Para onde vai o Terceiro Setor?

By on 01/11/2018

Em tempo de mudança, como o que estamos vivendo atualmente no Brasil, vale muito parar e refletir sobre como anda o Terceiro Setor e como queremos que ele atue.

Como anda o Terceiro Setor? Quais os problemas?

  • A confiança no setor continua alta, mas tem diminuído. As nossas instituições sociais estão cada vez mais egoístas, preocupadas em maximizar os seus recursos e sua reputação. Elas estão muito ocupadas em se manter atualizadas com as legislações e o avanço tecnológico. A luta por recursos está cada vez mais difícil, sobretudo entre as menores.
  • As organizações sociais estão espalhadas de modo desigual pelo país: as áreas mais carentes são justamente aquelas que têm proporcionalmente menos organizações filantrópicas.
  • Não há uma métrica clara para orientar a tomada de decisão. Muitas vezes a paixão pelo trabalho social abafa a eficiência e a busca pelo impacto social.
  • Há casos de organizações em que a busca pela inovação vem se tornando um fim em si. Porém, uma boa organização fazendo o mesmo bom trabalho de sempre é tudo o que precisamos.

 

Como queremos que seja a atuação social da sociedade civil organizada?  

  • Que esteja espalhada pelo país, especialmente nas áreas e causas onde ela seja mais necessária;
  • Que seja complementar aos setores público e privado/lucrativo;
  • Que fomente o capital social, promovendo a união entre as pessoas;
  • Que crie pluralismo, e amplifique as vozes especialmente daqueles que não são ouvidos;
  • Que seja efetiva e eficiente;
  • Que entregue bons produtos e serviços aos seus beneficiários

 

Para isto, o que precisa ser feito?

  • Precisamos melhorar no nível individual da organização, e também no nível do setor como um todo.
  • Precisamos que haja melhores relações de trabalho com o setor público, em especial com as autoridades locais.
  • Precisamos saber aprender com os outros. Para isto, é preciso estimular o levantamento dos dados (relatórios), a análise e a discussão desses resultados entre as organizações-pares.
  • É preciso que haja colaboração entre as organizações maiores e as menores. Estimular o apoio e o aprendizado entre as organizações-pares.
  • Cada organização deve fazer o seu melhor. Como ela faz e interage com as demais instituições vai depender do que ela é, sua escala, sua missão e capacidade.
  • As instituições financiadoras devem evitar sobrecarregar as organizações sociais com a exigência de indicadores burocráticos e pouco úteis, que acaba por tornar impossível o planejamento dessas organizações no longo prazo.

 

Qual a grande surpresa?

Esse diagnóstico e as estratégias acima apresentadas se aplicariam perfeitamente à realidade atual do Terceiro Setor no Brasil. Não é mesmo?

Mas se trata de análise feita para o Reino Unido, e não para o Brasil. E foi feita bem recentemente (10/10/2018) por Dan Corry, CEO da NPC (New Philanthropy Capital), organização think-tank daquele país, por ocasião da Conferência Anual, a NPC Ignites 2018. Sintetizei acima os principais pontos abordados por Dan Corry em sua fala.

 

E qual a proposta para o Terceiro Setor?

Veja o que Dan Corry propôs para o terceiro setor do Reino Unido, em tom inovador e ousado:

  • Em grande medida os problemas apontados acima são consequência de que, até hoje, o setor social esteve entregue às “forças do mercado” ou ao “laissez faire”, e isso não pode continuar desse jeito sob pena de prejudicar justamente as pessoas mais necessitadas do país. Nem laissez-faire, nem dirigismo ou “pai centralizador”. O que Dan Corry sugere é algo nesse meio.
  • Ele propõe a criação de uma Agência para o Desenvolvimento da Sociedade Civil, para corrigir os incentivos enviesados, estimular as boas práticas e eliminar as más práticas. É uma ideia controversa, mas que pode gerar muito valor.
  • Para ele, o que justificaria a Agência é o fato de não termos um mundo justo e, daí, o Terceiro Setor precisa de uma mão que o impulsione ou ajude contra a força dos dois outros setores (o público e o privado lucrativo), e que vá além da “negligência benigna” do próprio setor social em que as grandes organizações competem com as menores em situação de força desigual.

 

A reflexão para o caso brasileiro

É sempre saudável observar o que acontece em outros países, sobretudo naqueles mais desenvolvidos, e analisar as ideias que estão sendo colocadas lá. Não com a intenção de meramente copiá-las para o Brasil, mas sim com o objetivo de refletir sobre elas e analisar a possibilidade (ou não) de adaptá-las ao contexto do nosso país.

  • Embora com a função (apenas) de coordenação e correção de distorções do setor social, faz sentido propor uma Agência de Desenvolvimento para o Terceiro Setor no Brasil, nesse momento em que sopram os ventos liberais?
  • Ou seria visto como aumento de burocracia? Haveria maneiras para evitar que isso ocorresse?
  • Ou, muito ao contrário, em tempos de ventos fortes e desencontrados, não é preciso ajustar as velas e o leme de modo a apontar na direção correta a ser seguida?
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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.