ONG ou empresa de impacto? O caso do reforço escolar

Por on 16/07/2019

Paulo Batista, qual é o seu sonho?

Me chamou a atenção a entrevista de Paulo Batista (Valor, 28/06/2019), jovem advogado do mercado financeiro que, já aos 35 anos de idade, se diz realizado no mundo dos negócios: conseguiu criar (do zero) e vender empresa com faturamento de R$ 1,2 bilhão ao ano com mais de 1.800 funcionários. E agora decidiu “dedicar todo o resto de sua vida e o seu dinheiro” ao seu “antigo sonho”, que é o de contribuir efetivamente para a redução da pobreza e dos elevados níveis de desigualdade no Brasil. Daí porque começou a atuar na educação – mais precisamente nas diferenças de oportunidade entre os filhos das famílias da elite e os da classe média baixa.

 

Proposta de valor. Modelo de negócio

Em relação à proposta de valor, Paulo Batista  já tinha clareza há bastante tempo:  oferecer cursos de reforço no contraturno da escola para os alunos das escolas públicas de bairros pobres. Ou seja, compensar a baixa qualidade das escolas públicas, propiciando, às crianças e jovens de baixa renda, formação sólida nas matérias básicas (sobretudo em português e matemática), gosto pelos estudos, ocupação prazerosa no contraturno, e orientação profissional.

A dúvida, que ainda persistia, era quanto ao modelo de negócio: criar uma ONG (organização não-governamental) ou um negócio de impacto social?

Um argumento foi decisivo para ele: “por meio de uma ONG, atingiria 100, 150 crianças. Para ter escala, precisava de acesso a capital, e isso só seria possível com um modelo lucrativo”.

 

Nasceu o Alicerce Educação ….

Há menos de um mês, no dia 24 de junho último, nasceu a startup Alicerce Educação, com a inauguração de 4 unidades na periferia de São Paulo. A organização já nasceu com meta ambiciosa, que é chegar a 4 milhões de alunos atendidos em no máximo cinco anos, o que representa aproximadamente 1/10 dos alunos de toda a rede pública do ensino básico no país (2018).

Diz a reportagem que em uma dessas 4 unidades, há um banner afixado com os seguintes dizeres: “Trabalhe tranquilo enquanto o seu filho aprende de verdade. A partir de R$ 99,00/mês”. Essa frase resume muito bem o propósito social da organização: oferecer para a comunidade  um serviço de educação de qualidade, por um preço bastante accessível, mas não gratuito ou filantrópico.

 

Para reflexão, quatro indagações:

Acostumada a conviver com a realidade do terceiro setor, eu me vi, então, fazendo os quatro questionamentos que se seguem.

  1. Viabilidade – Como essa meta elevadíssima de beneficiários pode conviver com uma proposta realista de transformação social?

Normalmente quando vejo projetos sociais com número tão elevado de beneficiários, esse número grande tende a estar relacionado a atendimentos pontuais das organizações, do tipo número de participantes em eventos, de doações recebidas ou de consultas realizadas. Muitas vezes, um único beneficiário pode até estar associado a mais de um, ou mesmo vários, atendimentos(s). Porém, nesse caso específico da Alicerce o que se vê é a proposta de uma atuação transformadora e de longo prazo junto a cada criança/ jovem atendido.

  1. Escalabilidade – O modelo lucrativo pode ser garantia de escalabilidade com transformação social?

Na realidade, não é o modelo de gestão em si que pode vir a ser o fator de sucesso para a recém-nascida startup. Vejo dois outros fatores como sendo primordiais. Primeiro, o (alegado) poder da metodologia inovadora de aprendizagem e estímulo que será adotada, com bons resultados em âmbito mundial – Flipped Learning Global Initiative (Escola Invertida). A metodologia está baseada em 4 pilares:  (i) aluno;  (ii) tutor universitário; (iii) padrinho investidor; (iv) salas de aula invertidas e flexíveis. Em relação à escola pública, ela tem uma grande vantagem, que é a de estar livre das “amarrras da regulação”.

E o segundo fator é o carisma e a expertise do próprio Paulo Batista,  fundador e presidente do Alicerce, para atrair boas parcerias, captar investimentos e transitar pelas novas linhas do mercado financeiro moderno. Qualidades já devidamente testadas haja vista a sua bem sucedida passagem pelo mundo corporativo.

  1. Dupla modalidade na captação de recursos – é possível a convivência, em uma mesma empresa, de investidores não remunerados (doadores) e investidores bem remunerados do mercado financeiro?

O Alicerce é uma empresa lucrativa que, como qualquer outra empresa lucrativa, tem uma missão a atingir – no caso, é oferecer reforço escolar no contraturno para crianças e jovens da escola pública.

Para executar a sua missão, toda empresa lucrativa, para além do seu capital próprio, vai captar recursos no mercado financeiro. Assim, todo o dinheiro emprestado tem que ser depois devolvido, acrescido dos juros de mercado.

Porém, no caso do Alicerce será diferente. Para realizar a sua missão, o Alicerce pretende adotar dupla modalidade de captação, com uma parte do dinheiro proveniente do mercado financeiro (e sendo remunerado); e outra parte proveniente de doações, isto é, dinheiro que não precisa ser devolvido nem remunerado. Ou seja, dentro de uma mesma empresa, e com o foco no seu core business, vão conviver em paralelo duas lógicas: a lógica capitalista (dos fundos de investimento, que querem retorno financeiro) e a lógica social (do benfeitor, que se sente bem por fazer o bem).

Até então, eu era acostumada a fazer doações para organizações sem fins lucrativos….. fazer doação para empresa lucrativa (ainda) me soa um pouco estranho!

  1. Superioridade – Para solucionar esse problema social específico de educação, o modelo lucrativo é superior ao modelo sem fins lucrativos (ou ONGs)?

Até hoje as ONGs sempre tiveram uma presença forte em projetos sociais para  crianças e jovens de comunidades de baixa renda, oferecendo atividades diversas no contraturno da escola – como reforço escolar, música, esporte, informática e formação profissionalizante. Ou seja, sempre predominou uma abordagem local [com o foco nas necessidades específicas de um determinado público-alvo e sujeito às fragilidades e potencialidades do local e do idealizador da organização] e subordinada ao ritmo ditado pela escola pública local.

O que o Alicerce propõe é um modelo de empresa social com franquias espalhadas pelo Brasil afora. Porém, é bem provável que nem todas as localidades terão os pré-requisitos necessários para garantir o funcionamento adequado de uma unidade Alicerce, tais como a presença de universitários preparados para exercerem a função de tutores (ou líderes), e o acesso aos recursos mínimos necessários de tecnologia da informação. Nesses casos, possivelmente o modelo de ONG seguirá prevalecendo.

 

Considerações finais

A proposta do Alicerce Educação é corajosa, inovadora e potencialmente disruptiva. Vai atuar em uma causa social muito relevante para a realidade social do nosso país. Como todo experimento em sua fase inicial, questionamentos vão surgir (como esses que fiz), e a intenção é que contribuam para o fortalecimento da iniciativa. Torço para que o Alicerce dê muito certo e atraia muitos apoiadores!

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.

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