Critérios ASG – mais um modismo?

Por on 25/05/2020

Ultimamente o atendimento aos critérios ASG (Ambiental, Social e de Governança)* vem sendo  considerado condição importante para a capitalização das empresas. Basta ver que nesse início de 2020  Larry Fink, gestor do maior fundo de investimentos do mundo (BlackRock), foi firme em afirmar (Carta aos CEOs) o compromisso com a sustentabilidade e a transparência na alocação dos recursos do Fundo. Será mesmo seguido pelos gestores dos grandes fundos de investimento mundo afora? Ou a régua dos critérios ASG será apenas mais um modismo?  Há riscos nesse modelo de alocação de capital baseado nos critérios ASG?

 

Mais um modismo corporativo?

De 1990 para cá, já tivemos em âmbito mundial uma sequência de movimentos corporativos para driblar as críticas da sociedade contra a atuação tacanha e egoísta das empresas focada apenas em lucratividade. Assim, primeiro veio a valorização do conceito da empresa  com ação social na comunidade (corporate philanthropy); depois da empresa socialmente responsável (corporate social responsibility); em seguida o conceito da empresa sustentável (sustainable companies) e o da empresa com o foco no valor compartilhado (shared value).

Cada movimento desse veio embasado por artigos acadêmicos de excelência, acompanhado pela realização de eventos capitaneados por organizações think-tanks, e também pela  criação de indicadores, índices, certificações e premiações. Sem dúvida, foram maneiras de tangibilizar o discurso, estimular boas práticas, mas sobretudo cuidar da imagem e reputação das empresas. Porém considero que as mudanças realmente alcançadas no modo de operar das empresas foram apenas de ordem cosmética, sem conseguir alterar a lógica de funcionamento das empresas (que busca extrair o máximo valor dos seus vários públicos com o foco nos acionistas).

Nos últimos dois anos, cada vez mais se ouve falar dos critérios ASG (Ambiental, Social e de Governança), que devem nortear o comportamento das empresas. Seria apenas mais um movimento corporativo para enfrentar, ou melhor, conviver com as críticas da sociedade?

Pode ser; só o futuro dirá. Porém o movimento agora da defesa dos critérios ASG nasce diferente daqueles outros. Ele está surgindo e sendo estimulado a partir do mercado financeiro, mais propriamente dos fundos de investimento e dos bancos, como condição para alocar os capitais de potenciais investidores (ou de futuros acionistas) para essa ou aquela empresa.

Nesse sentido, acredito que já nasce com mais chance de vir a influenciar o modo de operar das empresas do que os demais movimentos. É claro se os critérios ASG conseguirem vir a ser, de fato, fator de mobilização de potenciais investidores financeiros.

 

Quais as chances dos critérios ASG?

Na realidade os critérios ASG surgem como uma demanda do grupo de potenciais shareholders (ou acionistas) das empresas. Isso porque as questões sociais e ambientais começaram a ser percebidas como fator de risco para a rentabilidade do negócio. Nós, brasileiros, temos bastante vivos na memória os casos de corrupção de gestão na Petrobras e do acidente da barragem da Vale em Brumadinho (MG), que fizeram despencar o resultado financeiro dessas empresas.

Por sua vez, as questões de governança da empresa já começavam também a ser percebidas como afetando diretamente os interesses dos acionistas e consequentemente o desempenho do negócio, como por exemplo os conflitos de interesses entre o grupo dos acionistas e o dos dirigentes executivos. Daí a razão por que muito provavelmente a categoria dos critérios de governança veio se juntar às categorias de sustentabilidade (social e ambiental) para compor o conjunto dos critérios ASG, de modo a orientar a alocação do capital dos investidores financeiros.

Dessa vez, é bem provável que os critérios ASG sejam levados a sério, pois estão sendo propostos pelos donos do dinheiro.  Quer isso dizer que os investidores financeiros vão levar os critérios em consideração no momento de sua tomada de decisão – de investir nesta ou naquela empresa, neste ou naquele fundo de investimento.

Decorre, portanto, que as empresas que não atenderem aos critérios ASG serão penalizadas. Se assim for, há grandes chances de que o fluxo de novos investimentos para essas empresas comece a declinar, e elas comecem a perder atratividade vis-à-vis às demais empresas cumpridoras dos requisitos. Então, elas poderão, sim, sofrer efeitos profundos, e não apenas superficiais como nos movimentos corporativos anteriores.

 

Como usar a régua dos critérios ASG? Há riscos?

Há diferentes modos de se aplicar os critérios ASG, dependendo dos indicadores que são selecionados. Alguns métodos, como o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial, da Bolsa no Brasil – a B3) tendem a excluir empresas de determinados setores, como siderurgia, petróleo, automobilística, bebidas alcoólicas, fumo e armas. Tanto que quase não se observa a participação de empresas desses segmentos em suas carteiras mais recentes. Outras metodologias não excluem esses segmentos, como o DJSI (Dow Jones Sustainability Index, EUA). Há também casos de empresas que internamente operam em concordância com os critérios ASG, mas que são “reprovadas” em razão de suas empresas-fornecedoras pagarem salários abaixo do mercado e/ou causarem danos à natureza.

O alerta é o de que é preciso ter cautela e parcimônia na forma de aplicação dos critérios ASG, na medida em que, dessa vez, há mais chances desses critérios poderem vir a influenciar de fato o desempenho corporativo – seja para o bem ou para o mal. Diferente do que se deu com os movimentos corporativos anteriores, que praticamente em nada (ou muito pouco) influenciavam no desempenho das empresas. Daí vale fazermos alguns questionamentos, do tipo:

  • Será que, em relação à avaliação baseada nos critérios ASG, faz sentido discriminar ou excluir empresas do setor extrativista mineral, como petrolíferas ou siderúrgicas? Será essa uma atitude realista?  Ou (apenas) uma atitude sonhadora e nada pragmática?  Pois no atual estágio da nossa civilização é mais do que sabido que  não vivemos sem essas empresas.
  • Será que o filtro dos critérios ASG está sendo adotado da forma correta e resultando realmente em práticas corporativas mais sustentáveis? Ou as empresas estão abrindo apenas aquelas informações que querem mostrar? Ou melhor, mostram as mudanças no processo sem que haja mudanças nos resultados…. O greenwashing pode ser um risco real.

 

Concluindo, não tenho a menor dúvida de que os critérios ASG são importantes para nortear a forma de atuar das empresas. Mas, temos que ficar atentos para não jogar o bebê fora, junto com a água do banho. Ou seja, não destruir empresas, com o argumento de proteger as pessoas e o planeta.

 

(*)  ASG em português; ou ESG em inglês (Environmental, Social and Governance)

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.

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