ESG não morreu!

Por on 27/07/2026

Chamou a atenção artigo reproduzido no jornal Valor (17/07/2026), intitulado O ESG morreu, de autoria de Katie Martin, do Financial Times. A meu ver, o ESG NÃO morreu – apenas segue em uma dinâmica natural de idas e vindas.

Entendo ESG como a estratégia, ou as práticas corporativas, baseada nos chamados valores ESG (do inglês: Environmental, Social and Governance). Ou seja, para além do desempenho econômico lucrativo da empresa (beneficiando diretamente proprietários / acionistas), preza por um padrão de governança ético e transparente; uma relação respeitosa com os demais públicos envolvidos (colaboradores, fornecedores, clientes, comunidades do entorno e a sociedade em geral); e uma relação cuidadosa com a natureza.

Identifico de modo resumido 5 fases na trajetória ESG que, desde 1980, vem por uma trilha de altos e baixos, tendo assumido diferentes denominações ao longo do percurso – como Responsabilidade Social Corporativa (RSC), Sustentabilidade Empresarial, Valor Compartilhado e o ESG (que foi o que predominou por último). Trajetória essa sempre liderada pelos Estados Unidos (EUA) até recentemente, tendo a seu lado os países da Europa.

FASE 1 – SURGIMENTO (1990 – 2005). Gestada a partir da Teoria dos Stakeholders (1984) em contraposição à Teoria do Shareholder que só previa o foco nos interesses dos proprietários e acionistas da empresa.  Assim, o movimento da RSC nasce como uma maneira das empresas, sobretudo as dos EUA e Europa, enfrentarem as críticas crescentes dos movimentos sociais das décadas 1960-70 por direitos civis, de mulheres, de condições de trabalho, consumo e meio ambiente.

É nessa época que começam a ganhar espaço os conceitos atinentes ao relacionamento das empresas com as comunidades do entorno, como o da filantropia corporativa (ou ação social empresarial) e, mais adiante, o da filantropia corporativa estratégica (ou investimento social privado).

FASE 2 – EXPANSÃO (2005-2015).  Período de busca por consolidar os conceitos de empresa socialmente responsável, ou empresa sustentável, mediante a criação de normas (como a ISO 26000), índices (como o DJSI, hoje conhecido como Dow Jones Best-In-Class), padrões de relatórios (como os do GRI e o SASB)  e pactos (como o Pacto Global da ONU – Agenda 2030).

Vale lembrar que todos esses instrumentos foram basicamente formulados em caráter de sensibilização, de adesão voluntária e sem a necessidade de comprovação do que a empresa estivesse realmente fazendo e alcançando. O importante para as empresas naquele momento, sobretudo nos EUA e Europa, era ajustar a narrativa e buscar sintonia com as críticas barulhentas da sociedade.

FASE 3 – CRISE (2014 – 2018). Foi quando, justamente em algumas grandes empresas “premiadas” e tidas como referência no campo da sustentabilidade, começaram a surgir casos graves de escândalos de corrupção dos seus dirigentes, de desastres ambientais com consequências humanas e sociais terríveis, de desrespeito aos colaboradores e clientes, de desmatamento em suas cadeias produtivas, etc…

De imediato, esses casos tiveram forte repercussão negativa para a reputação e lucratividade dessas empresas. Por outro lado, evidenciaram que existia um distanciamento significativo entre o discurso e a prática nesse campo, que as medidas adotadas eram de natureza cosmética, e que a busca do lucro máximo seguia prevalecendo.

FASE 4 – RETOMADA COM EUFORIA (2018 – 2022). A crise de confiança nas grandes empresas na fase anterior deixou claro que não ser (verdadeiramente) ESG é que penalizava a lucratividade das empresas. Tanto que a Carta de Larry Fink no início de 2018, dirigida aos CEOs das empresas investidas pela BlackRock (maior fundo de investimentos do mundo), representou um marco do novo mindset de apoio dos investidores a empresas com práticas ESG, pois essas práticas passaram, então, a ser percebidas como estratégicas para os negócios.

Sobretudo impulsionado pelos Estados Unidos e países da Europa, ESG tornou-se o “mantra” do mercado financeiro. Foi quando os critérios ESG assumiram papel relevante na condição de filtros para direcionar as aplicações no mercado financeiro – seja por meio de private equity, ações em bolsa, fundos de ações, fundos indexados a índices. Ou também como filtro para exclusão de empresas em “lista negra”, pois elas pertenciam a setores não considerados de propósito nobre, casos do setores de combustíveis fósseis, bebidas alcoólicas e fumo.

FASE 5 – CHOQUE DE REALIDADE (2023-2026). As exigências e os custos ESG cresceram exponencialmente sobre as empresas a ponto de já estarem prejudicando o desempenho financeiro delas. E, o pior, sem também que houvesse clareza e padronização quanto ao modo de medir desempenho ESG.  Um marco desse momento foi outra Carta de Larry Fink do início de 2023, dessa vez dirigida aos investidores da BlackRock (e não mais aos CEOs), já agora com o intuito de frear a debandada dos seus investidores frente à queda de rentabilidade das empresas ESG.

Diferente das fases anteriores, estamos agora nos deparando com desafios concretos e de caráter estruturantes para o campo ESG, advindos do novo ciclo tecnológico que está sendo deflagrado pela: (i) expansão acelerada do uso de Inteligência Artificial (IA) com impactos significativos na reconfiguração do mercado de trabalho e na elevação do consumo de energia; e (ii) crise climática, que impõe urgência de um novo modelo de interação com a Natureza, mais regenerativo e menos extrativista.  Sem falar nos desafios conjunturais advindos das guerras recentes entre Rússia e Ucrânia, e entre EUA / Israel e o Oriente Médio, que só fazem subir o preço do petróleo e, com isso, encarecendo as medidas para a transição energética.

Um outro marco dessa 5ª fase foi a saída do governo dos EUA do seu papel de líder global das práticas ESG, a partir do início de 2025 com o 2º mandato do presidente Donald Trump. A saída foi motivada por razões de governo (protecionistas, e/ou nacionalistas, e/ou de déficit público, e/ou de ideologia), mas evidenciou o papel central dos governos para a condução das políticas ESG. Essa mudança de lado dos EUA não foi seguida por seus (até então) governos parceiros da Europa.

CONCLUINDO, nem 8 nem 80. Nem capitalismo exclusivo de shareholders, nem “woke capitalism”, que é quando as empresas privadas passam a ser cobradas na promoção do bem-estar social e climático, assumindo também a função do Estado.

Como vimos, as práticas ESG têm enfrentado, sim, desafios e reveses frente às muitas críticas que foram surgindo ao longo do percurso, e às fortes mudanças tecnológicas, produtivas, climáticas e políticas havidas também nesse ínterim. Porém, é importante entender que essa dinâmica de idas e vindas é natural de toda evolução, e faz parte dos processos de adaptação e de busca da maturidade sustentável – seja de empresas, pessoas e governos. Ainda que o ESG venha a assumir nova denominação….

NOTA

Dentre os meus artigos que estão no LinKedin e que abordam a evolução do ESG, selecionei alguns deles, caso o leitor queira se aprofundar no tema. Esses artigos estão também nos meus livros: Ecossistema das iniciativas sociais no Brasil (2021) e Rumo à Eficácia do Setor Social Privado no Brasil (2024).

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.