IA: tábua de salvação para os pequenos do Terceiro Setor

Por on 09/09/2026

Será que no Brasil a Inteligência Artificial (IA) pode mesmo ser “tábua de salvação” para as nossas organizações de base comunitária? Ou para esse grupo ainda é uma tecnologia distante e misteriosa que, ao mesmo tempo que encanta, também assusta.

O potencial da IA para o bem

A IA pode ser a “tábua de salvação” para agilizar a solução dos graves problemas sociais em países e territórios pobres e vulneráveis, em áreas como saúde, educação, trabalho e renda, assistência social e alimentação. Isto porque, por suas características de unir rapidamente os pontos de uma rede, as ferramentas de IA conseguem potencializar a capacidade de gerar soluções inovadoras, de baixo custo e capazes de combater esses problemas sociais que já perduram há tantos anos.

 Em sentido figurado, é como se até hoje (no mundo analógico) as soluções para os problemas sociais estivessem vindo a cavalo; e, a partir de agora, no novo mundo digital da IA, essas soluções poderão vir “de drone” sem a limitação das ruas e estradas. Mas, para isso, é preciso fazer o uso rápido desse potencial da IA para o bem, como recomenda estudo recente do Banco Mundial 👇

“A Inteligência Artificial (IA) pode ajudar países em desenvolvimento a fazerem em uma década o que, sem ela, levaria um século para ser feito. ….. Para isso, os governos precisam atuar com determinação para evitar falhas que podem deixá-los para trás…..

Os empregos em países de renda elevada estão mais de 3 vezes sob o risco da automação derivada da IA generativa do que os países de renda média ou baixa, onde apenas 4,5% dos empregos hoje existentes seriam afetados, em comparação a 14,2% nos países de renda elevada. …..

….. Ao mesmo tempo, 16,2% dos empregos nas economias em desenvolvimento teriam ganhos significativos de produtividade decorrentes da IA, perto dos 18,7% projetados para os países de renda alta.

A IA é como uma tábua de salvação para as economias em desenvolvimento, que elas devem agarrar.  …… Ao adaptar pequenas ferramentas de IA e de baixo custo às condições locais, é possível melhorar atendimento médico, serviços jurídicos e de educação, bem como as condições para a agricultura, ao alcance de milhões.

….. Mas é preciso correr…. Ao se considerar que o desenvolvimento da IA está concentrado em um pequeno número de países com infraestrutura e conhecimento avançado, as debilidades intrínsecas aos países de menor renda podem aumentar a distância que os separam das nações desenvolvidas, o que só ampliaria a desigualdade”. ( BANCO MUNDIAL, A PROMESSA DA INTELIGÊNCIA ARTICIFICIAL, agosto 2026. Publicado no Valor, 04.08.2026)

IA a serviço das organizações de base comunitária

No Terceiro Setor, e aqui me referindo especificamente às organizações de base comunitária no Brasil, a IA pode vir a ter um papel fundamental na gestão dos dados e, portanto, contribuindo para o fortalecimento dessas instituições e do papel social que elas podem vir a desempenhar.

Em geral, são organizações pequenas, com equipe e recursos financeiros super reduzidos. O sonho e o propósito delas são grandes, porém a capacidade real de gerar impacto social ainda é muito pequena. Para ampliar e aprofundar essa capacidade é preciso recursos; mas para captar recursos é preciso demonstrar resultado. Como romper esse círculo vicioso da carência de recursos?

É quando a IA pode vir a se tornar a tábua de salvação para essas organizações nascidas dentro de territórios vulneráveis, por iniciativa de lideranças locais, que têm legitimidade, conhecimento dos problemas e do caminho para as soluções. Porém, na maior parte das vezes, são invisíveis aos olhos de potenciais parceiros que querem – e podem – aportar recursos financeiros e também atrair novos parceiros. 

E por que a IA poderia ter esse papel salvador?

Justamente porque a IA tem a capacidade de cruzar dados de múltiplas maneiras e, com isso, gerar informações úteis e relevantes para apoiar a administração da organização. Que antes iria demandar uma equipe especializada e onerosa. Com os agentes de IA entrando em campo, penso que a gestão dessas organizações de base comunitária pode ficar bem mais simples e de baixo custo, e com resultados que vão surpreender.

Explico melhor. Basta um simples arquivo em Excel bem estruturado, onde são inseridos alguns dados cuidadosamente selecionados de todos os participantes da instituição, para que, a partir daí, a IA viabilize os principais indicadores de monitoramento e resultados dos seus beneficiários. Indicadores estes que serão a base para demonstrar a eficácia do trabalho da organização e, com isso, fortalecer o trabalho da captação de recursos. Sem falar, é claro, na informação útil gerada para subsidiar e orientar o trabalho do gestor e as tomadas de decisão.

Também basta um outro arquivo simples em Excel, em que são inseridos os dados de entrada /doação de recursos, e de saída desses recursos para bancar as despesas de manutenção da organização e de execução dos seus projetos. A partir daí, e em função das necessidades de gestão da organização, a IA é capaz, então, de montar um sistema orçamentário e financeiro para a instituição, além de viabilizar a sua prestação de contas regular.

Um pouco da história da IA

A  Inteligência Artificial (IA) não nasceu agora. A história da IA teve um marco bastante claro: 1956, na Conferência de Dartmouth, nos EUA, quando o termo Inteligência Artificial foi formalmente proposto como um novo campo de pesquisa dentro da ciência da computação. A partir daí, a IA só foi evoluindo no sentido de aprender com os dados, reconhecer padrões, gerar conteúdo, fazer previsões e apoiar decisões. Tanto que, entre 1990 e 2020, muitos de nós que somos mais antigos, ouvíamos com frequência os termos “redes neurais”, “big data”, “machine learning” e “deep learning”.

Por volta de 2022 é que assistimos a um novo salto da IA em termos de mudança significativa de escala, de acessibilidade e do seu novo papel como “agente”. Haja vista atualmente os conhecidos aplicativos de IA como o ChatGPT (da OpenAI), Gemini (da Google), Copilot (Microsoft) e o Claude (da Anthropic). Assim, para além da IA Generativa, que gera conteúdos (a partir da “montanha” dos dados processados), passamos a ter também a IA dos Agentes com capacidade para planejar e executar tarefas de forma autônoma.

IA e o risco para o mal

O fato é que a evolução da IA, em termos de aprendizado e capacidade de execução de tarefas, tem sido tão rápida que hoje já ameaça superar os humanos, isto é, os seus próprios criadores. Como nos filmes de ficção, com esse poder ilimitado de tabular as informações e agir, a máquina poderá em breve dominar os humanos, assumir o controle das decisões e decidir a seu bel prazer sobre os destinos do planeta Terra. Assim, se não houver o entendimento entre os países e a regulamentação rigorosa sobre o uso ético da IA, o risco de guerras, violência e destruição se torna bastante iminente e real. É o que nos alerta essa matéria recente do Financial Times 👇

Em julho agora (2026), os agentes de IA (que são softwares capazes de executar tarefas sem intervenção humana) da Open AI (que é a empresa dona do ChatGPT conseguiram escapar de um ambiente de teste sem acesso à Internet, navegar pela Internet aberta e, por fim invadir os sistemas da popular plataforma de software Hugging Face – sem o conhecimento ou permissão de qualquer operador humano. …..

Isto porque, dois meses antes – em maio, esses agentes haviam recebido o difícil desafio, em termos de segurança cibernética, que tinha como objetivo testar os limites de suas capacidades. Assim, essa “invasão” na realidade representou o sucesso na tarefa que lhes foi atribuída.

…..Especialistas ouvidos pelo Financial Times dizem que as invasões representam um ponto de inflexão para a segurança cibernética global – os agentes de IA são agora capazes de combinar habilidades diferentes e complexas para atacar alvos no mundo, sem controle ou ajuda externa.

…. Cada vez está ficando mais tênue a fronteira entre um poderoso defensor da ciber-segurança e um hacker perigoso. [por definição o “hacker é a pessoa com profundo conhecimento em tecnologia que entende o funcionamento interno de sistemas, programas e redes de computador, com capacidade para fazer coisas além do que o criador original planejou”]

….. Até agora, as invasões realizadas por agentes de IA não foram devastadoras, …, mas o risco este crescendo à medida em que esses agentes de IA passam a operar em paralelo…..  Na semana passada (agosto 2026) tivemos conhecimento de um ataque de agente de IA contra um Estado-nação. Hackers ligados à China invadiram sistemas do governo de Taiwan usando simultaneamente até 8 agentes autônomos de IA.

…… por anos, as pessoas se preocupavam com a possibilidade de que criminosos usassem a IA como arma em ataques cibernéticos. “Mas eu não esperava que o sinal de alerta viesse dos próprios agentes, ao escaparem durante testes e invadirem outras empresas”

Em julho, mais de 1.300 especialistas de todo o setor de tecnologia alertaram para os riscos do desenvolvimento da IA sem nenhum controle. Eles pediram um esforço internacional para desacelerar a produção de novos modelos e dar tempo às agências reguladoras para que estabeleçam normas de segurança. … O senador americano Bernie Sanders cobrou uma pausa no desenvolvimento de sistemas de IA mais poderosos pelo bem da humanidade”. (In FINANCIAL TIMES, BY MADHUMITA MURGIA. Publicado no Valor, 19.08.2026)


ENFIM, como tudo na vida, há sempre o lado bom e o lado ruim das coisas. Cabe a nós, como usuários, controlar o lado ruim, e usufruir ao máximo do lado bom. Veja o caso da energia nuclear. Ela pode ser usada para gerar eletricidade em grande escala e para o diagnóstico e tratamento do câncer; por outro lado, se usada como arma nuclear, pode provocar destruição em massa. Tal também é o caso da Inteligência Artificial (IA). Por um lado, amplia conhecimento, produtividade e, sobretudo no nosso caso específico, viabiliza o fortalecimento e expansão das organizações sociais de base comunitária. Mas, sem dúvida, também aumentam as possibilidades de fraude, guerra, e até destruição planetária.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.