No Brasil, a avaliação de resultados e de impacto dos projetos sociais segue ainda sendo um desafio muito presente para a quase totalidade das organizações do Terceiro Setor. O que se percebe é que muitas organizações ficam angustiadas por não conseguirem demonstrar as mudanças sociais que promovem / pretendem promover. Outras contornam essa situação com “arremedos” de indicadores. Já os financiadores continuam com as suas demandas por indicadores de resultados e impacto social, encastelados “em suas bolhas”.
Chamo a atenção para o fato de que a medição de resultados no Setor Social NÃO é um desafio restrito ao Brasil. Muito ao contrário. Como mostra artigo recém-publicado (16.01.2026) de Alex Hayes, “What`s missing from the data on the impact economy“, esse permanece um desafio em âmbito global. Ele abordou a situação específica do Reino Unido que, como se sabe, é país-referência em desenvolvimento da filantropia, ao lado dos Estados Unidos.
Alex Hayes é o diretor da New Philanthropy Capital (NPC), uma das mais relevantes organizações de filantropia naquele país. Em seu texto, ele foi contundente em alertar para esse problema da medição: “apesar do progresso havido na medição do impacto e na elaboração dos relatórios, as fragilidades na infraestrutura dos dados continuam sendo uma das maiores barreiras para ampliar a participação na filantropia e aprofundar o impacto social. Dados de baixa qualidade, fragmentados e incompletos continuam limitando o aprendizado, a prestação de contas e a confiança em toda a Economia do Impacto.”
Hayes foi também igualmente firme em concluir que se queremos realmente escalar a mudança social, precisamos avançar na forma como coletamos, compartilhamos e usamos os dados. E vale aqui lembrar que essa é uma afirmativa que se aplica tanto para o setor não-lucrativo (filantropia) como para o setor lucrativo (empresas que se dizem de impacto social).
Os pontos apresentados no artigo de Hayes estão baseados nas contribuições do Beacon Fórum do ano passado (2025), considerado o mais importante Fórum daquele país a congregar filantropos, investidores, gestores de grandes fortunas, líderes empresariais e formuladores de políticas na discussão do futuro da Economia de Impacto. Sendo que, para o Fórum deste ano (Londres, fev. 2026), está previsto avançar nessa importante discussão sobre a qualidade e transparência dos dados.
No texto, Hayes enumera quais os principais problemas relacionados a essa questão dos DADOS, e que têm inviabilizado a prática de uma avaliação confiável e válida dos resultados e do impacto social, a saber:
- Os dados permanecem fragmentados e inconsistentes. A principal razão é a ausência de uma infraestrutura de dados compartilhada em filantropia, investimento de impacto e serviços públicos. Essa fragmentação dificulta aprender uns com os outros, ou construir uma visão clara do que funciona, especialmente em áreas complexas como Contratos baseados em Resultados Sociais e Finanças Mistas.
- Ainda faltam dados em nível de resultados. Muitas organizações continuam a reportar principalmente sobre insumos e produtos, ao invés de resultados ou mudanças de longo prazo. Embora geralmente seja motivado por restrições de capacidade / recursos, isso limita a capacidade de entender se as intervenções estão gerando impacto social sustentado.
- Não existe uma fonte confiável e central de dados das organizações do Terceiro Setor. Os financiadores, gestores de fundos patrimoniais e outros intermediários frequentemente realizam o seu controle (due diligence) e avaliação de impacto sem acesso a um banco de dados único e confiável das organizações executoras. Informações sobre desempenho, aprendizado e resultados são apresentados de modo disperso, inconsistente ou difícil de acessar — aumentando custos e dificultando a tomada de decisões.
- Não estamos aprendendo o suficiente com o que não funcionou. A falta de abertura (ou transparência) sobre iniciativas fracassadas ou com baixo desempenho continua sendo uma grande fragilidade. Sem aprendizado compartilhado sobre o fracasso, o Setor corre o risco de repetir erros, desperdiçar recursos e desencorajar a tomada de riscos responsável.
- Os sistemas de mensuração priorizam as finanças em detrimento das pessoas. Em áreas de gestão de patrimônio e de investimento de impacto, os frameworks de mensuração ainda são moldados principalmente em requisitos de relatórios financeiros. Isso acaba deixando de lado os dados qualitativos e experiências vividas, que são exatamente as informações necessárias para entender as mudanças no mundo real.
O interessante é constatar que esses problemas de medição de resultados no Setor Social são praticamente os mesmos aqui no Brasil.
Segundo o diretor da NPC, as discussões do Beacon Forum 2025 também apontaram para o que precisa ser mudado, ou melhor, quais devem ser as prioridades nessa seara dos dados:
- Normalizar a apresentação nos Relatórios sobre o que não funcionou, baseada em estudos de caso sem citar nomes, de modo que possibilitem o aprendizado sem penalizar “sujeitos”.
- Desenvolver métricas que reflitam experiências vividas e mudanças sólidas observadas, e não focar apenas em KPIs (Key Performance Indicators) demandados por financiadores ou em medidas de retorno financeiro.
- Financiar a capacidade das organizações em gerar / analisar dados, e não apenas em suas capacidades em gerar “entregas”, permitindo que essas instituições coletem e analisem evidências significativas como parte de seu trabalho principal.
E no Brasil, como ficam as pequenas ONGs frente a esse desafio?
Saber isso não pode servir como acomodação para nós, no Brasil. Faço aqui um parêntesis: não me refiro aqui ao Setor Público em geral, uma vez que as pesquisas experimentais que esse Setor adota são bem aceitas na comprovação do impacto social – é claro, se houver recursos para a sua devida implementação, e em sendo bem conduzidas tecnicamente e/ou assessoradas pela Academia.
Ao contrário; e me refiro especificamente ao caso das pequenas ONGs no Brasil. Essa constatação deve servir para elas como estímulo a buscarem maneiras para conviver com essa fragilidade metodológica global, de modo transparente, honesto, competente, e compatível com os recursos humanos e financeiros de que elas dispõem em cada momento. Ou seja:
- Transparente e honesto: mostrar o que realmente foi / pretende ser feito. Não querer “iludir”, com o intuito de atrair beneficiários (público-alvo) e apoiadores (financiadores).
- Competente e compatível com os recursos disponíveis: começar pequeno, se valendo do apoio sério e gratuito da própria comunidade-alvo e de outros parceiros próximos que vêm valor em suas iniciativas. Aos poucos, ir construindo parcerias, trocando experiências com outras organizações e pessoas que já atuam na área e, assim de forma colaborativa, ir amadurecendo e crescendo de forma sustentável.
Vale lembrar do pressuposto básico que impera no Setor Social Não Lucrativo, independentemente do tamanho da ONG, uma vez que a sua fonte básica de recursos são as doações: se a organização não consegue comprovar resultado positivo (potencial ou realizado), ela não consegue mobilizar recursos e, portanto, nem sequer existir.
Quer esse pressuposto significar que o alcance de resultados / impacto social representa o cerne da razão de ser de uma organização do Terceiro Setor. Então, por mais iniciante que seja a ONG, o modo como ela se mobiliza em torno dos resultados, tangibiliza esses resultados e comprova o seu alcance tem que estar muito claro e transparente para todos os públicos envolvidos com a organização. Mostra o comprometimento da organização com a sua missão social.
Daí, a meu ver, alguns exemplos de dados básicos e relevantes que uma ONG, por menor que seja, não pode deixar de publicar, cuidadosamente e com precisão:
- Entrada e Aplicação dos Recursos;
- Direção e Equipe da Organização, com suas atribuições
- Público-alvo da organização. Público beneficiário (Características)
- Atividades realizadas (Quais? Quando? Como foi a participação dos beneficiários?)
- Produtos gerados (Atendeu às expectativas dos beneficiários?)
- Resultados imediatos na vida dos beneficiários (logo após encerrado o Projeto)
- Impacto no longo prazo na vida dos beneficiários e Causalidade atribuída ao Projeto (Entrevista qualitativa)
Ainda que medir resultados sociais de forma consistente represente um desafio em âmbito global, mesmo as ONGs nascentes têm que minimamente saber descrever com competência a sua estratégia de atuação relacionada com os resultados pretendidos, prestar contas quanto à aplicação dos recursos recebidos e apresentar proxies dos resultados encontrados.
Enfim, por meio de dados básicos como exemplificados acima, a ONG consegue ir aos poucos ganhando credibilidade e confiança junto aos seus beneficiários e apoiadores próximos e, assim, ganhando envergadura para, mais adiante, conquistar novos e maiores apoiadores, seja de grandes empresas diretamente, ou de fundações familiares, ou ainda por meio de licitações.

