Para que precisamos medir tanto?

By on 06/04/2019

Meu filho esteve em Nova York e trouxe para mim, com todo amor, um  presente-surpresa: um “fitbit”. Para quem, como eu, não sabia o que era…. O fitbit vai muito além de um relógio, pois mede  (o tempo todo) o que você faz de dia e de noite, e ainda gera tabelas e gráficos, que permitem a você se auto-monitorar a cada instante.

Que maravilha da tecnologia, não é mesmo? Assim, de dia, eu vou poder medir quantos passos eu dou;  quantos quilômetros ando; obter as estatísticas das corridas matinais que dou; saber qual é a minha pulsação cardíaca (batimentos por minuto) – média, em repouso e quando faço  atividades físicas; medir quantas calorias estou despendendo  ao longo do dia; e também o percentual do tempo em que fico na minha “faixa cardiovascular alvo”, e muitas outras informações sobre mim mesma que eu nem sequer imaginava que existissem….. E, de noite, ainda vou poder medir como foi a qualidade do meu sono.

Mas a pergunta que não quer calar: será que eu preciso mesmo de tanta medição? Antes eu não media nada disso; ou melhor, só media quando precisava por alguma razão. O que vou fazer, daqui para frente, com tantas informações geradas a meu respeito? Todos esses dados vão ser úteis para monitorar a minha saúde?

A questão central é: Medir para que? Ou monitorar com qual finalidade? O que vou fazer, a partir dessas informações?

A esse respeito,  o post de Cassie Kozyrkov (2018) tem o sugestivo título ‘ Não desperdice o seu tempo com estatísticas`. Ela faz essa recomendação com a autoridade de quem é a engenheira-chefe de Inteligência de Decisão na Google, com acesso amplo ao mundo das informações. Cassie não é contra o uso de estatística, longe disso. Para ela, a estatística é uma ferramenta muito útil desde que em determinada circunstância:  quando se tem que tomar uma decisão [continuar como está (H0)  ou mudar (H1) ] em ambiente de incerteza. Porém, quando não há hipóteses definidas a priori, a análise dos dados disponíveis (via planilha) pode fornecer boas estimativas, sem a necessidade de métodos complexos e “mágicos”.

O que ocorre é que, com o avanço da tecnologia, estamos sendo bombardeados por um volume enorme de informações. Há um certo glamour e valorização o fato de ter acesso aos dados. Quanto mais dados uma pessoa ou organização tiver, supõe-se que ela esteja melhor equipada para a tomada de decisões.

Ledo engano. Estamos nos afundando nos dados, e perdendo a capacidade crítica para analisa-los. Pois há também um encantamento com o  desenvolvimento dos métodos em si, e não propriamente o seu poder de resolver problemas. Cassie Kozyrkov, da Google, começou o seu post dizendo que “um amigo querido dela tirou o PHD em estatística sem nunca ter-se perguntado para que serve a estatística”.

Faço aqui um paralelo com a questão do monitoramento e avaliação nos projetos sociais. Há muito venho chamando a atenção sobre o excesso de informações coletadas e a complexidade (muitas vezes) dos modelos estatísticos adotados para subsidiar a condução dos projetos nas organizações do terceiro setor. Será que são mesmo necessários tantos dados? Ou será que não seria mais útil (para a organização) poder contar com uma base de dados pequena, porém cuidadosa e confiável, capaz de propiciar  uma  análise simples, objetiva e acessível aos seus gestores, e também capaz de responder prontamente às perguntas do projeto?

Nas organizações sociais, o excesso de dados desvirtua o foco do trabalho e encarece os custos.  Com o fitbit, o excesso de dados passa a nos ocupar com detalhes pouco relevantes. O acesso às informações é de extrema importância, porém há um ponto ótimo. E, para  encontrar esse ponto,  duas perguntas devem ser feitas: para que preciso da informação (ou: o que vou fazer, a partir dela)? quando preciso da informação?

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2 Comments
  1. Responder

    Maria Cristina

    23/04/2019

    Cecília, adorei o texto!! Vc tem toda razão, temos que nos preocupar com o que realmente nos afeta e não em analisar dados só por analisar, sem nenhum benefício para ninguém!! Parabéns!! Bjos

  2. Responder

    Maria Inês

    23/05/2019

    Seu artigo nos convida à reflexão, Dra. Maria Cecília, sobretudo num momento em que estamos mergulhados em tanta informação! De fato, em tudo temos que achar o equilíbrio, o ponto ótimo. Como diria Aristóteles, a virtude está no meio. Parabéns!

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.