É sabido que pessoas, famílias e empresas fazem filantropia motivadas pelos mais diferentes objetivos e propósitos. Ariel Simon (SSIR, jun.2026) conseguiu sistematizar 13 diferentes intenções genuínas para a filantropia nos Estados Unidos, segundo 4 categorias. Isso sem falar nas motivações cínicas que não raras vezes ocorrem. Será que com essa pluralidade de boas intenções é possível alcançar eficácia?
As 13 intenções para a filantropia nos EUA, identificadas por Simon em seu artigo, estão mostradas no quadro a seguir
| Categoria | Intenção da Filantropia | O que é |
| Comunitária “Queremos…..” | 1 Fortalecimento comunitário | Doar como forma de aumentar o pertencimento…, ou experiência compartilhada |
| 2 Retribuir ou eternizar | Doar por gratidão, legado | |
| 3 Construir e sustentar bens comuns | Doar para criar e preservar infraestrutura compartilhada, seja física ou relacional | |
| 4 Compartilhar alegria e celebração | Doar para impulsionar prazer, beleza, orgulho e celebração | |
| Transformativa “Esperamos….” | Acelerar avanços | Doar para impelir avanços (científicos, culturais, econômicos), resolver desafios técnicos…. |
| Enfrentar um grande problema | Doar para ajudar a enfrentar questões significativas, quase sempre sistêmicas de amplo impacto (regional, nacional ou global) | |
| Promover o florescimento humano | Doar em benefício da sociedade como um todo, impulsionando pesquisa (ciência), descobertas e criatividade (artes, cultura)… | |
| Declarativa “Sentimos que devemos…..” | 8 Elevar valores | Doar para promover determinados valores,…., identificando figuras exemplares e tecendo narrativas |
| 9 Construir poder | Doar para impulsionar quem não tem voz… quase sempre com foco em comunidades historicamente excluídas do poder | |
| 10 Tomar posição | Doar para expressar convicções morais, …. promover solidariedade, consciência e presença | |
| Humanitária “Somos chamados a….” | 11 Responder a uma crise | Doar para prover alívio imediato e/ou reconstrução de longo prazo, durante e após catástrofes. |
| 12 Estender a mão | Doar como expressão de amor e empatia diante do sofrimento – é a “caridade” em sua essência | |
| 13 Promover o potencial | Doar para apoiar desenvolvimento e possibilidades individuais, para ajudar estudantes, artistas, líderes,… para alcançarem o seu potencial |
Fonte: Simon, Ariel (Stanford Social Innovation Review Brasil – SSIR, jun.2026)
O fato de a filantropia vir associada a boas intenções já é, em si, fator importante para gerar mudança positiva. Porém, não é garantia de eficácia.
A eficácia da filantropia
Em 2010, no meu livro “Projetos sociais corporativos: como avaliar e tornar essa estratégia eficaz”, eu desdobrei o conceito de eficácia para avaliar a ação social da empresa (ou investimento social corporativo) em 2 níveis: (i) eficácia pública, se a empresa conseguia alcançar os objetivos anunciados para a comunidade beneficiária; e (ii) eficácia privada, se a empresa conseguia alcançar os objetivos esperados para os negócios da empresa.
Mais adiante em 2014, ao lidar com a realidade dos projetos sociais das organizações do Terceiro Setor, eu defini que um projeto social tem eficácia plena quando cumpre todos os níveis (da hierarquia) dos objetivos esperados – de resultado e de processo -, no tempo previsto e com a qualidade esperada. Aqui está implícita o uso da “teoria da mudança”. Também discuti que um projeto social poderia ter eficácia de resultados e ter, ou não, eficácia de processo. Ou ao contrário: não ter eficácia de resultados e ter, ou não, eficácia de processo. (FDC /POS, Planejamento e Avaliação de Projetos Sociais em Organizações Sociais)
Indo também nessa direção, e frente às múltiplas intenções (13) de filantropia identificadas, Simon argumenta que “o termo ‘eficaz` depende de cada contexto, e isso ajuda a evitar o erro de impor a visão de sucesso de um tipo de intenção sobre outro. …. E que o melhor modo de julgar a eficácia de uma ação de filantropia é perguntar por que ela foi realizada e o que ela buscava alcançar”.
Dificilmente, uma iniciativa de filantropia é fruto da ação de um único filantropo. O mais usual é a iniciativa de filantropia nascer /resultar da união de vários filantropos, cada um levado por suas intenções ou motivações (seja de gratidão, retribuição, legado, vontade de transformar, comoção, defesa de valores ou de convicções, etc…), porém unidos em torno de um ideal comum de praticar o bem.
E esse ideal comum precisa ser consensuado e tangibilizado, definindo aonde se quer chegar, estabelecendo resultados esperados, metas, estratégias, e maneiras de atrair novos doadores. A avaliação da eficácia surge, portanto, da comparação entre o ideal planejado para uma dada iniciativa filantrópica e o que foi realizado.
Assim, independente do pluralismo de intenções que move os filantropos em torno de uma iniciativa filantrópica, a eficácia da filantropia é medida pelo seu poder de atuar na vida dos beneficiários conforme planejado. O filantropo comprometido não se limita a doar – tão importante quanto doar é verificar a eficácia da iniciativa filantrópica que ele conduz /apoia.

