Como estimular a FILANTROPIA FAMILIAR no Brasil?

Por on 29/01/2026

Veio em muito boa hora a publicação do IDIS (nov.2025), “Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar no Brasil”.  Há muito venho angustiada sobre essa questão da filantropia em nosso país. Pois sinto que a filantropia no Brasil está muito aquém do seu potencial, sendo que a pobreza e as necessidades sociais em nosso país são visíveis e urgentes e o Estado não tem fôlego para uma solução que seja abrangente e consistente.

Aspectos relevantes destacados na publicação do IDIS

A referida publicação do IDIS levanta vários aspectos importantes acerca da filantropia familiar no Brasil, com o foco na filantropia das famílias de alto patrimônio. Pois é justamente nesse segmento onde está o potencial de doação no país capaz de gerar transformações sociais estruturantes. Também fruto dessa sua pesquisa, realizada com filantropos e especialistas, o IDIS propõe um caminho estratégico (Teoria da Mudança) para estimular a filantropia no país.

A seguir, destaco alguns conceitos e contribuições importantes desse  mapeamento do IDIS sobre a filantropia familiar de alto patrimônio no Brasil.

Logo na Introdução, o desafio de estimular esse nicho da filantropia em nosso país está bem explicitado. E aqui vale dizer que, até então, os esforços para expandir a filantropia no Brasil haviam se concentrado na filantropia das empresas, também conhecida como Filantropia corporativa ou Investimento social das empresas.

  • A filantropia familiar no Brasil não avança na mesma velocidade observada em outros países, tampouco acompanha o ritmo de crescimento das fortunas (no país).
  • Estamos certos de que o entrave não está no potencial – esse, temos de sobra. Em momentos decisivos, especialmente diante de demandas emergenciais, as doações deste grupo aparecem. O desafio está em canalizar essa energia para ações estruturan­tes e de longo prazo. (pág.3)

No decorrer da publicação, dois conceitos importantes foram elucidados: o que são “famílias de alto patrimônio no Brasil”; e o que se entende por “filantropia estratégica das famílias”. Até então, eu era bastante acostumada com o termo da “filantropia corporativa estratégica” cunhado por Porter e Kramer nos idos de 2002.

  • Consideramos filantropos familiares no Brasil pessoas que estão no topo da pirâmide patrimonial do país. São esses in­divíduos e famílias que concentram grande quantidade de ri­queza e que, com isso, possuem também elevado potencial de contribuição para causas de interesse público por meio de suas atuações filantrópicas. … Para fins desta publicação, consideramos pessoas de alto patrimônio aquelas que integram o extrato dos 0,1% mais ricos da população, com patrimônio acima de R$ 26,2 milhões e que correspondem a cerca de 200 mil pessoas no país. (Pag. 7)
  • A filantropia estratégica caracteriza um novo patamar de maturidade na atuação social das famílias doadoras no Brasil. Implica em abando­nar ações reativas e assistencialistas para adotar uma aborda­gem planejada, estruturada e orientada à transformação sistê­mica, com foco em impacto de longo prazo. ….  Implica também em buscar escalabilidade, e em ter maior propensão ao risco, conexão com políticas públicas e capacidade de instrumentalização do Terceiro Setor. (Pág. 20)

Ao final da publicação, e após os insights propiciados por uma série de entrevistas em profundidade (total de 21 filantropos e especialistas) e pela aplicação de questionário online (total de 35 filantropos respondentes), foi construída a Teoria da Mudança, visando identificar estratégias para expandir a filantropia familiar de alto património do Brasil.

  • Impacto desejado: Expandir a filantropia familiar das famílias de alto patrimônio no Brasil, de modo a gerar impacto social positivo e sustentável.
  • Resultados esperados:
  1. Fazer com que mais indivíduos e famílias de alto patrimônio se envolvam com a filantropia. (Previstas 2 Linhas de Atuação, que se desdobram em 6 Ações)
  2. Aumentar os valores doados por indivíduos e famílias de alto patrimônio (Previstas 2 Linhas de Atuação, que se subdividem em 3 Ações)
  3. Mobilizar múltiplos capitais, com compromissos de médio e longo prazo, voltados à resolução de problemas estruturais. Pressupõe a parceria com diferentes tipos de capital de risco e com o Setor Público, e a conscientização quanto à tomada de risco na Filantropia.  (Previstas 2 Linhas de Atuação, que se dividem em 3 Ações) (Pág. 38-47)

Principais desafios que precisam ser priorizados:

A meu ver, e aqui já comentando o valioso trabalho do IDIS, destaco quais deveriam ser os 3 principais desafios a serem priorizados para fazer deslanchar, de forma sustentada e efetiva, a filantropia das famílias de alto patrimônio no Brasil.

Primeiro, atuar para fortalecer a capacidade de gestão das OSCs (Organizações da Sociedade Civil) em geral no Brasil. É por isso que, dentre as 6 linhas de atuação contempladas na referida Teoria da Mudança, atribuo papel central à de nº4, que é vinculada ao Objetivo de Resultado nº 2 (acima).  Pois é essa linha de atuação que tem como foco estruturar as OSCs, de modo a torná-las  capazes de executarem um trabalho eficiente e efetivo e, com isso, gerar confiança junto aos seus doadores – atuais e potenciais.

Acredito que a condição básica para estimular a filantropia, e aqui vale para qualquer país, é ter organizações executoras competentes do trabalho social, ambiental ou cultural a que elas se propõem. Não se pode esquecer que a recompensa do filantropo não está no retorno econômico dos seus recursos aplicados (pois são recursos “a fundo perdido”), mas está exclusivamente no retorno social, ambiental ou cultural que esses recursos geram.

Quer isso dizer que as organizações do Terceiro Setor (as OSCs) devem ser capazes de entregar o que prometem em termos de transformação social. Devem começar pequeno, e buscarem ir crescendo de forma consistente. Filantropos e gestores sociais devem compartilhar sonhos, dificuldades e realizações ao longo do caminho. Como diz na publicação do IDIS, o filantropo não deveria entrar apenas com a doação de recursos financeiros, mas trazer também para essa parceria as suas competências, o seu trabalho voluntário e suas redes de contatos (networking).  

O filantropo comprometido busca efetividade e transformação social. Porém, quando percebe que a organização filantrópica apoiada não está correspondendo ao combinado /planejado, o filantropo vai procurar outras maneiras capazes de gerar a mudança social pretendida. Portanto, se queremos fortalecer a filantropia no Brasil, precisamos atuar desde o início no fortalecimento das competências das nossas organizações do Terceiro Setor, para que se consolide o círculo virtuoso entre Filantropos – OSCs. Pois o fortalecimento institucional é pré-requisito para a geração de resultados / impacto social e, daí, a atração de novos filantropos.

Segundo, como bem identifica a publicação do IDIS, precisamos atuar para a construção de redes e ecossistemas colaborativos (Objetivo de Resultado nº 1) , de modo a conseguir escalar a filantropia das famílias no Brasil.  Porém, para isso, é fundamental ampliar o leque para além das famílias já envolvidas com a filantropia – o que parece não tem ocorrido de modo satisfatório no Brasil.    

Como já vem alertando há algum tempo Fábio Deboni, com sólida vivência nessa área em nosso país, os eventos do Terceiro Setor tendem a ser muito fechados, sempre restritos aos mesmos grupos de grandes empresas, famílias filantropas e universidades. A esse respeito, sugiro o Episódio 221 – Nove não-assuntos da fantástica fábrica do impacto (13.07.2025) do seu Podcast Impacto na Encruzilhada.

Caso contrário, corre-se o risco de seguir “falando” basicamente para as mesmas famílias já iniciadas no campo da filantropia, inviabilizando a desejada expansão do potencial da filantropia no Brasil. Daí, o desafio aqui consiste em passar a criar estratégias para incluir, de fato (e não apenas em tese), os indivíduos “destoantes” e ainda não-iniciados no campo da filantropia.

Terceiro, o desafio está em conseguir articular a filantropia com os múltiplos capitais (conforme proposto no Objetivo de Resultado nº 3), porém sem enfraquecer a Filantropia. Evidentemente a grande vantagemdessa estratégia está em possibilitar somar esforços e carrear recursospara iniciativas robustas de impacto social.

Como argumentei em artigoque escrevi em 2020 – Blended Finance e Filantropia: boa combinação, mas com cautela, a questão é que é preciso muita cautela nessa relação da filantropia com o capital privado lucrativo, e por 3 razões principais: no Brasil, a filantropia ainda está em formação, diferente dos EUA e do Reino Unido; o capital filantrópico é paciente, mas também é escasso e quer gerar impacto social positivo; a convivência de remunerações desiguais para recursos aportados em uma mesma iniciativa social pode não ser sustentável.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.