Nessa Copa do Mundo de Futebol (2026), várias partidas estão previstas para a cidade de Los Angeles (LA), no sul da Califórnia / Estados Unidos. Famosa por ser o maior polo da indústria cinematográfica, LA é também um dos mais importantes centros financeiros e econômicos daquele país e do mundo. Porém, em contraste com todo esse charme e dinamismo, em plena região central da cidade está Skid Row (que significa: Ladeira abaixo), área que compreende mais de 50 quarteirões e concentra uma população de rua que chega a 4.500 pessoas, vivendo em barracas, abrigos temporários, prédios abandonados ou direto na rua.
Vale muito a pena ver esse vídeo-documentário sobre Skid Row, que ajuda a refletir sobre o paralelo com certas situações no Rio de Janeiro, São Paulo e outras grandes cidades do Brasil – Investigando Skid Row em 2025: O bairro das pessoas em situação de rua em Los Angeles.
Por que tal contraste em uma mesma cidade? Qual o paralelo entre Skid Row e o fenômeno dos moradores de rua que tem crescido ultimamente nas grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte? Sobre essa questão, mantive um interessante diálogo com a IA (Inteligência Artificial), e espero que possa ser útil para pensar a questão social e humana dos moradores de rua no Brasil. Encontrar a solução é complexo e difícil, mas exige antes de tudo conhecer a realidade, querer mudar e unir forças.
Por que é comum encontrar cidades que produzem tanta riqueza também concentrarem tanta miséria extrema?
No fundo, esse é um problema que envolve uma combinação de fatores estruturais.
1. A riqueza da cidade não é distribuída territorialmente
Quando dizemos que São Paulo ou Rio são cidades ricas, estamos falando da riqueza agregada produzida por milhões de pessoas e empresas. Mas a renda está extremamente concentrada.
Em muitos casos, o crescimento econômico e a valorização imobiliária acabam expulsando os mais pobres das áreas formais de moradia. Quem perde emprego, ou rompe vínculos familiares, ou enfrenta dependência química ou problemas de saúde mental pode acabar caindo rapidamente em situação de rua.
E paradoxalmente cidades mais ricas tendem a atrair mais pessoas vulneráveis porque nelas existem:
- mais oportunidades de trabalho informal;
- mais serviços assistenciais;
- mais circulação de dinheiro;
- mais doações.
2. Os centros urbanos oferecem vantagens de sobrevivência
Moradores de rua raramente se concentram em bairros residenciais afastados. Isto porque eles tendem a se concentrarem locais onde existam:
- restaurantes e comércio;
- circulação intensa de pessoas;
- igrejas e organizações sociais;
- hospitais;
- transporte público;
- possibilidade de obter renda informal.
Daí porque os centros comerciais tornam-se polos de atração. Foi exatamente o que ocorreu em Skid Row. Não porque o local fosse agradável, mas porque ali se concentravam serviços de assistência, abrigos e oportunidades mínimas de sobrevivência.
3. O aumento dos custos de moradia
Um dos fatores mais importantes, tanto nos EUA quanto no Brasil, é o descompasso entre renda e habitação. Quando os aluguéis sobem, os imóveis se valorizam; daí, o que se observa é que, como a renda dos mais pobres cresce pouco, um número crescente de pessoas desses locais vai sendo expulsa e passa a viver em condições precárias; e é assim que algumas delas acabam chegando à situação de rua.
4. A rua deixou de ser apenas um problema econômico
Décadas atrás, a população em situação de rua era composta majoritariamente por pessoas empobrecidas, ou melhor, extremamente pobres.
O que se tem verificado é que hoje o perfil dos moradores de rua se tornou mais complexo. Há uma forte presença de:
- dependência química;
- transtornos psiquiátricos;
- rompimento de vínculos familiares;
- egressos do sistema prisional;
- migrantes sem rede de apoio.
Isso torna muito mais difícil resolver o problema apenas com emprego ou assistência financeira. Sem falar que a inserção no mercado de trabalho vem se tornando cada vez mais exigente em termos de qualificação.
5. A capacidade de abordagem do Estado não acompanhou o crescimento do problema
As políticas públicas costumam ser fragmentadas. Porém, o fato é que a população em situação de rua precisa simultaneamente políticas integradas de:
- habitação;
- saúde mental;
- tratamento para dependência química;
- documentação;
- inserção produtiva;
- reconstrução de vínculos sociais.
Mas esses serviços normalmente pertencem a diferentes secretarias e órgãos que operam separadamente. Daí, o que acaba acontecendo é que muitas pessoas entram no sistema de assistência social sem conseguir sair (ou ir além) dele.
6. Existe um efeito de concentração territorial
Esse efeito ocorre quando um determinado local da cidade passa a concentrar diferentes tipos de serviço de assistência social a moradores de rua, tais como:
- abrigos,
- restaurantes populares,
- centros de assistência,
- programas sociais,
Foi o que ocorreu em Skid Row. Desse modo, retroalimentando um processo de atração e concentração de moradores de rua para esses locais. Quando tal acontece, fica-se frente a um dilema cada vez mais difícil de solucionar:
- Se os serviços de assistência forem concentrados, cria-se um polo permanente de moradores de rua.
- Porém, se esses serviços forem dispersos, muitos moradores de rua ficam sem acesso aos serviços
O esvaziamento econômico das áreas centrais das metrópoles é a principal razão para o crescimento da população de rua nesses locais?
De certa forma, sim. Historicamente, o centro foi sempre o principal polo financeiro e comercial dessas cidades, além de ser o local de moradia das elites ou das classes médias.
Com o passar das décadas, empresas, moradores de renda mais alta e os investimentos migraram para novas centralidades. Por exemplo, no Rio de Janeiro parte das atividades econômicas migrou para a Zona Sul e depois para a Barra da Tijuca. Em São Paulo, o centro perdeu protagonismo para a Avenida Paulista, depois para a Avenida Faria Lima, Berrini e outros eixos.
A consequência foi um estoque significativo nessas áreas (que eram centrais) de edifícios vazios ou subutilizados; imóveis degradados; e menor presença de moradores permanentes. Ou seja, houve uma perda da vitalidade urbana nesses espaços.
Porém, é importante ter claro que nem todo centro esvaziado gera um bolsão de população de rua. E nem toda concentração de moradores de rua ocorre em áreas decadentes. O que parece ser decisivo para a concentração de moradores de rua é a combinação de:
- centralidade urbana;
- acessibilidade;
- presença de serviços aos moradores de rua;
- tolerância institucional;
- disponibilidade de espaço público.
Por isso, mesmo algumas áreas muito valorizadas também podem ter grande presença de população de rua. É o que tem se observado, por exemplo, no litoral oeste dos EUA (partes do estado de San Francisco, e em Seattle) e também do Canadá (Vancouver).
Uma hipótese interessante levantada por urbanistas brasileiros é que os centros do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte passaram a concentrar simultaneamente duas características: perderam parte de sua função econômica tradicional, mas continuaram sendo os locais mais acessíveis e conectados dessas metrópoles. Essa combinação os torna especialmente atrativos para a população em situação de rua e para a rede de serviços que a atende. Isso ajuda a explicar por que o fenômeno se tornou tão visível justamente nessas áreas centrais.
Discutindo a solução – Concentrar serviços de assistência social em determinados espaços acaba atraindo mais moradores de rua?
Depende. É preciso entender que há uma grande distinção entre esses 2 questionamentos:
- A oferta de serviços sociais (como abrigos, restaurantes populares, centros de acolhimento, distribuição de alimentos e atendimento de saúde) atrai pessoas em situação de rua para uma determinada área?
- A oferta desses serviços sociais aumenta o número total de pessoas em situação de rua?
No caso (1) a resposta pode ser sim. Foi o caso bem nítido de Skid Row da década de 1960 para cá, e o que tem ocorrido em áreas centrais de São Paulo e Rio de Janeiro a partir de 2000.
No caso (2), a resposta é não. Suponha que todos os serviços sociais desaparecessem dessas áreas. Os problemas sociais (de pobreza, dependência química, transtornos mentais, abandono das famílias, falta de moradia) continuariam existindo; só que dispersos geograficamente, porém não solucionados.
Por isto, alguns pesquisadores afirmam que a concentração geográfica dos serviços sociais funciona sobretudo como um “imã de localização” do que como uma “fábrica de moradores de rua”. A definição é, pois, de política pública: ou se concentra a oferta dos serviços de assistência social em poucos lugares, ou os distribui pela cidade.
Discutindo a solução – Nem concentrar a oferta dos serviços sociais nem espalhar de forma descoordenada
As experiências internacionais tendem a evitar esses extremos: nem concentrar todos os serviços sociais em uma única área; nem espalhar esses serviços de forma totalmente descoordenada. O modelo que tem ganhado força é o modelo da descentralização combinada com habitação permanente.
Nesse modelo, a lógica é (1o) oferecer moradia estável; (2o) levar os serviços até onde a pessoa mora; e, daí evitar a formação de grandes territórios de exclusão. Essa é a filosofia por trás de programas do tipo “Housing First“, adotados em diversas cidades da América do Norte e da Europa.
Discutindo a solução – Só assistência social não resolve
Uma cidade precisa, sim, oferecer assistência humanitária imediata — alimentação, higiene, abrigo, atendimento de saúde e proteção contra violência. Deixar de fazê-lo seria socialmente e eticamente inadmissíveis.
Mas também é verdade que uma cidade focada apenas na política de assistência social pode acabar tendo que administrar o problema indefinidamente, sem reduzi-lo.
O desafio é que existem três horizontes de atuação de política pública muito diferentes:

Muitas cidades têm conseguido atuar razoavelmente bem no primeiro nível e muito mal nos dois seguintes.
Por isso temos visto situações que se repetem por décadas: equipes sociais trabalham intensamente, organizações da sociedade civil fazem um esforço admirável, recursos públicos são gastos, mas o número de pessoas nas ruas permanece elevado ou até cresce.
Outro ponto importante de se levar em consideração é que essa discussão costuma ser polarizada entre dois grupos: (i) quem acredita que basta ampliar a assistência social; (ii) quem acredita que basta endurecer a fiscalização e remover as pessoas das ruas.
Na prática, a experiência internacional mostrou que nenhuma das duas abordagens, isoladamente, resolveu o problema em larga escala. As cidades que tiveram melhores resultados normalmente combinaram:
- assistência imediata;
- moradia permanente ou transitória;
- tratamento de saúde mental e dependência química;
- qualificação profissional;
- e acompanhamento individualizado por longos períodos.
Isso é oneroso, exige coordenação institucional e produz resultados lentamente, o que ajuda a explicar por que poucas cidades conseguem sustentar esse tipo de estratégia ao longo de muitos anos.
Uma reflexão importante para o caso brasileiro é que os centros do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte parecem ter se tornado, em certa medida, os locais onde o país como um todo “deposita” todos aqueles problemas que não conseguiu resolver, seja nas áreas de desemprego, habitação, saúde mental, drogas, rupturas familiares e sistema prisional. Quando esses fatores se acumulam em um mesmo território, a consequência é muito parecida com o que ocorreu em Skid Row.
Por isso, quando alguém olha para esses bolsões de extrema vulnerabilidade social e conclui que o problema é apenas urbano, provavelmente está vendo apenas a parte mais visível de um fenômeno muito mais amplo. O centro dessas cidades acaba funcionando como um termômetro das fragilidades sociais acumuladas, não só nelas, como também no próprio estado, no país ou até em outros países (com as migrações); ou até mesmo das incapacidades de adaptação aos saltos estruturais no campo da tecnologia.

