Apelo (dos pequenos) do Terceiro Setor à IA

Por on 02/08/2026

Faço aqui um apelo aos desenvolvedores de sistemas de Inteligência Artificial (IA) em nome das pequenas organizações do Terceiro Setor no Brasil. Sobretudo em nome daquelas organizações de base comunitária que navegam em um mar infinito de carências – seja de dinheiro, de visibilidade /rede de contatos com potenciais doadores, de equipe de apoio, de profissionais especializados e de conhecimento especializado. E que, por outro lado, convivem com uma série enorme de demandas sociais de toda ordem, uma vontade imensa de ajudar e liderar a transformação daquela dura realidade social.

Ultimamente tive a oportunidade de estar ao lado de organizações comunitárias de favela que estão em fase inicial. E vejo que a maior dificuldade que essas organizações enfrentam nesse momento inicial é a de conseguir estruturar os seus dados de modo razoável para (i) fazer a gestão básica dos seus recursos financeiros (entradas e saídas), e (ii) entender / comunicar o trabalho que realizam junto a seus beneficiários ou participantes. Parecem questões muito simples, mas que para elas logo assumem proporções gigantescas – a ponto de, não raramente, serem as causas-chave para a inviabilização da sua continuidade.  

E por quê? Ou melhor: por que a gestão dos dados assume tal relevância nessa fase inicial de vida das organizações comunitárias?

Simplesmente pelo fato de que nessa fase, como tenho percebido, as demandas para colocar a organização realmente funcionando e atendendo aos beneficiários são inúmeras, face à equipe super reduzida, contando apenas com o trabalho, voluntário na maior parte das vezes, do próprio fundador e de um ou outro apoiador idealista.  Donde se conclui que, para além de fazer a organização funcionar, mal sobra tempo e recursos para organizar os dados e produzir as informações necessárias para gerir, guiar e poder comunicar o trabalho da organização.

Na maior parte das vezes, essa gestão dos dados acaba sendo relegada a meras anotações em papel, listagens em cadernos, ou (para aqueles “fundadores de ONGs” já mais avançados) a várias planilhas do tipo Excel ou Monday.com. Os dados entram, mas de forma estanque e esparsa, e “dialogam” muito pouco (ou quase nada) com o desempenho e a evolução da organização no médio e longo prazo. Quanto muito, reportam por exemplo sobre a frequência dos participantes em um dado mês.

Portanto, nessa fase inicial das organizações de base comunitária marcada pela carência de recursos e apoios, o grande desafio está em entrar com os dados relevantes (sejam dos participantes, ou para outros stakeholders relacionados) dentro de um formato ágil e racional que viabilize de imediato a geração e análise de informações relevantes para a organização.  

E para que esses dados são necessários? Um caso ilustrativo do uso de IA: Gestão da trajetória dos participantes na organização

Suponha uma organização de base comunitária voltada para crianças, adolescentes e jovens no contraturno da escola.

Para simplificar e potencializar o trabalho de gestão da informação,o ideal seria conseguir reunir, em uma única planilha (que pode ser em Excel), todos os dados relevantes de cada participante ao longo do período em que estiver na organização. Seja para fins de ordem prática, para a condução das atividades em si ligada àquele(a) participante (como o telefone do responsável); seja para finalidade de gestão, para monitorar o desempenho da organização como um todo.

Observe que no primeiro caso, os dados não precisam ser consolidados, pois dizem respeito apenas àquele participante específico. Porém, no segundo caso, os dados precisam, sim, ser sistematizados para comporem indicadores – por ano ou para todos os anos; por projeto ou para todos os projetos, como por exemplo:

  • Número de participantes que já passaram pela organização;
  • Número de participantes por projeto;
  • Características do público-alvo;
  • Tempo médio de permanência dos participantes na organização;
  • Frequência média mensal nos projetos; Variação da frequência ao longo dos anos;
  • Taxa de evasão / saída; Causas da evasão / saída;  
  • Taxa de aprovação na escola
  • No caso de projetos profissionalizantes: % de jovens aprendizes; % de novos empreendedores; % dos jovens que foram empregados; etc…

Penso que essa planilha única poderia ser construída da seguinte maneira: os nomes dos participantes estariam nas linhas. Já as colunas conteriam as especificações dos dados necessários para compor os indicadores, distribuídos em 3 blocos, a saber: (i) Entrada dos participantes. Identificação de cada um deles; (ii) Evolução dos participantes na organização, segundo os projetos; (iii) Saída dos participantes.

A ideia é que a especificação das colunas da planilha seja ajustada em função dos objetivos e da natureza dos projetos de cada organização. As colunas serão, depois, agrupadas para cada ano de funcionamento da organização. Dessa forma, conseguiremos ter em uma única planilha a história do universo dos participantes na organização.

Uma vez feita essa entrada cuidadosa dos dados na planilha, como tabular rapidamente esses dados a qualquer momento, de modo a gerar as informações e gráficos dentro dos diferentes recortes desejados? Como por exemplo: tempo de permanência na organização, por gênero; taxa de saída da organização em determinados anos, segundo as causas; distribuição dos participantes segundo o seu grau de interação com a organização; etc….

Aqui é que entra, pois, o grande desafio para a IA (desenvolvedores e/ou programadores): montar um “sistema de análise inteligente” a partir dessa planilha única, que irá sendo alimentada pela organização, de modo a viabilizar a consolidação dos dados e o monitoramento permanente da trajetória dos seus participantes.  E, ao mesmo tempo, garantindo a privacidade dos dados inseridos na planilha, pois eles são de caráter confidencial e dizem respeito apenas a cada participante e suas famílias.  E tudo isto, de preferência, de forma gratuita.

Desse modo, estaríamos dando um salto de qualidade, para que essas organizações, nesse momento inicial de tantas carências de recursos, consigam tangibilizar e dar visibilidade do seu trabalho social junto a potenciais parceiros, governos, doadores e financiadores.

Indo aqui além, esse monitoramento consistente da trajetória dos participantes, viabilizaria, um pouco mais adiante, poder avançar para a avaliação de resultados / impacto dos projetos sociais da organização, a partir de uma amostra aleatória criteriosa dos seus participantes.

Será isso um sonho? Ou pode vir a se tornar realidade muito em breve na gestão de dados das pequenas organizações de base comunitária no Brasil? Fica, então, esse apelo para os desenvolvedores de IA!

NOTA – Recomendo o video IA.3 – Inteligência Artificial para o Terceiro Setor (outubro de 2025), organizado pelo IDIS . Explica, de forma introdutória e didática, o que é a IA e sobre o seu uso para as organizações do Terceiro Setor.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.