No Brasil a filantropia das famílias ricas está muito aquém do seu potencial. Essa poderia ser uma estratégia relevante para enfrentar muitas das nossas carências sociais. O que fazer para destravar esse potencial?
Em artigo anterior (Como estimular a filantropia familiar no Brasil?) comentei sobre o que caracteriza o conceito de “filantropia familiar estratégica do topo da pirâmide” e quais, a meu ver, os 3 principais desafios no Brasil em termos de política para fazer deslanchar esse tipo de filantropia. Também em outro artigo (Como destravar a filantropia dos muito ricos no Brasil?) analisei o papel das instituições que assessoram a gestão do patrimônio de famílias muito ricas e de organizações especializadas em Terceiro Setor no país para o fortalecimento do ecossistema da nossa filantropia.
Nesse artigo, a intenção é aprender com a experiência da área de filantropia do Liechtenstein Private Banking (conhecido originalmente pela sigla LGT – Liechtenstein Global Trust), que está entre os grandes bancos privados em nível global na gestão de grandes fortunas. A meu ver, o maior mérito do LGT Private Banking é justamente o de ser referência internacional na integração entre gestão de patrimônio das famílias muito ricas e a filantropia familiar estratégica. Isso é algo ainda relativamente raro, mesmo entre os grandes bancos privados internacionais. Por que não beber direto dessa fonte, com vistas a estimular a prática da filantropia estratégica das famílias em nosso país?
No Brasil, em abril de 2023, foi feito o lançamento do Guia Voltado à Filantropia Estratégica, publicação do LGT Private Banking (de 2022). O evento contou com a presença do Príncipe Max von und zu Liechtenstein, presidente do LGT Group e fundador da LGT Venture Philanthropy.
Entendendo o contexto do LGT Private Banking
O Liechtenstein é um dos menores países do mundo — um microestado europeu espremido entre a Suíça e a Áustria, nos Alpes, com cerca de 40 mil habitantes e cuja capital é Vaduz.
Formalmente, Liechtenstein é um principado criado em 1719, mais precisamente uma monarquia constitucional hereditária desde então. O chefe de Estado é o príncipe da família Liechtenstein, que possui poderes políticos relativamente fortes para os padrões europeus.
A família principesca controla o grupo financeiro internacional LGT Group, um dos maiores bancos privados e gestores de patrimônio do mundo voltados para famílias muito ricas. O banco atua em 40 localidades espalhadas por diferentes países, nas áreas de private banking, gestão de fortunas, fundos, investimentos alternativos, planejamento sucessório e filantropia estruturada. A família real não é apenas “acionista”; o banco efetivamente administra parte da fortuna da própria família principesca e usa isso como vitrine de credibilidade perante clientes internacionais.
O que torna Liechteinstein tão singular é o fato de ser um país extremamente pequeno, de baixa tributação, com uma enorme riqueza per capita, um centro financeiro global, uma monarquia hereditária, uma família real bilionária com um banco internacional próprio – o LGT (Liechtenstein Global Trust) Private Banking. Daí porque o Liechtenstein tende a despertar interesse no mundo todo entre as famílias ultra-ricas, gestores patrimoniais, filantropos globais, especialistas em sucessão e trusts /fundos patrimoniais e os investidores.
Guia voltado à filantropia familiar estratégica: principais contribuições
O Guia voltado à filantropia estratégica teve a sua primeira publicação internacional em 2022, tendo sido uma parceria entre a área de Consultoria em Filantropia (Philanthropy Advisory) do LGT Bank e a organização πPhilanthropy Insight, que é voltada para a educação em filantropia para apoiar os filantropos a terem maior impacto em suas doações.
Logo no prefácio do Guia, o príncipe Max von Lichensteint aponta a relevância da filantropia estratégica das famílias e coloca os desafios. Ele afirma que “à medida que os governos lutam para enfrentar os desafios globais e a concentração de riqueza aumenta, as famílias ricas têm uma responsabilidade crescente de se engajar e demonstrar liderança. ….. O envolvimento filantrópico eficaz não é fácil …… (e) o alinhamento das atividades filantrópicas com o contexto mais amplo da carteira de negócios dos filantropos pode adicionar mais complexidade, mas também pode aumentar o impacto geral na sociedade”.
Assim, o Guia foi desenvolvido para apoiar os filantropos em sua jornada filantrópica, para que ela seja o mais efetiva possível. Ele está dividido em 4 capítulos. No capítulo 1 são discutidas as motivações para a filantropia. O capítulo 2 apresenta um modo para estruturar a filantropia estratégica das famílias baseado na lógica da “teoria da mudança”. No capítulo 3 são sugeridos alguns modelos e abordagens para que os filantropos consigam escalar e dar sustentabilidade às suas iniciativas. E finalmente no capítulo 4 são apresentadas maneiras sobre como o filantropo pode fazer uso de sua liderança e influência para envolver a sua família e alinhar os seus negócios e investimentos com a sua filantropia.
Sintetizo a proposta do Guia do LGT Bank, no quadro abaixo.
Guia para a Filantropia familiar estratégica – Síntese da proposta
| 1 Motivações para a filantropia | 1.1 Considere seu motivo para doar | – Quais as razões que o impulsionam para a filantropia? – Muitas vezes, as pessoas optam por concentrar sua filantropia em um ponto de virada em suas vidas, quando dispõem de tempo e recursos financeiros para tal. |
| 1.2 Explore suas motivações | O que o motiva a doar agora (nesse momento)? | |
| 1.3 Identifique os valores centrais e o envolvimento de sua família | – Se você deseja envolver seus filhos, existem valores que encorajem ou dificultem o envolvimento deles? – Você prefere doar em vida ou após a sua morte? | |
| 1.4 Explore o valor agregado (disponibilidades) para a sua filantropia | – Bens pessoais – Seu tempo – Uso do orçamento filantrópico: Como doar? Para além de doar, investir com impacto e obter retornos do investimento? Por quanto tempo – durante a vida ou também depois da morte? Bancar custos operacionais e administrativos das organizações apoiadas? Qual é o apetite riscos – testar novas iniciativas ou concentrar em iniciativas já bem-sucedidas? | |
| 1.5 Encontre o foco filantrópico | Para aumentar a eficácia, o ideal é focar em uma e/ou poucas áreas filantrópicas | |
| 1.6 Desenvolva uma visão e uma missão filantrópica | A visão se concentra no amanhã e no que sua filantropia ou fundação pretende se tornar. A missão se concentra no hoje e no que sua filantropia ou fundação faz | |
| 1.7 Estruture as suas doações | – Fundação privada – DAFs (Donor-Advised Funds). São fundos filantrópcios com destinação orientada pelos doadores. Um DAF é estabelecido de forma contratual entre uma “estrutura umbrella” e o doador individual ou grupo de doadores – Corporações beneficentes (ou sociedade empresária limitada com finalidade de impacto social | |
| 1.8 Mude de doações beneficentes para filantropia estratégica | – Doações beneficentes – Foca nos efeitos ou sintomas do problema; soluções de curto prazo; reativo – Filantropia estratégica – Aborda em uma ou mais causas raízes do problema; soluções de prazo mais longo; proativa; cria comunidades capacitadas; é planejada; tem foco. | |
| 2 Etapas para implementar a filantropia estratégica | 2.1 Entenda o valor agregado de “sua” filantropia | Considerar todas as questões do ítem1 acima |
| 2.2 Entenda as causas-raiz do problema | Focar na prevenção do problema e não na remediação é uma das formas mais importantes de aumentar o impacto de sua filantropia. Ex: a oferta de “bancos de alimentos” é necessária, porém atua na remediação do problema (pobreza extrema), e não em sua prevenção. | |
| 2.3 Entenda o sistema | Entender como as coisas, consideradas como sistemas, influenciam umas às outras dentro de um todo. Isso exige uma mudança na mentalidade, do pensamento linear para o circular. O princípio fundamental dessa mudança é que tudo está interligado. | |
| 2.4 Análise do cenário (ou da situação ou do contexto) | – Pesquisar o cenário– Vai ajudar a entender quem mais está abordando a mesma questão e de que maneira, bem como quais soluções estão funcionando; qual é a política do governo; quais as lacunas existem; quais as organizações atuando, colaborando ou competindo entre si. – Realizar a due diligence das organizações que já estão atuando – Ajuda a avaliar as organizações funcionando e a selecionar a(s) que você pode financiar. | |
| 2.5 Elaborar a Teoria da Mudança (do Doador) | A Teoria da Mudança estabelece o plano de ação do Doador. – Público-alvo para a Teoria da Mudança: São elaboradas para Fundações e/ou Donatários e/ou Programas Sociais. Permite conversa mais transparentes com os donatários, sendo que muitos deles já terão as suas próprias teorias de mudança. O Doador deve procurar minimizar as suas exigências de apresentação de relatórios pelos donatários. – Desenvolver a Teoria da Mudança: Objetivos, estratégias, resultados esperados e governança. | |
| 2.6 Planejamento e Implementação | Planejamento – Abordagens ou alavancas de Mudança: – Soluções baseadas na Comunidade: Conduzidas por organizações comunitárias; – Soluções locais: Baseadas em abordagens sistêmicas (integradas) para um dado território – Abordagens políticas: Baseadas em “advocacy” – Abordagens com base em parcerias com o setor público – Soluções baseadas em mudanças de comportamento (ex: novos hábitos de nutrição) – Soluções com base no mercado financeiro, também conhecidas como “investimento de impacto ou finanças sociais”. Para além das doações: capital acionário; capital de dívida; capital mezanino (acionário + dívida); e capital híbrido (doações + capital acionário e/ou de dívida) Implementação – Operacionalizar o Plano estratégico | |
| 2.7 Avaliação do Impacto | Como um filantropo, você pode precisar entender e supervisionar o impacto das organizações ou dos programas que você financia. Você deve procurar entender como seus donatários ou parceiros estão mensurando seus impactos, quais lições eles estão aprendendo e se tais lições estão ou não sendo utilizadas para “corrigir o curso” de futura atividade. Caso sua filantropia seja mais complexa e caso procure capitanear novas iniciativas ou replicar intervenções efetivas, você deve dedicar um tempo mensurando suas intervenções filantrópicas – ou contratar um especialista para ajudar. Dicas: -Definir o que é sucesso -Indicadores para mensurar o sucesso -Somente colete dados se for realmente usá-los | |
| 2.8 Buscar a mudança sistemática | Se a intervenção tiver sido bem-sucedida, será o momento de considerar como essa mudança pode ser sustentável sem o seu capital filantrópico – a intervenção pode ser assumida pelo governo, ou pelo mercado? Ou a mudança de comportamento que ocorreu significa que o problema não existe mais? | |
| 3 Modelo de filantropia, escala e alavancagem | 3.1 Escolha o modelo para a sua filantropia | – Baseado nos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU – subdividido em 17 Objetivos, 169 Metas e 232 Indicadores a serem atingidos até 2030 – Baseado na Declaração dos Direitos Humanos, da ONU, de 1948 – Baseado na estrutura DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) |
| 3.2 Considere a abordagem de escala para a filantropia | – Utilização de tecnologia – Oferta de serviços (educacionais ou de saúde) baseados na web ou no celular – Replicação de um novo produto ou serviço social, como exemplo as ‘latrinas de baixo custo` – Fusão com outra organização, de modo a somar forças | |
| 3.3 Alavanque a sua filantropia | -T rabalhe em parceria – com comunidades locais, outras organizações sem fins lucrativos, empresas sociais e governos – Facilitar e financiar impacto coletivo – Ao contrário do “impacto isolado”, no qual as organizações trabalham primordialmente sozinhas, a abordagem com impacto coletivo está baseada em uma agenda comum, sistema de medição compartilhada, atividades executadas de modo complementar, comunicação contínua e coordenação de uma organização “backbone”. | |
| 4 Liderança e influência filantrópica | 4.1 Considere o poder e privilégio do filantropo | Analisar como o filantropo usa a sua situação de poder e privilégio (capital financeiro e social) em benefício das comunidades que pretende apoiar. Mas não querer impor as “suas” soluções. |
| 4.2 Envolver a família do filantropo | Envolva a sua família no planejamento sucessório no momento certo. Embora nem todos os membros da família demonstrem interesse na filantropia, os que tiverem interesse poderão ser envolvidos de diferentes maneiras, como participando da estrutura de governança ou ajudando nas decisões de investimento. | |
| 4.3 Alinhe o negócio da família com a filantropia | É uma maneira de “recompensar” pelos danos causados pelos negócios da família e em suas cadeias de fornecimento, no presente e ao longo de gerações, seja pela exploração colonial de terras, desmatamento, uso de combustíveis fósseis, danos ao meio ambiente e exploração de mão de obra barata. É também uma maneira de capitanear vantagens competitivas para os negócios da família. | |
| 4.4 Alinhe sua carteira de investimentos com a sua filantropia | Intencionalidade social e ambiental também na carteira de investimentos do filantropo. É uma forma de aumentar o seu impacto e promover mais alinhamento de uma parcela ou de todos os seus ativos com os seus valores e objetivos sociais e ambientais | |
| 4.5 Busque conselhos e construa suas habilidades em filantropia | Ha muitas pessoas que podem ajudá-lo(a) na condução de sua filantropia, tais como consultores em filantropia de sua própria instituição financeira, consultores e educadores independentes em filantropia, bem como funcionários de fundações que atuam em áreas semelhantes à sua. | |
| 4.6 Cresça como líder filantrópico | Os filantropos mais eficientes são aqueles que adotam uma abordagem estratégica, estão sempre aprendendo e ajustando seu curso de ação, trabalham em parceria, contribuem com suas habilidades, promovem conscientização e tiram proveito de suas redes e conexões em prol da(s) causa(s) que defendem. Ou seja, atuam como líderes no campo da filantropia. |
Fonte – Guia voltado à filantropia estratégica, LGT Private Banking e πPhilanthropy Insight (abril 2023). Elaboração própria.
Alguns insights interessantes trazidos por filantropos mencionados na publicação
- Sentido da filantropia
“Eu queria dar aos meus filhos dinheiro suficiente para que eles sentissem que podiam fazer qualquer coisa, mas não tanto que eles pudessem não fazer nada.” Warren Buffet, EUA / grande investidor (p.12)
“Doar é parte da vida e parte dos valores da minha família. Algumas das minhas crenças são oriundas da religião e da sociedade. Mas hoje, a minha ambição é principalmente fazer o bem à sociedade por meio do trabalho e da honestidade.
Sou empresário, e trabalhar é algo no qual sou bom desde muito cedo. Quando eu tinha 20 anos, não possuía nada; mas aos 29, eu já havia ganhado o equivalente a centenas de milhões de dólares hoje. Após ter feito vasta fortuna muito rapidamente e em uma idade muito jovem, foi a filantropia que realmente definiu o valor do dinheiro para mim. Não acredito em coisas materiais. Invisto meu dinheiro, mas apenas para o bem social.
E tento trazer outros comigo para fazer o mesmo. Na verdade, para cada dólar que dou a uma causa, planejo que outros doem mais dinheiro“. …… Elie Horn, Brasil / Cyrella (p.13)
- Filantropia com foco. Parceria com o setor público.
“Minha família sempre esteve envolvida em voluntariado e com uma modesta filantropia há várias gerações. Mas, apesar de nossa abordagem prática, nosso trabalho se dispersou.
Isso começou a mudar em 2006, quando eu estava prestando assistência jurídica no norte de Israel a civis que sofriam com a 2a guerra do Líbano. Essa minha experiência inspirou meus pais a ajudarem a melhorar a saúde pública em áreas vulneráveis de Israel. A família decidiu apoiar o Centro Médico Baruch Padeh. A família também criou um fundo de bolsas de estudo para pós-doutorandos. Com a missão de suprir as deficiências do sistema público de saúde israelense, as bolsas priorizam especializações que não existem em quantidade suficiente em Israel, como transplante cardíaco, emergência e cirurgia infantil. Também investimos em infraestrutura e capital humano para diminuir as desigualdades de saúde pública em Israel”. Nataly Davidai, Israel /Fischer Advocacia. (p.15)
- Para planejar uma filantropia efetiva, a importância de se conhecer antes quais são as reais necessidades do público a ser atendido
“Em 2005, meu marido e eu compramos quatro fazendas e a área de manancial ao redor para proteger uma lagoa no Pantanal, Brasil, que era vizinha de uma região protegida pela UNESCO. Foi assustador, senti que estava assumindo responsabilidade demais.
A população era muito carente – não havia leis e nenhum serviço público. Decidi contratar um pesquisador e, juntos, estudamos o cenário e o ambiente para avaliar como poderíamos ajudar. No início, eu só conhecia uma pessoa na vila, mas ela nos conectou ao restante da comunidade. Durante 14 meses, entrevistamos mais de 100 pessoas. Eles disseram que a coisa mais importante que poderíamos fazer não estava relacionada a proteção do meio ambiente, mas sim ao investimento em educação. Dessa forma, construímos uma escola para 60 crianças.
Esse processo me ensinou a não fazer suposições sobre necessidades, a desmembrar minha abordagem em várias etapas e a fundamentar cada ação em evidências baseadas em pesquisa e a escutar os envolvidos. Por meio da pesquisa, você desenvolve relações de confiança e pode criar as condições necessárias para uma colaboração bem-sucedida.
Meu conselho aos filantropos é: pesquisem, por favor! É a primeira etapa, e é muito importante. Todo o dinheiro investido na pesquisa retornará em dobro, até mesmo em triplo, para o impacto. Você tem de ouvir a comunidade; é uma demonstração de respeito importante. Você não está fazendo algo para eles, e sim fazendo algo com eles”. Tereza Bracher, Brasil / Acaia Pantanal, casada com Cândido Bracher, ex CEO Itaú Unibanco (p.38)
- Filantropia deve ter compromisso com a efetividade
“Há muita complacência na filantropia. As pessoas acham que as organizações estão tentando fazer o bem, e isso é suficiente, mesmo que os resultados não apareçam. Mas isso é um desperdício e é ineficiente. Exclui programas melhores.” Dustin Moskovitz, EUA / Facebook (p.39)
Enfim, que lições tirar do Guia?
A meu ver, esse Guia do Liechtenstein Banking serviu para introduzir e/ou consolidar conceitos, processos e trajetórias relevantes para nortear a Filantropia Familiar Estratégica. Vale observar que até recentemente, a ênfase estava na filantropia corporativa estratégica, ou seja, no relacionamento das empresas com o seu stakeholder “comunidade” e sobre como esse relacionamento beneficiava realmente a comunidade e os negócios da empresa. O Guia abordou 4 aspectos importantes, no sentido de:
- Caracterizar o que é a “filantropia estratégica das famílias”, com o estabelecimento dos seus pressupostos norteadores, tais como: motivações, valores, foco, visão, missão, envolvimento da família, disponibilidades, apetite a risco;
- Orientar o filantropo para planejar e implementar cuidadosamente a sua filantropia, seguindo determinadas etapas, tais como: o entendimento das causas-raizes do problema e da influência do “sistema”; a análise de cenário com a “due diligence” das organizações atuantes; elaboração da “teoria da mudança” para a sua atuação; escolha das “alavancas de mudança”; avaliação de impacto – feita na medida certa e baseada no conceito de “sucesso” pré-acordado; e a busca pela “mudança sistemática” e sustentável, que passará a prescindir do apoio do filantropo.
- Orientar o filantropo para poder dar, mais à frente, uma contribuição consistente para o desenvolvimento humano, mediante ter clareza de qual é o seu “modelo de filantropia”; poder “escalar” o impacto gerado, por meio, por exemplo, do uso de tecnologia; e poder alavancar o potencial de sua filantropia, através de parcerias e da atuação no âmbito do “impacto coletivo”.
- Orientar o filantropo para poder contribuir para a expansão do campo da filantropia, ao fazer uso de suas próprias habilidades, influência e liderança; para isso, buscando aconselhamentos especializados, envolvimento de sua família, alinhamento com o negócio (quando for o caso), alinhamento de sua carteira de investimentos e, sobretudo, atrair cada vez mais novos filantropos para as suas causas sociais.
A partir dessa breve apresentação do Guia, fica claro o papel abrangente e ambicioso que se espera que a filantropia familiar estratégica venha a ocupar para a transformação social e ambiental em âmbito global nos próximos anos. A meu ver, os muitos conceitos e ideias elucidados no Guia não chegam a ser propriamente novidade na área social, mas foram sistematizados de modo bastante lógico e coerente, fruto da longa experiência prática do Liechteinstein Group na orientação da filantropia das famílias de alto poder aquisitivo, não apenas naquele Principado mas nos vários países em que atua.
Vale, todavia, a ressalva de que ao mesmo tempo em que se pretende aqui enfatizar a importância do fortalecimento da filantropia familiar estratégica e estruturante, não se pode, por outro lado, negligenciar a importância da filantropia assistencial e emergencial. Não que esse segundo tipo de filantropia seja capaz de gerar as soluções para os problemas sociais e ambientais, mas ele é, sim, necessário para enfrentar situações críticas de sofrimento humano e urgência que sempre vão existir. Assim, se eu tivesse que sugerir o percentual de alocação para o montante dos recursos de filantropia de uma família rica, eu diria 80% para a filantropia estratégica e 20% para a filantropia assistencial.
Por último, e a título de ilustração, deixo aqui um roteiro de perguntas [relacionado aos aspectos (1) e (2) ] para uma pessoa que esteja motivada pelo desejo genuíno de seguir pelo caminho da filantropia familiar estratégica. Nesse exemplo, supor que a pessoa esteja no Brasil, seja de meia-idade ou mais, e possa dispor de recursos para além de garantir uma vida saudável para si própria e a sua família.
- Por que doar?
- O que está disposta a ceder para a filantropia em termos de orçamento, tempo e competências?
- Gostaria de envolver a família? De que maneira?
- Planejamento sucessório: herança X filantropia?
- Qual o foco da filantropia? (público-alvo, território)
- Distribuição entre filantropia estratégica e assistencial?
- Tendo em vista a busca por gerar impacto social, qual a tolerância ao risco? Doar para organizações filantrópicas nascentes ou aquelas já maduras e bem estruturadas?
- Em cada situação, como identificar se a filantropia está sendo efetiva? Ou seja, tendo “sucesso”?
- Doar diretamente para uma organização filantrópica atuando na ponta? Como se envolver com a organização e poder contribuir para ela? Ou não é preciso se envolver, pois corre o risco de mais atrapalhar do que ajudar?
- Ou seria melhor doar por meio de uma organização intermediária?
- Criar um Fundo individual específico para filantropia, tipo um DAF, e ter uma carteira de organizações filantrópicas apoiadas? Deixar esse Fundo como um legado, para quando morrer?

