A filantropia de base (dos pequenos doadores) tem perdido espaço nos EUA nos últimos anos, em contraposição à filantropia dos grandes doadores (famílias ultra-ricas e fundações empresariais). É o que aponta a revista da Stanford Social Innovation Review – Brasil (SSIR, de junho 2026) na matéria Pequenas doações importam (autoria de Mark Dobosz). O valor total das doações segue em rota crescente naquele país, porém o número total dos doadores já vem em queda há algumas décadas. Basta ver que o número de “lares doadores” nos EUA em 2024 caiu pela metade ao que havia sido em 2000.
A ideia central defendida nesse artigo da SSIR [e com a qual eu concordo!] é a de que muitas doações pequenas, somadas, podem ter impacto social significativo, sobretudo no sentido de dar sustentabilidade às organizações (executoras) de base comunitária e também para estimular a inovação social nessas pequenas organizações.
Isto porque “o grosso das organizações de base comunitária depende de contribuições modestas e locais para garantir os seus orçamentos; e quando essa base dos pequenos doadores comunitários começa a desmoronar, as organizações comunitárias passam a depender de recursos de fundações e contratos governamentais. São fontes de financiamento que restringem a autonomia delas, limitam os seus cronogramas e somem quando as prioridades desses grandes doadores mudam. E sobretudo prejudica a inovação social, que implica em testar novas abordagens para problemas persistentes e desenvolver soluções lideradas pela comunidade, mas que não podem ficar na dependência das preferências e interesses das elites”.
No caso do Brasil, essa argumentação se aplica como uma luva. Sendo que a situação das organizações de base comunitária no Brasil é ainda mais crítica, uma vez que elas não conseguem sequer ter acesso aos editais promovidos por grandes doadores (institutos e fundações familiares e empresariais) e governos, em função de exigências legais (tipo 3 anos de funcionamento com CNPJ), e de restrições financeiros e de mão de obra especializada para estarem aptas a concorrerem nesses editais.
Filantropia de base X Filantropia dos grandes doadores: prós e contras
O termo filantropia de base (em inglês, grassroots philanthropy) refere-se à mobilização de recursos financeiros e não financeiros provenientes de um grande número de “pessoas comuns” de uma comunidade ou da sociedade como um todo (os chamados micro e pequenos doadores), em contraposição à filantropia baseada em grandes fortunas, fundações empresariais ou grandes doadores – também conhecida nos EUA como “filantropia de elite”.
A filantropia de base se caracteriza pela (i) existência de um grande número de doadores; (ii) doações geralmente de pequeno valor; (iii) captação podendo ser em massa; (iv) forte vínculo entre doadores e a causa; e (v) participação ativa da comunidade beneficiada. A grande vantagem é que a organização filantrópica apoiada fica com menor dependência de alguns poucos grandes financiadores, o que pode também lhe propiciar sustentabilidade financeira perene.
Por sua vez, a filantropia dos grandes doadores se caracteriza pela (i) existência de poucos doadores; (ii) que aportam grandes contribuições; e (iii) captação personalizada na maior parte das vezes. Se por um lado, a filantropia dos grandes doadores aporta um volume elevado de recursos na(s) organização(ões) filantrópica(s) apoiada(s), por outro lado isso pode acarretar uma maior dependência dessa(s) organização(ões) aos interesses e vontades desses grandes financiadores.
Mas, como classificar os doadores entre pequenos e grandes?
Em sua pesquisa, de âmbito nacional (EUA), a FEP (Fundraising Effective Project) usa uma “classificação estatística” para definir o tamanho do doador, que é baseada no valor total das doações ao longo do ano (do doador), a saber: (i) micro – de US$ 1 a U$100; pequeno – de US$ 101 a US$ 500; médio – de US$ 501 US$ 5.000; grande – de US$ 5.001 a US$ 50 mil; e super grande – mais de US$ 50 mil).
Porém, sob a ótica da captação de recursos, é importante deixar claro que a definição do tamanho do doador vai depender da realidade e do contexto de cada organização filantrópica. Por exemplo, nos EUA, no caso de uma ONG pequena, um doador de US$ 1 mil ao ano pode ser considerado grande; porém, no caso dos doadores de um hospital de grande porte, ele provavelmente estaria entre os pequenos.
Já em se tratando de Brasil, não há uma classificação em nível nacional, como nos EUA (FEP). Mas é comum encontrar classificações de tamanho de doadores que levam em conta as suas faixas anuais de doação, do tipo: pequeno doador – até R$ 1.000; médio – de R$ 1.001 a R$ 10.000; grande – de R$ 10.001- R$ 25.000; super grande – acima de R$ 25.001. Novamente, vale reforçar que na realidade as faixas de tamanho dos doadores são estabelecidas em função do porte e do contexto/realidade da organização filantrópica receptora das doações.
Por que houve o declínio da filantropia de base nos EUA?
Se por um lado há o receio de que esse enfraquecimento dos pequenos doadores possa fragilizar a cultura da doação nos EUA, até então tida como referência em âmbito global, por outro lado vimos que o valor total arrecadado por meio da filantropia naquele país segue mantido, só que com um perfil cada vez mais concentrado e com uma participação ultra reduzida nesse valor total gerado.
Segundo pesquisa da FEP para os EUA, em 2025 os micro-doadores representaram 49,3% do número total de doadores, que somados aos pequenos doadores chegaram a representar 80,1% do total de doadores no país. Porém, esses dois grupos somados foram responsáveis por apenas 5,8% do valor total doado. Ao passo que os “grandes” e “super grandes” doadores, que corresponderam a apenas 3,4% do número total de doadores, foram responsáveis por incríveis 78,6% do valor total doado (sendo os médios doadores responsáveis por 15,5% do valor total doado).
No artigo foram mencionadas as 5 causas principais que explicam o declínio na filantropia de base nos EUA nesses últimos anos, que cito a seguir:
- Baixa histórica de confiança nas entidades sem fins lucrativos. Foi destacado que “muitos doadores ainda associam ´baixos custos administrativos` a ´alto impacto`, pressionando as organizações a investirem menos em infraestrutura, talentos e avaliação, justamente as capacidades que podem gerar eficácia”
- Política tributária, responsável por tornar “as doações mais caras” (ou menos atraentes);
- Encolhimento nos orçamentos familiares;
- Erosão das comunidades doadoras, advinda do “enfraquecimento generalizado das instituições religiosas” e da “crise de conexão social (a tecnologia acabou gerando mais conexões online, porém menos vínculos profundos, que costumavam ser os estimuladores das doações)”;
- Mecanismos alternativos que fragmentam o horizonte das doações, tais como as plataformas de crowdfunding, os investimentos de impacto e o consumo consciente. Não que esses mecanismos possam ser interpretados como concorrentes, mas o fato é que eles acabam fragmentando os recursos até então canalizados para a filantropia.
A título de reflexão, deixo a pergunta: não poderíamos aqui traçar um paralelo grande com o caso brasileiro em relação a todas essas causas?
Como reverter esse declínio da filantropia de base nos EUA?
O referido artigo também apresenta 7 estratégias para estimular a filantropia de base nos EUA, além de propor uma agenda sistêmica baseada em 3 pontos fundamentais. A seguir, me atenho a enumerá-los.
As sete estratégias:
- Adotar as doações mensais como padrão. Ou seja, usar as doações recorrentes como padrão, e não como alternativa opcional. Proposta inspirada no “modelo de assinatura mensal da Netflix, Spotfy, e afins” que tem dado muito bons resultados. A meu ver, leva a um comprometimento maior do doador com a causa e/ou a organização filantrópica apoiada.
- Investir na captação dos doadores médios “esquecidos”. Pesquisas mostram que iniciativas de engajamento voltadas para doadores intermediários (do tipo visitas aos locais dos programas) custam muito menos do que cultivar grandes doações, e ainda geram taxas de retenção e progressão das doações muito melhores.
- Captar recursos entre pares. Por exemplo, instituições de pesquisa médica podem se valer (em suas captações) dos familiares de pacientes como “embaixadores de captação”
- Usar a tecnologia para personalizar (e não automatizar) relacionamentos. A inteligência artificial (IA) provê ferramentas valiosas para o engajamento com os doadores. O sucesso está em saber usá-la de modo eficiente e eficaz.
- Adotar transparência radical sobre o impacto. Diante de níveis historicamente baixos de confiança, as organizações filantrópicas precisam ir além de relatórios anuais superficiais. …. Na prática, isso significa publicar não só as histórias de sucesso, mas também as de programas com desempenho abaixo do esperado, explicando o que se aprendeu.
- Engajar proativamente os fundos orientados por doadores – DAFs (Donor-Advised Fund). O DAF é uma conta filantrópica nos EUA onde a pessoa deposita um determinado valor em dinheiro ou ativos, recebe dedução fiscal imediata, investe esse valor para crescer – livre de impostos, e pode recomendar quando e quais organizações sem fins lucrativos (OSCs) receberão as doações. No Brasil, ainda não existe essa figura legal, porém o que mais se aproxima aqui de um DAF são: (i) os Fundos Patrimoniais ou Endowments (em que apenas os rendimentos do patrimônio podem ser objeto de doações), ou (ii) os chamados Fundos (Filantrópicos) Nomeados, ou Fundos (Filantrópicos) de Termo, em que existe um intermediário filantrópico institucional (como o IDIS e/ou a Sitawi) que possui a estrutura de contas e governança para fazer a gestão simultânea de vários desses fundos.
- Construir círculos de doação coletiva. Nos EUA, os círculos de doação Coletiva (Giving Circles) são uma forma de filantropia colaborativa onde um grupo de pessoas reúne seu dinheiro, tempo e talentos para juntos decidirem quais organizações ou projetos sociais vão apoiar.
A Agenda Sistêmica:
- Criar incentivos tributários para estimular as doações beneficentes da classe média;
- Investir em estrutura e educação para a filantropia. Por exemplo, com iniciativas do tipo “Dia de Doar” (que já existe no Brasil), e o engajamento cívico e o letramento filantrópico fazendo parte do currículo escolar;
- Repensar a Avaliação e a Eficácia: Do lado das organizações filantrópicas, elas devem passar a adotar abordagens como a escuta ativa de seus públicos, a avaliação formativa de seus programas e a divulgação transparente tanto dos sucessos como dos fracassos. Do lado dos financiadores, eles precisam apoiar esses investimentos, ao invés de tratar a avaliação como uma obrigação não financiada ou um custo administrativo a ser minimizado.
Também a título de reflexão, fica o questionamento: todas essas 10 medidas de estímulo à filantropia de base não seriam também válidas para o caso brasileiro?
Insights para o Brasil
Diferente dos EUA, no Brasil ainda estamos na fase de despertar e estimular aqui a cultura da doação. E, sob a ótica da redução da pobreza e geração de oportunidades, quanto mais doadores tivermos, melhor – sejam eles grandes, médios, pequenos ou micro. Também não temos ainda aqui no Brasil um perfil de doadores (tamanho do doador X valor doado), como aquele feito pelo FEP para os EUA.
Por outro lado, há que se reconhecer que o Brasil segue convivendo com situações de pobreza e violência crescentes em áreas de favela e periferias dos grandes centros urbanos. Na maior parte das vezes, os movimentos e organizações de base comunitária têm se mostrado como os atores mais capazes de identificar os problemas, liderar e conduzir soluções, só que o fôlego dessas iniciativas acaba sendo curto, e elas não se sustentam. Isto porque faltam recursos financeiros, falta capacidade para acessá-los, falta visibilidade de potenciais doadores “do asfalto”. Definitivamente essas organizações de base comunitária não estão equipadas para acessar os recursos que são disponibilizados pelos grandes doadores. Sendo que são essas organizações que justamente têm legitimidade e capacidade para conduzir soluções válidas nesses territórios vulneráveis.
Daí porque vejo que essas orientações trazidas nesse artigo da SSIR como forma de retomar a filantropia de base nos EUA podem ser úteis para, no caso do Brasil, despertar o compromisso com a filantropia de base. Entendida aqui como a filantropia dos micro e pequenos doadores, ou seja, dos próprios moradores que vivem nessas comunidades empobrecidas, daquelas pessoas / empresas que vivem no entorno dessas áreas e ainda daqueles que têm algum tipo de relacionamento com esses territórios. O ponto é que a filantropia de base pode vir a ser uma estratégia importante no Brasil, em parceria com os governos, no combate à pobreza, criação de oportunidades, redução da violência (advinda do uso de drogas) e melhoria das condições de vida.

