Mackenzie Scott: um novo modo de fazer filantropia

Por on 26/01/2021

Já ouviu falar de Mackenzie Scott?

Em 2019, um mês depois do seu divórcio com o bilionário Jeff Bezos, ela aderiu ao The Giving Pledge, e de imediato já fez a doação de US$ 1,7 bilhão a 116 Organizações Sem Fins Lucrativos (OSFLs) dos EUA.  Em 2020, em plena pandemia da Covid-19, doou mais US$ 4,2 bilhões para outras 384 organizações, também dos EUA.  

Mackenzie Scott se define  como “mãe, escritora e advogada”. Ela foi casada, entre 1993 e 2019, com Jeff Bezos, fundador (1994) e CEO da Amazon. Por ocasião do divórcio deles (abril 2019), quando a Amazon estava estimada em US$ 145 bilhões, Bezos ficou com 75% (US$ 110 bilhões) e Scott com 25% (US$ 35 bilhões); ainda assim, ela se tornou a 3ª mulher mais rica do mundo, e ele ainda continuou com o  título de o homem mais rico do mundo. 

O que caracteriza a abordagem de Mackenzie Scott de fazer filantropia? É uma abordagem válida, sob a ótica de produzir o maior bem possível? 

 

Por que Mackenzie Scott decidiu fazer filantropia?

Mackenzie Scott tem um sentimento muito forte de gratidão e de querer retribuir o muito que a vida lhe deu. Já que vivemos em uma realidade tão desigual e injusta, ela se vê com o dever e, mais do que isto, a obrigação de contribuir para melhorar o mundo. Assim, ela pretende “devolver” a maior parte de sua riqueza aos desfavorecidos do seu país – os EUA. Nutre a esperança de que também cada pessoa consiga descobrir o seu jeito  de melhor poder contribuir.  Diz ela,

Em 2019 , eu jurei (Giving Pledge) devolver a maior parte da minha riqueza à sociedade, que ajudou a gerá-la. Vou fazer isso de forma organizada e sistematizada, começar logo e seguir em frente até que o cofre se esvazie. Não tenho dúvidas de que a riqueza pessoal de qualquer pessoa é o produto de um esforço coletivo e de estruturas sociais, que apresentam oportunidades para algumas pessoas e obstáculos para inúmeras outras….

Como muitos, eu assisti ao primeiro semestre de 2020 (início da pandemia da Covid) com uma mistura de tristeza e horror. A vida nunca vai parar de encontrar novas maneiras para expor as inequidades dos nossos sistemas; ou de nos despertar para o fato de que uma civilização tão desequilibrada não é apenas injusta, mas também instável. O que me enche de esperança é o pensamento do que acontecerá se cada um de nós refletir sobre o que cada um pode oferecer……

Até hoje a vida me deu dois ativos que podem ser de grande valor para os outros: o dinheiro que esses “sistemas” ajudaram a me entregar, e a convicção de que as pessoas com experiência e vivenciando as desigualdades são as mais bem preparadas para desenhar as soluções.

(Por Mackenzie Scott em Medium, 28.jul.2020. As 116 organizações que estão mudando)

Com a inesperada pandemia da Covid em 2020 e a consequente necessidade do isolamento social, as vendas do comércio eletrônico dispararam no mundo todo, jogando para as alturas o valor monetário de sua participação na Amazon. Que bateu em US$ 60,7 bilhões ao final de 2020, mesmo depois de já haver doado o montante de US$ 6 bilhões para as 500 OSFLs. Isso só fez reforçar em Scott o senso de injustiça na distribuição da riqueza e de urgência para ajudar. Para ela,

Essa pandemia tem sido como uma “bola de demolição” na vida dos americanos que já lutam. As perdas econômicas e os resultados de saúde foram piores para as mulheres, para as pessoas de cor e para as pessoas que vivem na pobreza. Enquanto isso, aumentou substancialmente a riqueza dos bilionários. (Por Mackenzie Scott em Medium, 15.12.2020, 384 maneiras de ajudar)

Pode-se até questionar o porquê de só agora Mackenzie Scott decidir partir para esse modelo de filantropia acelerado, generoso e empático. Do que constatei, essa abordagem dela é “profundamente diferente da que ela e Bezos haviam adotado como casal. A atuação de Jeff Bezos na filantropia sempre foi tida como bastante  limitada. Embora fosse o homem mais rico do mundo, ele não assinou até hoje o Giving Pledge (2010),  como fizeram os outros bilionários americanos como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Warren Buffett e Mike Bloomberg”.

Como é a abordagem que Mackenzie Scott vem adotando para fazer filantropia?

A meu ver, o jeito Mackenzie Scott de fazer filantropia poderia ser sintetizado na seguinte frase dela própria:  “como a seleção que fazemos (das organizações a serem beneficiadas) é rigorosa e baseada em dados, o nosso processo de doação pode ser bastante humano e suave”.

A abordagem de filantropia seguida por Mackenzie Scott pode ser descrita em quatro passos básicos, que são:

  1. Seleção das organizações filantrópicas “com alto potencial de impacto” para receberem as doações. É Mackenzie Scott, na condição de filantropa, que vai até a organização, e não a organização que vem até a ela.   Os critérios que ela definiu para essa seleção foram:
  • A organização deve estar situada nos EUA, buscando contemplar os 50 estados, a capital Washington e Puerto Rico;
  • A organização deve ser de base comunitária local, constituída por lideranças dos próprios grupos que ela representa. Segundo Scott, tem crescido a desigualdade entre as próprias organizações que compõem o Terceiro Setor, o que tem feito encolher significativamente o espaço destinado aos atores comunitários de base, que são os representantes legítimos das iniquidades sociais.  
  • A organização deve ter baixo acesso ao capital filantrópico. Ainda em linha com a argumentação anterior, a crescente desigualdade no campo do Terceiro Setor vem contribuindo para que as organizações bem estruturadas, com fontes seguras de financiamento e trabalhando em temas charmosos (como mudanças climáticas, tecnologia, etc…) se fortaleçam ainda mais em detrimento de organizações pequenas, muitas vezes realizando um bom trabalho apesar da dificuldade enorme de acesso a recursos. 
  •  A organização deve atuar em temas que busquem mitigar as iniquidades sociais, provocadas sobretudo por questões relacionadas a insegurança alimentar, pobreza, raça, gênero e diversidade.
  • A organização deve ter “uma equipe de lideranças fortes e com resultados”. Como Scott mesmo explica, “devem ser líderes e organizações com um histórico de gestão eficaz e impacto significativo nos seus campos de atuação”.

2. Como o processo de seleção das organizações é conduzido?  Mackenzie Scott contrata uma equipe de conselheiros do terceiro setor para assessorá-la, e adota uma abordagem rápida e “pesquisa rigorosa baseada em dados”.  Essa equipe ouve as sugestões e perspectivas de especialistas, financiadores, líderes e voluntários, todos com décadas de experiência. Por meio de uma série de e-mails, telefonemas, entrevistas e muitas análises sobre as necessidades das comunidades e os resultados dos programas, é sistematizada de forma colaborativa  uma “base de conhecimento coletiva” sobre cada organização e a sua capacidade em absorver e fazer uso eficaz do financiamento.

Exemplificando, para a seleção do 2o grupo das “384 organizações para ajudar”, em 4 meses apenas ( no 2o semestre 2020) foram levantadas informações  para 6.490 organizações, depois realizadas pesquisas mais aprofundadas para 822 delas – dessas, 384 foram selecionadas, e as demais 438 organizações foram colocadas “em espera” por ainda haver evidências insuficientes quanto ao seu impacto e gestão.

  1. Entrega das doações – As doações são recebidas pelas organizações como presentes caídos do céu, como bem ilustrou o diretor de uma das organizações beneficiadas, que afirmou que “não havia se candidatado para os recursos e nem conhecia Mackenzie Scott”. 

Os recursos são entregues de uma única vez e a organização tem total liberdade para aplicar o dinheiro da maneira que melhor atender às suas necessidades e prioridades.  Como explica Mackenzie Scott, a gente seleciona as organizações para ajudar – e depois sai do caminho delas.

  1. Divulgação.  A divulgação das doações só é feita depois que todos os recursos foram desembolsados. E por uma razão principal, que é a de poder divulgar quais são as organizações receptoras das doações (em geral  pequenas, pouco conhecidas, e efetivas), cujo trabalho  poderá ser potencializado se elas conseguirem atrair novos doadores. Diz Mackenzie Scott,

Estou postando essa atualização (no Médium), porque os acontecimentos recentes me fizeram refletir sobre os meus dividendos de privilégio que eu estava negligenciando: a atenção que posso chamar para organizações e líderes capazes de impulsionar a mudança.  

Em que a abordagem de Mackenzie Scott é diferente?

Tendo em vista os quatro passos acima que resumem o modelo de filantropia de Mackenzie Scott, posso dizer que eles são bem diferentes da lógica atualmente predominante de fazer filantropia (ou investimento social privado), que adota outros passos, a saber:

  • São as OSFLs, executoras do trabalho social, que vão até aos filantropos ou financiadores para captar recursos, participando de editais e outros processos seletivos.  Em geral, tende a ser uma etapa demorada.
  • Para cada financiador, a OSFL executora deve elaborar um plano para a aplicação do montante dos recursos aos quais ela está se candidatando a receber. Cada financiador tem as suas próprias condições e prazos que precisam ser atendidos, não apenas antes, como também durante e depois da utilização dos recursos. Normalmente são processos carregados de exigências burocráticas.
  •  Os recursos são liberados por etapas, seguindo cronograma inicialmente acordado entre as partes. Cabe à organização receptora prestar contas aos filantropos / financiadores para obter a aprovação relativa à entrega dos produtos acordados para cada etapa, e só assim fazer jus aos recursos dessa etapa. Em sentido figurado, é como se os financiadores se tornassem os “fiscais” do trabalho das organizações executoras, que acabam perdendo parte de sua autonomia.
  • A divulgação da doação pelos financiadores / filantropos é feita amplamente –  antes, durante e depois do recebimento das parcelas. A intenção principal aqui  é promover a imagem e reputação dos doadores, que passam a ser tidos como bons cidadãos, e comprometidos com os critérios ESG (do inglês, Environmental, Social and Governance) no caso de serem empresas.    

Enfim, é uma abordagem de filantropia válida?

Como visto, a abordagem para filantropia de Mackenzie Scott é diferente da abordagem atualmente vigente. É muito mais dinâmica, destravada e flexível: baseada em determinados critérios, Scott faz a seleção das organizações filantrópicas ( a serem beneficiadas) e entrega o dinheiro a elas de uma única vez, com total liberdade de aplicação.

Coloco a seguir três pontos para reflexão.

Primeiro: essa celeridade na doação poderia estar prejudicando a efetividade, ou seja, o retorno social dos muitos milhões de dólares que estão sendo (e ainda serão) doados por Mackenzie Scott?

Em grande medida, a questão da efetividade  dos recursos vai depender do grau de acerto do processo de seleção das organizações executoras. E aqui vejo dois desafios primordiais:

(i) Dispor de um cadastro contendo informações completas e atualizadas das  organizações de um país / território, de modo a agilizar o processo de análise das OSFLs. No Brasil, penso que o Mapa das OSCs, coordenado pelo IPEA, poderia servir como um pontapé inicial; evidentemente, antes precisando que as próprias organizações “invistam” nele

(ii) Definir a metodologia a ser adotada para a seleção das organizações a serem beneficiadas. Ou seja,  quais as informações relevantes necessárias a serem levantadas para a identificação (com pequena margem de erro) das organizações com boa relação custo-efetividade do investimento social.  Penso que seria interessante conhecer aqui os critérios que a equipe de advisors de Mackenzie Scott vem adotando para essa seleção.

Segundo: qual é o significado da avaliação nesse modelo de Mackenzie Scott? Se para conseguir os recursos, o monitoramento e a avaliação dos resultados deixariam de ser pré-condição, então a avaliação perderia relevância nessa abordagem?

A esse respeito, é preciso ter clareza de que a avaliação deve ser percebida, antes de mais nada, como uma ferramenta de gestão para a própria organização. Daí, seria uma visão por demais limitada  pretender atribuir preponderância à avaliação em seu papel de instrumento de controle para o financiador. Ademais, e como dito acima, no âmbito da metodologia de Mackenzie Scott um dos critérios para a seleção das organizações é o “histórico de resultados dessas organizações” junto aos públicos atendidos. Se daqui para frente, esse histórico positivo não puder mais ser identificado, a organização deixaria de ser contemplada segundo essa abordagem de filantropia.

Terceiro: quais os prós e contras se os ricos e bilionários do mundo todo aderirem a esse padrão Mackenzie Scott de fazer filantropia?

O modo Mackenzie Scott de fazer filantropia tem duas características principais: a generosidade e o sentimento de dever dos ricos em doarem parte de suas riquezas para amenizar sofrimentos e gerar oportunidades;  o processo de doação deve ser criterioso, célere e sem exigências, baseado em confiança (na organização receptora).

A grande desvantagem mencionada, e em linha com o que também analisei em outro artigo, é o poder que os grandes filantropos (bilionários) podem ir adquirindo em seus países vis-à-vis aos governos, dado o grande volume de recursos que eles investem / doam  para esse ou aquele tema sensível, de acordo com os seus desejos pessoais ou interesses de suas empresas. O argumento é o de que os governos têm legitimidade para tomarem esses tipos de decisões (onde priorizar os investimentos sociais / ambientais?) já que foram eleitos democraticamente, ao passo que os filantropos, não. 

A meu ver, na realidade esse é um risco que independe do modelo de filantropia em si. Tem mais a ver com o conflito que poder existir  entre o poder da filantropia em si e o poder dos governos. Mas, nós aqui no Brasil ainda estamos muito longe de termos que enfrentar esse dilema. Nesse momento, o nosso desafio presente é o de como estimular a cultura da doação.

Por outro lado, a grande vantagem é a simplicidade de operacionalização desse modelo de filantropia – desde que, é claro, se tenha um cadastro confiável com as informações relevantes das Organizações Sem Fins Lucrativos (OSFLs), para que o doador possa fazer a sua seleção criteriosa de organizações. Compare-se, por exemplo, com a estratégia bem mais complexa de fazer filantropia via fundo patrimonial.

Em sendo uma abordagem simples, poder-se-ia pensar diferentes maneiras de adaptar essa lógica de doação Mackenzie Scott para estimular a cultura da filantropia no Brasil. Considero que o apadrinhamento mensal de OSFLs poderia ser um desses modos de adaptação, unindo, por um lado organizações “necessitadas de capital filantrópico” e, por outro lado,  doadores comprometidos que tenham “sobras de dinheiro” ( não tanto quanto Scott) e decididos a ajudar.

Concluindo, considero que o modo Mackenzie Scott de fazer filantropia poderia  servir como uma luz a estimular novas maneiras para se fazer filantropia no Brasil:  menos travada e desconfiada, mais ágil e efetiva. 

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.

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