Fundador de organização comunitária: deve ter dedicação exclusiva na fase inicial?

Por on 15/05/2026

Suponha o fundador de uma organização comunitária do Terceiro Setor voltada para atender crianças, adolescentes e as necessidades em geral de um território de favela. No início, para a organização conseguir se implantar e captar recursos, vai demandar muito tempo e dedicação do seu fundador, ou empreendedor social. Pergunto: nessa fase inicial, que é justamente a fase mais difícil para a organização ganhar fôlego e deslanchar, esse empreendedor social deveria dedicar tempo integral para a organização comunitária? Ou será que a organização para o empreendedor, nessa fase inicial, deveria ser o seu trabalho voluntário – no sentido de o empreendedor conciliar o seu trabalho remunerado com as suas funções na organização comunitária?

Nos empreendimentos econômicos, é comum se defender que, sobretudo na fase inicial do negócio, os empreendedores devem ter dedicação exclusiva. Há até um ditado popular que diz que “é só o olho do dono que faz o negócio crescer”. Mas e no caso dos empreendimentos sociais?

Empreendimentos econômicos X Empreendimentos sociais

É importante ter clareza da distinção entre esses dois tipos de empreendimentos, para a seguir compreendermos a forma como os seus empreendedores atuam na fase inicial.

Os empreendimentos econômicos podem ser entendidos como a realização de negócios para produzir bens e serviços com finalidade lucrativa, aí incluídos desde pequenos negócios de base comunitária (pipoqueiro ou salão de beleza na favela), até grandes empresas tradicionais (como siderúrgicas, bancos e petroleiras), empresas de impacto social e startups de base tecnológica (como plataformas financeiras ou educacionais).  

Dito de modo simplificado, nos empreendimentos econômicos os bens e serviços são vendidos no mercado (clientes), com isso gerando renda que vai ser usada para remunerar os fatores de produção envolvidos (insumos, mão-de-obra, capital, terra, etc…), criando um círculo virtuoso de expansão do negócio.

No âmbito dos diferentes tipos de empreendimentos econômicos, a fase inicial é justamente a mais difícil e arriscada. Porque é quando em geral o negócio ainda está bem pequeno e frágil, e com recursos muito escassos. É quando ainda se está testando as variáveis do modelo do negócio, e qual o grau de acerto das hipóteses nas quais o empreendedor / fundador se baseou para criar o negócio, tais como: tem mesmo mercado? O produto/serviço atende a esse mercado? A estrutura de funcionamento está adequada e com custo razoável?

 Costuma-se dizer que esse é o momento justamente de o empreendedor concentrar esforços na direção do seu “sonho grande de negócio”. Assim, embalar os sacrifícios, dívidas e dificuldades enfrentadas nessa etapa inicial com o “brilho nos olhos” de que tudo poderá ser recompensado nas etapas seguintes.

Daí porque se costuma afirmar que vale a dedicação exclusiva do empreendedor econômico nesse período inicial. Pois uma vez vencida essa etapa da “provação” (normalmente de até 3 anos), que é conhecida pela elevada “mortalidade infantil” das empresas, cresce a probabilidade de que o negócio ganhe tração e entre numa espiral positiva de bons resultados (econômicos) e lucratividade – tanto para o empreendimento como para o seu empreendedor.

Mas, e os empreendimentos sociais?

Entendo aqui os empreendimentos sociais como sendo organizações do Terceiro Setor, que são privadas e sem fins lucrativos (ou filantrópicas), voltadas para solucionar problemas sociais específicos e/ou gerar bens públicos. Dentro dessa definição abrangente, há diferentes tipos de empreendimentos sociais no Brasil, indo desde grandes institutos e fundações privadas, sejam familiares ou corporativas, atuando nas mais diferentes áreas (seja de pesquisa, cultura, educação, saúde, etc…), até as chamadas organizações de base comunitária, que incluem os coletivos, movimentos, as ONGs (organizações não governamentais), formalizados ou não, atuando em áreas de favelas ou rurais.

Importante atentar para o fato de que a fonte de sustentação financeira de um empreendimento social, ou organização do Terceiro Setor, são basicamente as doações, podendo haver marginalmente geração de receita própria advinda de prestação de serviços. Quer isso dizer que a “força” de um empreendimento social está em sua capacidade de mobilizar recursos junto aos seus doadores.

Empreendimento social: dois tipos extremos

Suponha um primeiro tipo de organização do Terceiro Setor, que já nasce com uma fonte certa e sólida de doação. Que é quando já existe desde o início um doador-âncora ou vários – seja uma empresa, ou família filantropa, ou grupo de filantropos, ou ainda o próprio fundador que decide criar os respectivos institutos e/ou fundações privadas. Como exemplos, podem ser citados aqui: Fundação Itaú; Fundação Bradesco; Instituto Humanitas360; Sistema Divina Providência; Instituto Reação; ou o Movimento Bem Maior.    

O que se percebe é que nesses casos a organização filantrópica pode até nascer pequena – ou não, mas já surge com visibilidade (junto a potenciais doadores) e uma estrutura sólida de recursos financeiros.  O mais usual é que o(s) fundador(es) já tenha(m) a sua fonte principal de renda, geralmente em outra atividade ou negócio lucrativo, para garantir o próprio sustento. E, portanto, pode atuar à frente da organização filantrópica que está criando na condição de voluntário, ou até mesmo contratar (no mercado) um substituto para exercer essa função em total concordância com as suas orientações. Em ambas as condições, vai poder liderar, de “corpo e alma”, todos os envolvidos com o seu entusiasmo, competência e conhecimento da causa.

Suponha agora um segundo tipo de organização do Terceiro Setor, de base comunitária, que nasce da vontade de um líder comunitário de enfrentar as carências e vulnerabilidades sociais do seu entorno. Diferente do tipo anterior, a iniciativa praticamente nasce sem contar com recursos financeiros (doações) para conduzir as suas atividades /ações. E mais difícil ainda, como a organização está inserida dentro da comunidade, o trabalho social que ela realiza não tem visibilidade fora da comunidade, isto é, junto a potenciais doadores “do asfalto” com maior capacidade de doação (grandes empresas e famílias ricas). Também na maior parte das vezes, o seu fundador não é conhecido nem tem prestígio junto a esses doadores.

Assim, essa arrancada inicial do trabalho social é quase que uma luta hercúlea de micros avanços num mar de carências, para ir engatilhando ajudas, apoios, sobras, boa vontade, trabalho abnegado, e aos poucos ir construindo uma ação focada em criar oportunidades e melhoria nas condições de vida aos moradores daqueles territórios.   

Nessa fase inicial, a organização se vê frente a um círculo vicioso de dificuldades para conseguir mobilizar recursos, só para citar alguns:

  • se não é formalizada (ter cnpj), não consegue mobilizar doações; se não mobiliza doações, não consegue se formalizar.
  •  se não tem equipe especializada, não consegue participar de editais; se não participa de editais, não consegue “bancar” equipe especializada.
  • se não tem prestação de contas /sistema de monitoramento e avaliação de resultados, não mobiliza recursos; se não mobiliza recursos, não consegue prestar contas e avaliar as suas ações de modo adequado.  

Sem dúvida, o ideal seria que o fundador / idealizador da organização comunitária pudesse dedicar tempo integral para os muitos desafios envolvidos nessa fase inicial, sobretudo o da mobilização de recursos, que é o que vai garantir a continuidade do seu trabalho social. Mas será que essa alternativa é mesmo realista e viável?

Enfim, o fundador de organização comunitária deve ter dedicação exclusiva na fase inicial?

Há que se reconhecer que especialmente em organizações comunitárias de favela, o Fundador já vive sob pressão para garantir o seu sustento adequado e o de sua família. Também o idealismo de “largar tudo pela causa social” não funciona, e já chegou a destruir muitos projetos sociais promissores. Isso porque o Fundador fica exausto, endividado e pressionado emocionalmente. E, quando isso acontece, a iniciativa fica fragilizada, porque, no início, ela depende fortemente da energia e estabilidade do Fundador.

O fato é que o Fundador de organização comunitária pode ter, sim, dedicação exclusiva, mas para tal precisa ter garantida a sua remuneração. Só que, como comentado, a fase inicial das organizações comunitárias padece fortemente de doações consistentes para garantir o seu funcionamento. As doações são raras, de pequeno valor, pontuais  e querem ser destinadas preferencialmente para viabilizar as atividades-finalísticas – e não para atividades-meio, que é o caso do gerenciamento da organização. Então, sob essas condições, não há como garantir a remuneração do Fundador na fase inicial.

Daí porque, nas organizações comunitárias, o mais saudável é que o Fundador comece de forma híbrida, isto é, buscando conciliar o seu trabalho remunerado com a sua atuação social (voluntária) à frente da organização.  Se e quando nas etapas seguintes, conseguir implementar uma estrutura de doação recorrente e estável, aí sim, o Fundador poderá migrar para a situação de dedicação exclusiva e remunerada na organização.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.