Que tipo de EMPREENDEDOR precisamos apoiar nas FAVELAS?

Por on 27/06/2023

Vivemos um momento de profundas transformações no mercado de trabalho, não só no Brasil como no mundo. Nesses últimos anos, já presenciamos nas grandes empresas um corte rápido de empregos de baixa qualificação que vêm sendo substituídos pela eficiência das máquinas e dos computadores. Sem falar no fantasma da inteligência artificial (IA) já começa a rondar para um novo patamar de cortes nos empregos. Como proteger desse avanço acelerado da tecnologia o trabalho das pessoas que vivem nas favelas e periferias?  

Certamente estimular o empreendedorismo pode ser uma das alternativas. Porém, de que tipo de empreendedorismo esses territórios, tão cheio de carências e de “potências”, mais precisam para promover desenvolvimento e qualidade de vida de seus moradores?

Venho me fazendo algumas perguntas ultimamente, na condição de observadora atenta do empreendedorismo nas favelas. E acredito que também vários outros investidores sociais privados, muitos deles de peso, estejam se fazendo – sejam pessoas físicas, empresas e organizações do terceiro setor, de modo a poderem dar a sua contribuição para as questões sociais no Brasil.

1 – Pergunta básica: o que é empreendedorismo? O que é ser empreendedor? 

De algumas definições que vi, a que achei mais esclarecedora e ao mesmo tempo abrangente, foi em Martin e Osberg (2007), a partir dos conceitos introduzidos por Joseph Schumpeter e Peter Drucker

O empreendedorismo descreve um contexto em que se combinam (i) uma oportunidade, (ii) um conjunto de características pessoais necessárias para identificar e perseguir essa oportunidade, e (iii) a criação de um resultado específico.

O empreendedor é atraído por esse equilíbrio deficiente (o problema) porque vê incorporada nele uma oportunidade de fornecer uma nova solução, produto, serviço ou processo. O motivo pelo qual ele enxerga essa condição como uma oportunidade de criar algo novo, enquanto muitos outros veem ali algo inconveniente a ser tolerado deriva de um conjunto único de características pessoais que influem na forma como o empreendedor enxerga a situação – inspiração, criatividade, ação direta, coragem e firmeza. Essas qualidades são fundamentais para o processo da inovação.

O empreendedor é inspirado a alterar o equilíbrio desfavorável. Os empreendedores podem estar motivados para fazer isso porque são usuários frustrados ou porque têm empatia por usuários frustrados. (SSIR, 2007)

Essa definição explicita com clareza os três elementos que são centrais na figura do empreendedor: é a pessoa com capacidade de identificar o problema, capacidade de enxergar a solução, e capacidade de executar com firmeza uma ação direta para viabilizar essa solução.  Assim, quando se fala em buscar estimular o empreendedorismo em um dado território significa criar as condições objetivas para que floresçam e se fortaleçam as capacidades empreendedoras naquele local, na busca de suas próprias soluções.

2 – Apoiar na favela o empreendedor tradicional? Ou o empreendedor social?

Ainda nesse artigo de Martin e Osberg (2007), encontrei uma boa distinção entre esses dois conceitos.

A principal diferença entre empreendedorismo tradicional e empreendedorismo social está na proposição de valor.

Para o empreendedor tradicional, a proposição de valor prevê mercados que possam pagar confortavelmente pelo novo produto ou serviço e está organizada para atendê-los – assim, o empreendimento é projetado para gerar lucros financeiros

Já a proposição de valor do empreendedor social foca em uma população desassistida, ignorada ou extremamente desfavorecida que não dispõe de recursos financeiros nem de influência política para alcançar o benefício transformador por conta própria. Isso não significa que os empreendedores sociais, por princípio, devam evitar proposições de valor lucrativas. As iniciativas de risco criadas por empreendedores sociais certamente podem gerar renda e podem se estabelecer como organizações sem fins lucrativos ou com fins lucrativos. O que distingue o empreendedorismo social é que ele prioriza o benefício social, ou seja, o “impacto relacionado à missão” de sua organização. (SSIR, 2007)

empreendedor tradicional  (morador) da favela age com a mesma lógica do empreendedor (morador) do asfalto / centros urbanos. É o caso, por exemplo, do(a) empreendedor(a) que monta um salão de beleza: identifica a carência desse serviço em um determinado local, e cria o seu negócio para atender a clientela não atendida naquele espaço, cobrando preço coerente com o mercado local. Tal raciocínio vale também para outros empreendimentos como padaria, mercearia, pizzaria, bar ou até mesmo uma creche. Nesses casos, o objetivo central, seja na favela ou no asfalto, está em obter retorno financeiro ao buscar atender uma demanda do mercado naqueles locais. Quando chega o momento de expandir o negócio, o empreendedor tradicional sai em busca de outros mercados – que tanto pode ser em outro local na mesma favela, ou em outra favela, ou no asfalto. O que conta aqui são as suas condições para concorrer e garantir a sustentabilidade financeira.  

Já o empreendedor social tem compromisso primordial com o impacto (ou a transformação) social a que a sua organização se propõe (missão), por meio do atendimento das carências e necessidades sociais de pessoas que não estão devidamente atendidas pelo Poder Público ou pelo mercado.   Diferente do empreendedor tradicional da favela, o empreendedor social não vai para o asfalto / mercado, porque o seu público-alvo tende a estar nas favelas e periferias.  

Um exemplo típico de empreendedor social é o bengalês Muhammad Yunus, que em 1983 criou a empresa social Grameen Bank com o propósito de conceder microcrédito aos pobres das aldeias de Bangladesh. Outro bom exemplo de empreendedor social, já no Brasil, é o de  Edu Lyra, nascido e criado na favela, e fundador da organização Gerando Falcões . Ele acredita que é possível, sim, transformar a vida de crianças, jovens, líderes e moradores das favelas, através da combinação de educação socioemocional, educação profissional, acesso ao trabalho e tecnologias. O grande projeto de sua organização é o ‘Favela 3D`, que ambiciona redesenhar as favelas do Brasil, transformando-as em um ambiente Digno, Digital e Desenvolvido.

Outro exemplo no Brasil, que tenho acompanhado de perto, é o da Layana de Souza , também nascida e criada na favela da Rocinha (RJ), e que está nesse momento criando o Instituto Mudando o Placar (MOP), uma escolinha de basquete, que tem o propósito de, através do basquete, oferecer oportunidades de desenvolvimento humano integral a crianças e jovens que vivem na favela da Rocinha. Ou seja, o MOP mira em mudar o placar da vida e das oportunidades especificamente dessas crianças e jovens.

Como explica Layana, “hoje o seu foco é integral na Rocinha mas, se em algum momento o Instituto vier a crescer, será para levar o seu trabalho para outra favela, e não para outro bairro da zona sul da cidade – mesmo que o retorno financeiro seja muito maior em um bairro da classe média alta. Não somos uma escolinha de basquete como outra qualquer. Queremos ensinar o basquete, sim. Mas queremos ser muito mais do que isto, queremos poder dar oportunidades de formação que a maior parte dos nossos alunos não conseguem ter em suas casas ou na escola”.

3 – Apoiar quem empreende na favela por necessidade? Ou quem empreende por oportunidade?

Normalmente se diz que as motivações que levam as pessoas a empreenderem podem ser englobadas em duas grandes categorias: (i) os empreendedores por necessidade – pessoas que decidem empreender por não possuírem melhores alternativas de emprego e renda, propondo-se a criar negócios que gerem rendimentos, visando basicamente a sua subsistência e de seus familiares; e (ii) os empreendedores por oportunidade – pessoas com capacidade de identificar boas chances de negócio ou novos nichos de mercado, empreendendo mesmo que possuam alternativas paralelas de trabalho e renda. (CIEDS, 2018: Negócios de impacto – As juventudes de favela gerando mudanças em seus territórios e em suas vidas).

Na realidade, as duas motivações não são excludentes; o que há é a predominância de uma ou outra alternativa a mover o empreendedor.  Ainda mais em se tratando de territórios periféricos, tenderá a haver quase sempre a motivação da necessidade (de geração de renda para o autossustento e o da família) e a motivação da oportunidade – que, por definição, é o que caracteriza a verve empreendedora.

Um exemplo de empreendedorismo por necessidade – ou até por ‘extrema necessidade` – é o da empregada doméstica Leila (nome fictício), moradora de favela, que perdeu o seu emprego de muitos anos com carteira assinada. Enquanto não conseguia outro nas mesmas condições e sem ter outra fonte de renda, decidiu trabalhar por conta própria fazendo “quentinhas” para vender na sua própria comunidade. Depois de 6 meses nessa condição de trabalho por conta própria,  ela começou a ficar na dúvida se deveria fazer (ou não) o seu cadastro como MEI (Micro Empreendedor Indvidual), só  para ter acesso aos benefícios previdenciários. O fato é que o seu sonho é poder voltar a ser empregada doméstica, uma vida (para ela) mais segura, previsível e com garantia dos seus direitos trabalhistas.

É fato que a Leila agiu como uma empreendedora, demonstrando ter atitudes empreendedoras. Pois para enfrentar o seu problema individual do desemprego, enxergou a solução de fazer quentinhas e a colocou em prática, valendo-se da sua experiência como cozinheira e da necessidade (não-atendida) por comida caseira que ela percebeu junto a alguns moradores no seu entorno. Porém, ela se vê em uma relação de trabalho precarizada e provisória, que ela espera que dure tão somente até ela conseguir um novo trabalho com carteira assinada.

Por outro lado, é fato também que a favela apresenta muitos outros problemas e carências sociais, ainda não-atendidos (pelo Estado e/ou as grandes empresas do asfalto) e que demandam soluções específicas, que na maior parte das vezes só quem mora lá é capaz de enxergar e desenhar soluções apropriadas com chances de serem bem-sucedidas.  

São esses problemas típicos de favela que podem descortinar um campo amplo de oportunidades para que moradores de favela se realizam enquanto empreendedores  e construam negócios /empreendimentos  nas favelas dedicados à solução inovadora dos problemas específicos desses território (empreendedores de favela), tais como: carteiro comunitário, moto-taxi, gari comunitário, grupos de cuidadoras, gato-net, cooperativas de catadores, cooperativas de costureiras, cisternas coletivas, dentre outros (CIEDS, 2018: Negócios de impacto – Juventudes de favela….)

Como se vê, a Leila empreendedora, ao buscar atender às necessidades de prover alimentação aos seus vizinhos, teve como foco atender às suas necessidades básicas de geração de renda. Diferente do caso seguinte mencionado, o do empreendedor de favela, que mira sobretudo em solucionar um problema de qualidade de vida da comunidade onde mora (objetivo central e direcionador de sua atuação), com consequências indiretas em seu próprio padrão de vida. Quando o negócio dele crescer, poderá ser levado para qualquer local, já que não há nesse caso (diferente do empreendedor social) o compromisso com a transformação social. Porém, há o limitador de que o negócio foi desenhado para atender demandas específicas dessas comunidades carentes; muito possivelmente não encontrará espaço no tipo de demanda e padrão de concorrência do asfalto.

4 – Apoiar startups nas favelas?

definição usual para startup é a de uma empresa (i) em fase inicial;  (ii) que utiliza a tecnologia como base de atuação; (iii) que seja inovadora (capaz de propor soluções novas e criativas para um dado problema);  (iv) escalável (capaz de crescer sem aumentar custos proporcionalmente); e (v) flexível (capaz de se adaptar com agilidade, tanto internamente quanto externamente).

Bons exemplos de  startups brasileiras no geral que já viraram “unicórnios”, isto é, com avaliação de mercado superior a 1 bilhão de dólares americanos, são: 99 (aplicativo de carona), Buser (aplicativo de ônibus para viagens), Creditas (plataforma de crédito com garantia), Gympass (plataforma de academias de ginástica para empresas), iFood (plataforma para entrega de pedidos de restaurantes, farmácias e mercados), Nubank (banco digital com taxas reduzidas) e Quinto Andar (plataforma de aluguel, fazendo a ponte entre locadores e locatários).

A questão é que hoje o ambiente de startups é visto como sendo restrito a profissionais de alta tecnologia, uma elite de “nerds” que se debruça para solucionar problemas de grandes empresas e com alto retorno econômico.  Será que há espaço para as startups florescerem também nas favelas e periferias?

Desafios e problemas sociais não faltam nesses territórios; ao contrário, eles abundam nesses territórios esquecidos pelo Poder Público e pelo setor corporativo. Há que viabilizar oportunidades para que os seus próprios moradores sejam capazes de acessarem as ferramentas adequadas e construírem as soluções locais.  

Um exemplo bem-sucedido de startup em favela é o do Brasil Favela Xpress, criada em 2020 por  Giva Pereira, morador da favela de Paraisópolis (SP). A sua ideia original foi organizar uma forma de entregar os pedidos de compras feitas pela internet aos moradores de favelas, durante o período da pandemia da Covid. O problema (que ele buscou solucionar) é o de  que nas favelas as casas são em geral difíceis de serem encontradas, pois a maior parte delas não tem endereço. Assim, começando por algumas favelas em SP e RJ, a startup conseguiu fazer parceria com a Google para mapear esses espaços e gerar os endereços, com as grandes lojas do país (como Americanas e Casas Bahia), e também com as lideranças nessas comunidades para organizar os espaços de distribuição das mercadorias.

Outro exemplo de startup em favela é o G10 Bank, uma fintech que oferece cartão digital e outras facilidades financeiras de modo a estimular o comércio, a inclusão e o desenvolvimento em áreas de favela.

5 – Enfim, que tipo de empreendedor precisamos estimular nas favelas?

Suponha que você seja um filantropo, ou um investidor social, ou uma pessoa com uma  poupança (por pequena que seja) ou disponibilidade de tempo e experiência que queira compartilhar, de modo a dar a sua contribuição para reduzir a pobreza e as desigualdades sociais. Ou ainda suponha que seja uma empresa ou uma OSC (organização da sociedade civil) que decida planejar o seu investimento social comunitário.

Então, volto agora à pergunta do início: que tipo de empreendedor precisamos apoiar nessas áreas de favelas e periferias? Será o empreendedor tradicional? ou o empreendedor social? ou o empreendedor por necessidade/extrema necessidade? ou será o empreendedor por oportunidade? Ou ainda o empreendedor de startup?

Há dois argumentos principais.

Primeiro, na realidade, todos esses cinco tipos de empreendedores (moradores) de favela precisam de apoio, seja para gerarem renda, ou tirarem o seu sonho do papel, ou

 para darem um salto em seus empreendimentos. Aliás, não é só por ser empreendedor de favela que ele precisa de apoio, uma vez que empreender não é ato isolado e carece sempre de múltiplos apoios em suas diferentes fases, independente da classe social. Mas sobretudo por ser empreendedor de favela é que o apoio se torna mais imprescindível, haja vista as suas múltiplas carências e dificuldades. Muito provavelmente 99% dos empreendedores de favela enfrentam a barreira financeira, quase intransponível, para iniciar o seu empreendimento.  

Em segundo lugar, o investimento feito para apoiar o empreendedor da favela, qualquer que seja o perfil do empreendedor, se bem monitorado, vai tender a ter impacto social positivoPorém, com diferentes nuances. Senão, vejamos:

  • Apoiar os empreendedores guiados exclusivamente por necessidade vai certamente ajudá-los a superar uma fase crítica e sofrida em suas vidas e de suas famílias (beirando à insegurança alimentar severa) e a recuperar a dignidade e a capacidade de voltarem a planejar as suas vidas.
  • Apoiar empreendedores com negócios tradicionais na favela vai contribuir para gerar renda e melhorar a qualidade de vida para eles próprios, suas famílias e os seus colaboradores /parceiros. Se eles expandirem depois para fora da favela, é sinal de que foram bem-sucedidos em suas capacidades empreendedoras e de competição com o asfalto, e na transformação de suas vidas.
  • Apoiar empreendedores guiados pela oportunidade de solucionar problemas típicos de favela vai também gerar renda para eles próprios, as suas famílias, colaboradores e parceiros. Além disso, as soluções trazidas por esses empreendedores vão possivelmente conseguir melhorar, no curto e médio prazo, a qualidade de vida das famílias e moradores de favelas e periferias, atendidos por seus empreendimentos.
  • Apoiar empreendedores sociais de favelas também vai gerar renda para eles, suas famílias, colaboradores e parceiros. Porém, na medida em que esses empreendedores atuam em áreas básicas de formação humana e proteção à vida – tais como educação, saúde, saneamento, qualificação profissional e prevenção – o impacto social positivo de seus empreendimentos terá caráter estruturante, e virá no médio e longo prazo.  Não só no sentido de conseguir  tirar as pessoas da favela, enquanto local de carência; mas também de conseguir  transformar “a pobreza das favelas em peças de museu” (Edu Lyra).
  • Apoiar empreendedores de startups em favelas vai, além de gerar renda para eles próprios e suas famílias, ter um potencial muito grande de transformar, quase que de imediato, a qualidade de vida de muitos moradores de favelas e de proporcionar as bases para um ambiente dinâmico de negócios nesses territórios.

Concluindo, todos esses tipos de empreendedores de favelas precisam de apoio (e muito!) e todos certamente terão impacto social, dependendo da forma como o empreendimento for conduzido. Porém, o que vai definir que tipo de empreendedor apoiar será a motivação do investidor social ou do filantropo. Deixo aqui essa provocação

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.