- O DESAFIO
No Terceiro Setor, esse é um desafio antigo para projetos sociais: o saber comunicar resultados sociais de modo objetivo, capaz de conseguir atrair cada vez mais apoiadores, sejam eles investidores sociais ou filantropos (ou doadores). À semelhança do que já vem sendo amplamente adotado na área econômica.
Nos empreendimentos /projetos econômicos, a taxa de lucratividade – expressa pelo ROI (Return On Investment) e em suas diferentes variações – consegue ser esse indicador síntese para evidenciar se o resultado esperado foi alcançado, além de demonstrar (com razoável margem de confiança) se um dado empreendimento econômico pode ser (ou foi) significativamente melhor do que outro. O ponto a destacar é que já existe um conhecimento consolidado nesse campo da gestão corporativa.
Já nos empreendimentos / projetos sociais, os resultados esperados se traduzem nas mudanças positivas promovidas nas vidas das pessoas atendidas em seus diferentes aspectos. Só que nesse caso a percepção da mudança é multivariada, com os vários aspectos entrelaçados entre si, na maior parte das vezes subjetivos, e raramente há consenso quanto ao aspecto preponderante. Daí, os indicadores acabam espelhando essa complexidade da atuação social, precisando ser cuidadosamente mapeados e identificados.
Só para citar alguns exemplos desses resultados esperados: melhorar autoestima, estimular capacidades socioemocionais, desenvolver competências para o mercado de trabalho, reduzir risco a diversos tipos de violência, melhorar qualidade de vida, promover bem-estar, dentre outros. Então, e pela própria natureza das intervenções sociais, é que decorrem os muitos desafios da avaliação: como medir? Como tangibilizar conceitos abstratos? Cada avaliador vai medir à sua maneira? Como atribuir causalidade ao projeto social em questão? Como isolar os efeitos do projeto das características individuais e do contexto? Qual a duração do efeito? O quanto melhor pode ser considerado suficiente? Como comparar iniciativas sociais entre si – sejam elas semelhantes em termos do campo de atuação, ou não?
Enfim, será que a monetização poderia ser a solução para todas essas questões de medição e, desse modo, se conseguiria consolidar em um único indicador os resultados / impactos do projeto social?
Não tenho dúvidas de que esse anseio pró-simplificação foi inspirado na disponibilidade do indicador do ROI da área econômica. Assim, já de alguns anos, na área social o grande desafio da avaliação tem sido justamente o de como gerar um único indicador-síntese, que seja objetivo, simples (sem ser simplista ou simplório!), confiável em termos metodológicos, capaz de traduzir os diferentes resultados sociais e viabilizar comparações entre os diferentes projetos sociais.
A questão, não só no Brasil como em âmbito global, é se esse desafio avaliativo é mesmo viável. Ou se deveríamos construir uma lógica diferente para analisar o setor social, dadas as suas muitas especificidades vis-à-vis ao setor econômico. Porém, uma coisa é certa: informar sobre a eficácia, ou potencial de eficácia, das iniciativas sociais do Terceiro Setor é pré-requisito básico para mobilizar recursos junto a filantropos e investidores sociais.
2. RUMO AO INDICADOR-SÍNTESE EM PROJETOS SOCIAIS: O QUE JÁ FOI PROPOSTO?
No âmbito da área social, há que se reconhecer que a Análise do Custo-Benefício é antiga, no contexto do critério da medição da Eficiência. Só aqui relembrando, a Eficiência diz respeito a cumprir todos os diferentes objetivos do projeto social (critério da Eficácia) ao menor custo possível. Assim, como se vê, só faz sentido julgar a eficiência de um dado projeto, se ele tiver sido eficaz em seus objetivos de processo e de resultados. (Manual de Projetos Sociais em Organizações Sociais, p.90).
Ou indo além, só faz sentido fazer a comparação da eficiência entre projetos sociais, se eles tiverem sido “igualmente eficazes” – o que, diga-se de passagem, trata-se de um conceito por demais abrangente e complexo.
O critério da eficiência se divide em ‘eficiência técnica` e ´eficiência econômica. A eficiência técnica compreende a relação entre unidades de produto e unidades de insumos utilizados. Já a eficiência econômica se subdivide em dois tipos: (i) o custo-eficácia (ou custo-efetividade) que é quando todos os insumos são agrupados em valores monetários, e comparados aos produtos ou aos resultados gerados; (ii) o custo-benefício (também conhecido como retorno econômico) que é quando os resultados do projeto são também transformados em valores monetários e comparados aos seus custos monetários.
Todavia, dadas as muitas dificuldades e complexidades para a sua estimativa, o levantamento do Custo-Benefício ainda não havia ganhado tração na área social até recentemente (Manual, p.94), o que só viria a ocorrer a partir de 2009, com a criação da metodologia SROI (Social Return On Investment).
A metodologia do SROI (ou do Protocolo SROI) foi uma iniciativa do Cabinet Office (Office of the Third Sector) do Reino Unido e de um consórcio de organizações do Terceiro Setor naquele país, The SROI Network. Em 2015 essa rede nacional se fundiu a outras iniciativas globais e passou a se chamar Social Value International (SVI). No Brasil, o IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) foi a organização pioneira na introdução e disseminação da metodologia, seguindo as orientações do SVI.
A meu ver, o SROI surgiu, pois, como um contraponto na área social para o indicador gerencial, o ROI (Return On Investment), amplamente utilizado no setor econômico pelas empresas há muitos anos. Vale lembrar que o ROI é obtido do quociente entre o acréscimo no faturamento (atribuível ao investimento realizado) e o investimento (aqui com o sentido de recurso novo aportado). A fórmula é: ROI = [(Receita direta – Custos e Investimentos) / Custos e Investimentos].
No fundo, tanto a metodologia do SROI como a Análise do Custo-Benefício (ACB) ou do Retorno Econômico de projetos sociais têm em si uma proposta comum, que é a de permitir concluir, para uma dada intervenção social, que para cada “R$ 1 investido foram gerados R$ X em valor social”.
O mérito do SROI vis-à-vis à ACB é o de ter estabelecido um guia, com princípios e um passo-a-passo a ser seguido por organizações que queiram fazer essa estimativa. Os defensores do SROI são firmes em apontar que o indicador final do SROI é apenas uma parte da metodologia, e que muito mais importante e enriquecedor é o entendimento da lógica de atuação do projeto / intervenção social que a implementação da metodologia propicia. (The SROI Guide, 2009) (IDIS,2012) (IDIS, 2021)
São 7 os princípios norteadores para a construção do SROI:
| (1) Envolver os públicos relevantes; (2) Entender o que muda; (3) Valorar monetariamente as coisas que realmente importam para o público atendido; (4) Incluir somente o que for material, ou relevante; (5) Não reivindicar em excesso; (6) Ser transparente; (7) Verificar os resultados, no sentido de “checar” se os resultados obtidos são corretos e confiáveis. |
Já o passo-a-passo envolve 6 etapas:
| (1) Estabelecer o escopo e identificar os públicos relevantes; (2) Mapear os resultados (Teoria da Mudança) por meio do engajamento com esses públicos relevantes; (3) Evidenciar os resultados e dar-lhes um valor monetário; (4) Estabelecer impacto, no sentido de isolar os efeitos; (5) Calcular o SROI; (6) Fazer o Relatório e Comunicar os Resultados. |
3. O INDICADOR DO SROI: PRÓS E CONTRAS
De modo geral, têm sido apontadas tanto vantagens como também desvantagens do indicador do Custo-Benefício, ou SROI (Social Return On Investment), ou retorno econômico de projetos / intervenções sociais. Listamos, a seguir, algumas dessas vantagens e desvantagens.
Prós e Contras do indicador de Retorno Econômico / SROI de Projetos Sociais no Terceiro Setor
✅ PRÓS
- Mensuração objetiva do impacto
- Ao atribuir valores monetários aos benefícios sociais, é possível comparar projetos distintos de maneira mais concreta.
- Melhor alocação de recursos
- Ajuda investidores, financiadores e gestores a decidirem sobre onde investirem para obter maior impacto social por real investido.
- Transparência e prestação de contas
- Torna os resultados mais compreensíveis para stakeholders, incluindo governo, financiadores e sociedade civil.
- Visão ampla de valor
- Inclui externalidades positivas e negativas que normalmente não são capturadas em análises financeiras tradicionais.
- Fortalece o argumento para investimentos sociais
- Traduz o impacto social em “linguagem econômica”, o que pode atrair o interesse de investidores públicos e privados.
❌ CONTRAS
- Dificuldade de mensurar certos impactos
- Nem todos os benefícios sociais podem ser facilmente quantificados ou monetizados (ex: autoestima, fortalecimento comunitário).
- Risco de simplificação excessiva
- Reduzir impactos complexos a números pode levar à perda de nuances importantes, como mudanças qualitativas.
- Dados limitados ou imprecisos
- Projetos sociais muitas vezes não têm dados robustos, o que compromete a confiabilidade da análise.
- Custos altos de implementação
- Realizar uma análise SROI pode ser caro e demandar bastante tempo, dificultando especialmente no caso de organizações menores.
- Viés na escolha de indicadores e valores monetários
- As decisões sobre como atribuir valor a determinados resultados podem ser subjetivas e influenciar a análise.
- Pode favorecer projetos com resultados mais facilmente mensuráveis
- Projetos com impacto de longo prazo ou qualitativo podem ser subvalorizados em relação a projetos com resultados imediatos e quantificáveis.
Da enumeração acima, interessante destacar que os “contras” dizem respeito basicamente às fragilidades e limitações referentes à estimativa em si do SROI / retorno econômico das intervenções sociais. Ao passo que todos os “prós” estão relacionados à objetividade que o uso do indicador possibilita. Daí, deixo a seguinte provocação: será que podemos confiar em um indicador tido como objetivo, se a sua estimativa está permeada de subjetividades?
Vejamos alguns resultados encontrados para SROI para diferentes projetos sociais, todos eles extraídos do site do IDIS:
- Dos onze projetos que integram o Programa Petrobras Socioambiental, para cada 1 real investido, foram “gerados” em média R$ 4,70 em forma de benefícios para o meio ambiente e a sociedade – como renda, conservação de ecossistemas costeiros e marinhos, desenvolvimento profissional e recuperação de áreas de florestas. (IDIS, 02.02.2022)
- No caso da Amigos do Bem, o Retorno Social sobre Investimento (SROI) da instituição é de 6,45, ou seja, cada R$ 1 doado ao projeto “se transforma” em R$ 6,45 na ponta, a quem é atendido no sertão nordestino (IDIS, 20.04.2023).
- Na Gerando Falcões, a avaliação de impacto das Oficinas de Esporte e Cultura com crianças e adolescentes e do Programa de Qualificação Profissional com jovens e adultos realizado em São Paulo demonstrou que, em 10 anos, a cada R$ 1,00 investido nessas iniciativas “foram revertidos” R$3,50 em benefícios sociais (IDIS, 02.07,2021)
- Na avaliação do Programa Guri, de educação musical e inclusão social na capital e Grande São Paulo gerido pela ONG Santa Marcelina Cultura, se concluiu que a cada R$ 1 que a Secretaria de Cultura e Economia Criativa investe são “gerados” R$ 6,53 em benefícios sociais (IDIS, 2018)
O fato de os indicadores SROI calculados para esses projetos sociais terem sido guiados por uma mesma orientação metodológica (SROI) não quer dizer que estejam livres de subjetividades em suas estimativas. A título ilustrativo, veja algumas dessas subjetividades, que são inerentes às diferentes formas das pessoas interpretarem, sentirem e perceberem os fatos, e que são necessárias para compor as estimativas do SROI.
- Modo de tangibilizar os conceitos abstratos para os resultados previstos;
- Atribuição de pesos aos aspectos que compõem os conceitos;
- Atribuição de valor às mudanças percebidas (de quanto mudou? probabilidade?)
- Efeitos de cada contexto social para explicar o andamento do projeto;
- Efeitos de cada contexto social para explicar as mudanças observadas nos participantes;
- Efeitos das características individuais para explicar os resultados obtidos;
- Modo de atribuir a duração dos efeitos do projeto na vida das pessoas atendidas;
- Modo de atribuir o declínio da redução de intensidade dos efeitos do projeto ao longo da vida das pessoas;
- Hipóteses adotadas para obter as proxíes de valor monetário para os resultados do projeto.
- Hipótese adotada para a taxa de desconto, de modo a trazer a preços constantes, isto é, para um mesmo momento, tanto os custos quanto os benefícios do projeto.
Sobre essa questão específica da objetividade do SROI, que é permeada por muitas subjetividades para viabilizar a sua estimativa, tenho feito algumas reflexões ao longo dos anos, disponíveis nos meus artigos a seguir:
Fonte: Site e Livros: Ecossistema das iniciativas sociais no Brasil`(2021) e ‘ Rumo à eficácia do setor social privado no Brasil` (2024)
Por último, e aqui citando o professor Roger L. Martin, especialista em estratégia e ex-reitor da Escola de Gestão Rotman da Universidade de Toronto, o caso do SROI (ou do retorno econômico de projetos sociais) ilustra muito bem o que ele chamou do mito da objetividade, no sentido de que “desde que a informação seja objetiva, então o que o dado diz é certo, e tudo o mais é errado. …… É como se fosse uma pequena ilha de objetividade em um vasto mar de subjetividades. No entanto, existe uma confusão consistente e problemática entre a objetividade do dado em si e a objetividade – ou a falta dela – em termos de sua coleta e do seu uso” .(The Myth of Objectivity & Strategy in Médium, Apr. 21, 2025)
4. UM CASO ILUSTRATIVO
Apresentação
Suponha uma organização filantrópica XPTO, nome fictício baseado em uma situação real. XPTO atua em uma das favelas da área central da cidade do Rio de Janeiro há 30 anos, com o foco estruturante em capacitação (oferta de vários cursos profissionalizantes) e inclusão no mercado de trabalho dos jovens em situação de vulnerabilidade social morando naquelas comunidades. Outra vertente da atuação de XPTO, de caráter emergencial, é o fornecimento de cestas básicas para os moradores de rua do centro do Rio, e a atitude de escuta e orientação visando a reinserção deles no mercado de trabalho.
De modo a dispor de um indicador objetivo, que falasse a “linguagem do mercado de investimentos, capaz de atrair investidores sociais, entusiasmados pela possibilidade de geração de elevado retorno social”, XPTO decidiu inovar na proposição de uma metodologia de retorno econômico para traduzir o impacto social da organização, não apenas junto aos seus beneficiários como também junto à sociedade como um todo. Uma metodologia, que segundo o entusiasmado diretor de XPTO, teria a vantagem de ser “simples e abrangente, capaz de traduzir o potencial de impacto social da organização junto aos públicos do entorno envolvidos com ela”.
Mensuração de resultados dos impactos sociais de XPTO sob a ótica financeira
No quadro a seguir, foram sintetizados os cálculos propostos por XPTO para medir o “retorno econômico do seu impacto social”, conhecido como SROI (Social Return On Investment) ou o Retorno Social do Investimento.
| 1. Cálculo da geração de renda movimentando a economia no ano, 2025 (*) – Renda potencial dos ALUNOS formados e certificados = nº dos alunos (3.000) X 13 meses X 1 SM (R$ 1.518) = R$ 59 milhões. Hipótese adotada supondo que os alunos já estivessem trabalhando nas áreas dos cursos. – Renda real dos EMPREGADOS [400 jovens aprendizes (0,5 SM) + 800 jovens efetivamente empregados após o termino do Projeto Jovem Aprendiz e por meio da Central de Empregos disponibilizada por XPTO (1 SM)] = nº de atendidos X 13 meses X 1 SM (R$ 1.518) =R$ 20 milhões – Renda real dos MORADORES DE RUA que voltaram a trabalhar = 150 moradores de rua trabalhando X (1 SM) X13 meses = R$ 3 milhões – Fornecimento de alimentação (quentinhas) aos MORADORES DE RUA = R$ 6 milhões (dinheiro revertido em renda real para os comerciantes locais) – Renda real dos COLABORADORES de XPTO = Despesas com Pessoal = R$ 10 milhões TOTAL = R$ 98 milhões |
| 2. Cálculo das despesas operacionais e de investimentos = R$ 25 milhões 3. ROI = [(R$ 98 milhões – R$ 25 milhões))/ R$ 25 milhões] = 2,9 |
Fonte: Baseada na propostoa de XPTO. Valores fictícios. (*) valor do salário-mínimo utilizado foi o vigente em 2025: R$ 1.518,00. Considerado o recebimento da renda naquele ano por 12 meses, incluído aí o 13º salário.
Nesse método desenvolvido por XPTO para estimar o retorno econômico dos seus 2 principais projetos, foram adotados 5 pressupostos, a saber:
Primeiro, foi atribuída uma renda “potencial”, mensal e mínima, de 1 salário-minimo (1 S.M) durante 1 ano (ou melhor: 13 meses, considerando o 13º salário) para cada aluno que tenha feito, pelo menos, 1 curso profissionalizante oferecido por XPTO (como gastronomia, cabelereiro, corte e costura, etc….); ou também algum curso técnico de maior duração (2 a 3 anos) que ao final emite um certificado (como Informática, Eletrônica, Mecânico, Administração, etc…). A hipótese da renda “potencial” é a de representar a renda que a pessoa poderia ganhar, dada a sua qualificação e capacidade adquirida no curso, mesmo que não tenha ganhado esse valor.
Segundo, foi atribuída uma renda “real”, também mínima, aos participantes do projeto de capacitação que foram de fato inseridos no mercado de trabalho nesse ano, seja na condição de jovens aprendizes (de 0,5 SM mensal), ou como empregados ou empreendedores (de 1 SM); e também aos participantes do projeto de moradores de rua, que deixaram essa condição e voltaram a trabalhar (de 1 SM).
Terceiro, no caso do fornecimento de alimentação aos moradores de rua, a hipótese adotada foi a de considerar que o valor total das compras de alimentos e de embalagens para comporem as “quentinhas” tivesse sido todo revertido em benefício dos comerciantes locais.
Quarto, e usando a mesma lógica do item anterior, o total dos salários pagos aos colaboradores da instituição no ano foi considerado como decorrência / efeito direto da atuação social de XPTO.
Quinto e último, a duração do impacto social das iniciativas conduzidas por XPTO foram limitadas a 1 ano, isto é, ao ano em que as iniciativas em questão foram executadas, seja parcialmente ou totalmente.
Como se vê, a partir desse método desenvolvido por XPTO, se concluiu que para cada R$1,00 investido na organização em 2025 “houve um retorno social” de R$ 2,90. Na avaliação do próprio diretor de XPTO, “esse valor evidencia que foi um excelente investimento social. Pois, qual o investimento hoje em dia no mercado de capitais que rende (como esse feito em XPTO) quase 200% ao ano, isto é, quase 3 vezes em apenas 1 ano?”
Como interpretar esse valor do SROI estimado para XPTO?
Dito em outras palavras: será que esse valor do retorno social, de R$2,90 para cada R$ 1,00 investido em XPTO, representa mesmo um excelente investimento de impacto social, como afirmou o seu diretor?
A julgar pelos outros valores do retorno econômico de projetos sociais apresentados acima, que foram estimados pelo IDIS usando a metodologia SROI [de 6,45 para Amigos do Bem; 6,53 p/ Programa Guri; 4,70 p/ Programa Petrobras Socioambiental; e 3,50 p/ projetos de esporte e cultura da Gerando Falcões], a impressão que se tem é a de que a capacidade de transformação social de XPTO estaria bem aquém dessas outras organizações filantrópicas. Será mesmo?
A meu ver, não. Esse número apurado de 2,90 para arelação custo-benefício do trabalho social realizado em 2025 por XPTO diz muito pouco sobre o alcance e a eficácia das ações realizadas pela organização. Portanto, não espelha as reais oportunidades de inclusão e de qualidade de vida que XPTO está propiciando ao seu público beneficiário.
O ponto central a destacar é que o método de monetização proposto por XPTO não está focado nos resultados / impactos sociais – como alega ser, mas se atém apenas aos produtos gerados e a (alguns) insumos utilizados pela organização, usando uma regra de monetização própria. Senão, vejamos.
Pensando sob a ótica da Teoria da Mudança / Marco Lógico, podemos dizer que na realidade o que foi feito foi atribuir, direta ou indiretamente, valores monetários a determinados indicadores de produto dos projetos de XPTO, como: número de alunos certificados, número de alunos formados, número de jovens aprendizes, número de pessoas contratadas como empregadas com carteira assinada ou que passaram a empreender no mercado de trabalho, número de quentinhas fornecidas, e número de moradores de rua que voltaram a trabalhar. É como se estivéssemos considerando esses indicadores de produto e, a seguir, multiplicando por uma constante monetária (13 meses X R$ 1.518), e somando todos eles.
No caso em particular do produto “quentinhas fornecidas”, o equivalente monetário foi o valor das aquisições no comércio local para compor as quentinhas. Por último, ainda foram adicionadas a esse “bolo” as despesas com o pagamento dos 250 colaboradores de XPTO (todos CLT), representando um outro indicador de insumo para viabilizar os projetos.
A esse agregado monetário de produtos e (alguns) insumos utilizados, XPTO atribuiu a denominação de “geração de renda local a partir da atuação social de XPTO”. Mas, volto a enfatizar que o foco dessa análise não foi nos resultados gerados para o seu público beneficiário, ou seja, nas mudanças provocadas na vida deles. Pois eles nem sequer chegaram a ser ouvidos.
É válido adotar esse método proposto por XPTO como uma proxy para o método do retorno econômico / SROI de projetos sociais?
A meu ver, não; e vou explicar o porquê.
Como comentado no item 2, e aqui concordando com os defensores do SROI, o valor do método está no processo em si de sua implementação, ao seguir devidamente os princípios e o passo-a-passo preconizados. E não propriamente no valor final gerado para o retorno econômico. (The SROI Guide, 2009) (IDIS,2012) (IDIS, 2021)
Mas, pelo fato de ser uma metodologia complexa, exigente em termos do tempo de observação das mudanças e das competências avaliativas e financeiras, além de onerosa, ela só se justifica quando aplicada a projetos sociais de grande porte, normalmente parceria de organizações do Terceiro Setor com o Setor Público. Aí, sim, há a possibilidade de o método do retorno econômico ser aplicado com o rigor necessário, de modo a gerar insights e achados confiáveis para o projeto social. (ver artigo: Exigir medição de impacto e SROI para o Terceiro Setor? )
Porém, o que não pode é cada organização do Terceiro Setor criar o seu próprio método de retorno econômico para poder comunicar os seus resultados sociais, sob a justificativa de estar se adequando à linguagem das empresas e do impacto social, como se isso fosse um diferencial para a mobilização de recursos. Pois a consequência dessa “criatividade metodológica” pode levar ao contrassenso do valor que foi apurado por XPTO (2,90) ser bem inferior ao valor do retorno econômico apurado pelo IDIS para os projetos sociais das outras instituições aqui citadas. Sendo que XPTO desenvolve um trabalho social, que é muito “bem considerado” na cidade do Rio de Janeiro.
A questão é que as iniciativas sociais de XPTO não foram objeto de uma avaliação criteriosa como foi o caso das avaliações conduzidas pelo IDIS. Estas, sim, seguiram a metodologia preconizada pelo SROI, que é uma abordagem reconhecida e certificada em nível internacional desde 2015.
Já o que XPTO fez foi simplificar “a seu modo” a lógica de imputar um valor monetário aos produtos gerados e a alguns dos insumos utilizados em um dado período, e comparar com todos os custos operacionais e de investimento incorridos naquele período. Ou seja, XPTO propôs um método para estimar o valor líquido gerado no ano para além dos seus custos totais. Assim, o método de XPTO para estimar retorno econômico social padeceu de vários erros, tais como:
- Na realidade não abordou impacto (longo prazo) nem resultado imediato (curto prazo) dos projetos sociais na vida dos seus beneficiários. Nem sequer ouviu os beneficiários.
- Para o cálculo do que chamou “impacto social”, considerou (erroneamente) apenas os “produtos” gerados e alguns dos “insumos” tidos como benéficos ao entorno da organização.
- Uso de uma constante para a valoração monetária dos “produtos”: valor do salário-mínimo (ou uma proporção dele) multiplicado por 13 meses. Fica claro a fragilidade do método: se essa constante aumenta ou diminui, haverá influência direta no valor do retorno econômico apurado.
- Duração considerada de apenas 1 ano, isto é, somente ao longo da execução da ação social. Pode-se afirmar que foi um período definido levando em conta a gestão da organização, e não propriamente a expectativa dos resultados junto ao público atendido.
Comparativamente à metodologia do SROI (que para ser bem conduzida é complexa e onerosa), tendo a considerar que o método proposto por XPTO é “simplista”, por desconsiderar aspectos importantes para avaliar os resultados da atuação social de XPTO. Basta ver que o método não chegou, em nenhum momento, a incorporar a percepção dos beneficiários quanto à condução dos projetos e à influência desses projetos em suas vidas.
Vale lembrar aqui a distinção entre um método ser tido como simples ou simplista. Um método simples é aquele capaz de filtrar os aspectos que são realmente relevantes da questão abordada – portanto, ser simples é uma qualidade positiva. Já um método simplista é aquele que simplifica por demais a abordagem, ignorando detalhes importantes ou as complexidades da situação; e, portanto, sendo percebido como uma “abordagem superficial e rasa, algo negativo”. A meu ver, tal foi o caso dessa proposta de XPTO.
5. ‘SROI`É A SOLUÇÃO PARA COMUNICAR RESULTADOS DE MODO OBJETIVO NO TERCEIRO SETOR?
Para organizações grandes do Terceiro Setor, sobretudo aquelas que trabalham em parceria com o Setor Público, o uso do SROI pode ser, sim, solução para comunicar resultados de modo objetivo para os projetos sociais. Pois elas dispõem de recursos para bancar uma avaliação rigorosa e consistente, que se justifica em função do investimento social feito, normalmente vultuoso e de longo prazo.
Como foi, por exemplo, o caso da avaliação social contratada pela Fundação Itaú (2023) e coordenada pelo INSPER (tendo à frente nomes respeitados na área da avaliação social, como o de Ricardo Paes de Barros), que concluiu que para cada R$1,00 investido na educação técnica de jovens do ensino médio se gerava um retorno econômico (em termos de impacto social) de R$ 8,00. Veja que essa conclusão teve por base (i) a metodologia do SROI, preconizada pelo SVI (Social Value Internacional), que é um padrão certificado e aceito internacionalmente; além de levar em conta (ii) o rigor estatístico necessário para a condução da pesquisa experimental para a estimativa do impacto social e (iii) o rigor financeiro necessário para a monetização do impacto comparativamente aos custos incorridos.
O ponto a destacar é que quando a estimativa do SROI não segue o rigor requerido, o resultado encontrado, embora seja objetivo, acaba sendo metodologicamente fragilizado e facilmente contestado.
Já em se tratando de organizações sociais de médio e pequeno porte, que correspondem à quase totalidade do Terceiro Setor no Brasil, elas não precisam de um indicador-síntese como o SROI. Nesse momento, o que essas organizações estão realmente precisando (e com urgência!) é de um sistema básico de gestão de atividades e de avaliação de resultados, capaz de orientar na condução do trabalho delas e dar-lhe a devida transparência, assim permitindo a essas organizações atraírem novos recursos e apoiadores. Ou seja, de um sistema que seja compatível com o tamanho (em termos de recursos) e as necessidades de gestão de cada organização.
O fundamental é que esse sistema de gestão e de avaliação de resultados para essas instituições do Terceiro Setor esteja baseado em indicadores que sejam simples (de calcular), relevantes (realmente úteis para guiar o trabalho delas), válidos (medir o que realmente se pretende medir), confiáveis (medir da forma correta, isto é, se o levantamento for replicado o resultado é o mesmo) e sensíveis às mudanças. Não é trivial a construção de um bom sistema de indicadores com tais características; por isto, o recomendável é que se use, sempre que possível, as chamadas “ferramentas de prateleira” e que haja parcimônia na escolha desses indicadores (Manual, pág. 51-57).
No Brasil, de 2000 para cá, já conseguimos dar alguns passos nessa direção, e por duas razões principais: primeiro, por conta dos avanços no campo da gestão e da lógica de resultados no Terceiro Setor, que até então era restrito às boas intenções. E segundo, graças aos avanços recentes ocorridos nas áreas de TI (Tecnologia da Informação) e IA (Inteligência Artificial) que têm contribuído para viabilizar esse acompanhamento – e que podem vir a se tornar fortes aliados do Terceiro Setor.
O caso de XPTO, que propôs o “próprio” método para estimar o SROI do seu trabalho social, serviu para ilustrar o que as organizações do Terceiro Setor não deveriam fazer para conseguirem “falar a linguagem das empresas” e, assim, mobilizarem recursos junto a elas. Pois, como visto, em sua busca por simplificar o método do Retorno Econômico de projetos sociais / SROI, que já é devidamente reconhecido em âmbito internacional, XPTO acabou propondo um método simplista, ingênuo e facilmente contestado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (por ordem das citações no artigo, com os respectivos links para acesso)
- Manual – Planejamento e Avaliação de Projetos Sociais em Organizações Sociais, Maria Cecília Prates Rodrigues. Fundação Dom Cabral / Parceria com Organizações Sociais (FDC/POS, 2014)
- A Guide to Social Return On Investment, The SROI Network, January 2012
- Um Guia para o Retorno Social do Investimento, IDIS, 2012 (tradução da referência anterior)
- Nota Técnica – Metodologias de Avaliação Custo-Benefício, Laís Faleiros. IDIS, 02.02.2021
- IDIS e projetos sociais apoiados pela Petrobras que participaram da gLOCAL week de Avaliação (IDIS, 31.05.2022)
- Atuação da Amigos do Bem no sertão nordestino é destaque na Exame (IDIS, 20.04.2023)
- Avaliação de impacto da Gerando Falcões realizada pelo IDIS é destaque no Valor (IDIS, 02.07.2021)
- Relatório SROI do Programa Guri (IDIS, 2018)
- Retorno econômico de projetos sociais corporativos: limites da avaliação. Maria Cecília Prates Rodrigues (IDIS, 09.03.2010)
- Como calcular o valor do investimento de impacto? Os métodos monetários são os mais adequados? Maria Cecília Prates Rodrigues. (Estratégia Social, 06.05.2019)
- NPS e SROI: há relação entre os dois? Maria Cecília Prates Rodrigues. (Estratégia Social, 22.02.2022)
- Avaliação de projetos socioambientais corporativos e o uso do SROI. Maria Cecília Prates Rodrigues (Estratégia Social, 09.02.2022)
- Exigir medição de impacto e SROI para o Terceiro Setor? Maria Cecília Prates Rodrigues (Estratégia Social, 01.03.2024)
- Ecossistema das Iniciativas Sociais no Brasil. Maria Cecília Prates Rodrigues. Editora ArteSam, 2021.
- Rumo à Eficácia do Setor Social Privado no Brasil. Maria Cecília Prates Rodrigues. Editora ArteSam, 2024
- The Myth of Objectivity & Strategy – An Island of Objectivity in an Ocean of Subjectivity. Roger Martin. Medium, April, 21, 2025.
- Impacto da Educação Técnica sobre a Empregabilidade e a Remuneração. Itaú Educação e Trabalho. Instituto Unibanco e Insper (2023)
- Avaliação no Terceiro Setor: estamos avançando! Maria Cecília Prates Rodrigues. (Estratégia Social, 27.01.2025)

