Giving Pledge: um sonho de filantropia que acabou?

Por on 27/03/2026

O  “Giving Pledge” é uma iniciativa criada em 2010 pelos bilionários Warren Buffet e o (então) casal Bill e Melinda Gates. Seu objetivo é incentivar bilionários a doarem pelo menos metade de suas fortunas para causas sociais ao longo de suas vidas ou após a morte.  No início teve repercussão bastante positiva, conseguiu atrair muitos adeptos ultra-ricos, e foi tido como um importante estímulo à filantropia em âmbito global. Passados 16 anos, o Giving Pledge tornou-se objeto de fortes críticas, embora conte ainda com defensores de peso.

O que deu “errado” na Iniciativa? O que deu certo? E indo além do Giving Pledge, será que a filantropia é um sonho “de mudar o mundo” que está ruindo?

Matéria recente no New York Times (de 15.03.2026) traz um bom resumo acerca da evolução e da atual polêmica sobre o Giving Pledge nos Estados Unidos. A seguir, sintetizo os principais aspectos pró e contra o Giving Pledge (em português:  Compromisso da Doação) que foram apontados na matéria. 

Giving Pledge – Qual o seu propósito? O que tem e não tem funcionado?

  • Propósito de difundir a “cultura humanitária”, do “grande capitalismo” convivendo com a “grande filantropia”
  • Objetivo de construir uma cultura em que doar seja a norma. O papel do Giving Pledge é fornecer apoio para transformar compromisso em ação (Taryn Jensen, atual líder do Giving Pledge)
  • Compromisso moral assumido pelo doador / família doadora. Não há obrigação legal
  • Voltado para apoiar causas sociais e organizações sem fins lucrativos
  • Filantropia é vista como apartidária. É uma forma dos muito ricos “retribuírem” à sociedade em geral, e sobretudo às pessoas vivendo em pobreza e vulnerabilidade, independente de partido político
  • Liberdade de doação. Doa-se quanto quer (em termos do percentual da fortuna); quando quer (durante a vida, após a morte, ou ambos); e como quer (a escolha da causa social; se para a própria fundação do doador ou não; se diretamente para organizações executoras ou organizações intermediárias; se dentro ou fora do país do doador)
  • Não há monitoramento das doações (como os recursos estão sendo aplicados e os resultados gerados)
  • Reunião apenas 1 vez por ano da comunidade doadora do Giving Pledge, sem a obrigação de participação
  • Movimento associado às figuras dos seus idealizadores, Warren Buffet e o casal  Gates. Na ocasião do seu lançamento foi bastante valorizado pelo então presidente democrata dos EUA, Barack Obama.
  • Hoje a capacidade do Giving Pledge para atrair novos apoiadores ficou reduzida.  Buffet está muito idoso (95 anos) e Bill Gates vem atravessando forte crise de reputação por conta do escândalo Jeffrey Epstein, que engendrou também o seu divórcio de Melinda Gates. Sem falar nos signatários do Compromisso que estão  voltando atrás, e o “desassinando”.

Giving Pledge – Quais os ataques e críticas vem sofrendo?

Vem sendo criticado tanto pelos críticos de direita como de esquerda.

  • Os críticos de direita – Os negócios representam em si a filantropia dos muito ricos. O sucesso empresarial é a maneira dos bilionários “retribuírem”, na medida em que as suas atividades dinamizam a economia (Elon Musk, ex signatário do Giving Pledge)
  • Sob a ótica de promover o bem público, é mais efetivo canalizar os recursos dos bilionários para iniciativas com fins lucrativos do que para organizações sem fins lucrativos. Como foram os casos de Larry Ellison, que decidiu apoiar o programa de Universidade de Oxford ao invés de seguir signatário do Giving Pledge; ou  de Peter Thiel, que decidiu destinar os recursos de sua Fundação para alunos que abandonam a faculdade para criar as suas startups.
  • A filantropia deve ser, sim, partidária. Deve apoiar partidos e governos que atuam em prol de um ambiente favorável aos negócios. Como, por exemplo, apoiar as iniciativas do governo do presidente Donald Trump, do Partido Republicano. Assim, ser coerente com a política do “America First”. Ou reforçar /complementar os programas sociais públicos de governo (caso de Michael e  Susan Dell que doaram para crianças de baixa renda, no âmbito do programa das “contas Trump”).  
  • Crítica à filantropia do Giving Pledge, muitas vezes associada á ideologia “woke” que, com o seu radicalismo, acaba prejudicando o ambiente dos negócios, e fazendo com que as pessoas tenham aversão aos ricos e ao setor de tecnologia
  • Os críticos de esquerda – A filantropia (do Giving Pledge) como maneira de subtrair os tributos devidos ao governo para executar as políticas públicas; de sonegar impostos; e de aumentar o poder político e econômico dos filantropos.
  • As doações não chegam na ponta, ficando represadas em instituições intermediárias por bastante tempo.
  • As doações não passam de relações públicas para os negócios dos bilionários. Mera “encenação beneficente” deles.
  • Filantropia como maneira de lavar os pecados dos “magnatas dos negócios”, que passam a ser percebidos como pessoas virtuosas (Marc Andreessen)

ENFIM, essa desaceleração recente no movimento do Giving Pledge poderia estar sinalizando para o fim de um sonho de filantropia capaz de contribuir para o mundo melhor?

Acredito que não. E aqui me baseio na visão otimista de Melinda Gates de que o Giving Pledge está enfrentando um problema de percurso e é preciso trabalhar nele, isto é, atuar nas várias frentes que se fazem necessárias. Na preocupação muito válida de Amodei, da Anthropic, de que não basta disponibilizar recursos para a filantropia, é preciso atentar para a eficácia de sua aplicação. E ainda na postura decidida  de Mackenzie  Scott, de que cabe ao filantropo realmente comprometido buscar as maneiras para doar com eficácia.  (Mackenzie Scott – um novo modo de fazer filantropia; Modo Mackenzie Scott de fazer filantropia: quais os seus 5 elementos norteadores?

No ANEXO abaixo, e buscando melhor entender e contextualizar essa discussão relacionada ao Giving Pledge, disponibilizo a tradução que fiz da referida matéria do NYT, não ipsis litteris mas de modo livre e explicativo.

ANEXO – A Reação dos Bilionários Contra um Sonho Filantrópico (New York Times, 15.03.2026) Tradução própria (livre e com explicações)

 

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.