comunidade doadora do Giving Pledge, sem a obrigação de participação
- Movimento associado às figuras dos seus idealizadores, Warren Buffet e o casal Gates. Na ocasião do seu lançamento foi bastante valorizado pelo então presidente democrata dos EUA, Barack Obama.
- Hoje a capacidade do Giving Pledge para atrair novos apoiadores ficou reduzida. Buffet está muito idoso (95 anos) e Bill Gates vem atravessando forte crise de reputação por conta do escândalo Jeffrey Epstein, que engendrou também o seu divórcio de Melinda Gates. Sem falar nos signatários do Compromisso que estão voltando atrás, e o “desassinando”.
Giving Pledge – Quais os ataques e críticas vem sofrendo?
Vem sendo criticado tanto pelos críticos de direita como de esquerda.
- Os críticos de direita – Os negócios representam em si a filantropia dos muito ricos. O sucesso empresarial é a maneira dos bilionários “retribuírem”, na medida em que as suas atividades dinamizam a economia (Elon Musk, ex signatário do Giving Pledge)
- Sob a ótica de promover o bem público, é mais efetivo canalizar os recursos dos bilionários para iniciativas com fins lucrativos do que para organizações sem fins lucrativos. Como foram os casos de Larry Ellison, que decidiu apoiar o programa de Universidade de Oxford ao invés de seguir signatário do Giving Pledge; ou de Peter Thiel, que decidiu destinar os recursos de sua Fundação para alunos que abandonam a faculdade para criar as suas startups.
- A filantropia deve ser, sim, partidária. Deve apoiar partidos e governos que atuam em prol de um ambiente favorável aos negócios. Como, por exemplo, apoiar as iniciativas do governo do presidente Donald Trump, do Partido Republicano. Assim, ser coerente com a política do “America First”. Ou reforçar /complementar os programas sociais públicos de governo (caso de Michael e Susan Dell que doaram para crianças de baixa renda, no âmbito do programa das “contas Trump”).
- Crítica à filantropia do Giving Pledge, muitas vezes associada á ideologia “woke” que, com o seu radicalismo, acaba prejudicando o ambiente dos negócios, e fazendo com que as pessoas tenham aversão aos ricos e ao setor de tecnologia
- Os críticos de esquerda – A filantropia (do Giving Pledge) como maneira de subtrair os tributos devidos ao governo para executar as políticas públicas; de sonegar impostos; e de aumentar o poder político e econômico dos filantropos.
- As doações não chegam na ponta, ficando represadas em instituições intermediárias por bastante tempo.
- As doações não passam de relações públicas para os negócios dos bilionários. Mera “encenação beneficente” deles.
- Filantropia como maneira de lavar os pecados dos “magnatas dos negócios”, que passam a ser percebidos como pessoas virtuosas (Marc Andreessen)
ENFIM, essa desaceleração recente no movimento do Giving Pledge poderia estar sinalizando para o fim de um sonho de filantropia capaz de contribuir para o mundo melhor?
Acredito que não. E aqui me baseio na visão otimista de Melinda Gates de que o Giving Pledge está enfrentando um problema de percurso e é preciso trabalhar nele, isto é, atuar nas várias frentes que se fazem necessárias. Na preocupação muito válida de Amodei, da Anthropic, de que não basta disponibilizar recursos para a filantropia, é preciso atentar para a eficácia de sua aplicação. E ainda na postura decidida de Mackenzie Scott, de que cabe ao filantropo realmente comprometido buscar as maneiras para doar com eficácia. (Mackenzie Scott – um novo modo de fazer filantropia; Modo Mackenzie Scott de fazer filantropia: quais os seus 5 elementos norteadores?
No ANEXO abaixo, e buscando melhor entender e contextualizar essa discussão relacionada ao Giving Pledge, disponibilizo a tradução que fiz da referida matéria do NYT, não ipsis litteris mas de modo livre e explicativo.

