Bancos ESG podem investir no setor petroleiro?

Por on 09/04/2021

Nesse início de abril (2021), os bancos XP, BTG Pactual, Itaú BBA e Credit Suisse foram alvo de pesadas críticas no Brasil. Isso por serem declaradamente fortes defensores da agenda ESG (Environmental, Social and Governance) no país e, no entanto, terem atuado na coordenação do processo de lançamento das ações da petroleira 3R. Poucos meses antes, em janeiro, esses mesmos bancos já haviam também participado de operação semelhante de capitalização da PetroRio. Em ambos os casos, as petroleiras visavam captar recursos no mercado para a revitalização de campos maduros de petróleo.

Pergunto: há incoerência nessa atuação dos bancos com os princípios ESG?

Para alguns, há incoerência

Para alguns gestores de fundos no Brasil, há incompatibilidade: não se pode ser ESG e, ao mesmo tempo, apoiar qualquer empresa de setor controverso. Por exemplo, Marcio Correa, sócio da gestora JGP, considera que quando bancos, corretoras ou gestoras colocam ESG em sua agenda, têm que considerar as consequências desse compromisso. Não dá para apoiar a agenda climática de redução de CO2 no âmbito do Acordo de Paris (2015) e querer continuar financiando projetos na área do petróleo, um setor reconhecidamente tido como “sujo”.  (capital reset, 06.04.2021).

Fora do Brasil, esse tipo de crítica também é usual. Veja o caso do JP Morgan Chase, considerado o maior banco credor da indústria petroleira no mundo, tendo entre seus clientes as maiores petroleiras como a Exxon, Chevron, Shell, Saudi Aramco e Petrobras. Em outubro do ano passado (2020), o  banco se comprometeu a alinhar sua carteira de financiamento aos parâmetros do Acordo de Paris. Entretanto, vem sendo fortemente criticado por diversas organizações ambientalistas, como a Rainforest Action Network e o Sierra Club,  por continuar fazendo o seu “business as usual” , investindo em grandes petroleiras, e apenas usar um discurso tipo “folha de figueira” (fig-leaf) para manter a aparência de boa empresa e esconder essa situação constrangedora (Sierra Club, 07.04.2021)

Para outros, NÃO há incoerência

A meu ver, não há incoerência entre o compromisso com os princípios ESG e o financiamento a determinadas empresas do setor de combustíveis fósseis. Sendo mais precisa:  vai depender da forma, ou das condicionalidades sobre como esses financiamentos são concedidos e seguidos. Aliás, esse é o papel relevante que o setor financeiro pode ter para a promoção do desenvolvimento sustentável: na medida em que detém o capital, passa a ter o poder de direcionar a forma como os recursos devem ser alocados.

Tenho argumentado que a transição para o desenvolvimento sustentável não se faz de uma hora para outra. No artigo Critérios ESG – mais um modismo? (maio 2020),  fiz um alerta de que é preciso ter cautela e parcimônia na forma de aplicação da régua dos critérios ESG, tendo em vista o seu poder (agora) de influenciar de fato o desempenho das empresas (para o bem ou para o mal), diferente dos movimentos corporativos anteriores  – Responsabilidade Social Corporativa, Sustentabilidade, Tripple Bottom Line, Shared Value, e por aí vai.

 Em outro artigo Quando os critérios ESG podem prejudicar (set. 2020), chamei a atenção para o uso de “filtros de exclusão” que certos segmentos do setor financeiro estavam adotando em nome dos critérios ESG, para penalizar empresas de setores controversos (combustíveis fósseis, fumo, armas e bebidas alcóolicas). Um procedimento simplista que padece de 3 graves erros: é míope (com uma visão limitada), demagógica (desfile de virtudes) e irresponsável quanto aos seus impactos econômicos e sociais desestruturadores. 

É, portanto, dentro dessa abordagem da transição necessária e cautelosa para uma economia de baixo carbono que entendo a estratégia adotada pelo JP Morgan Chase de seguir financiando os seus clientes antigos, em grande parte constituídos por empresas dos setores de petróleo e gás, energia elétrica e fabricação automotiva.  Nada de rupturas bruscas,  sob pena de causar um mal maior à sociedade.

Em sua Carta Anual aos Acionistas (de 07.04.2021) e para fazer frente às críticas que tem recebido, Jamie Dimon, CEO do JP Morgan Chase e também um dos diretores da Business Roundtable, foi firme em afirmar que “abandonar as empresas que produzem e consomem combustíveis fósseis não é a solução. ….. ao invés disso, vamos é trabalhar com elas.” Nesse sentido, a intenção do Banco é alinhar as suas operações de crédito à definição de metas de redução das emissões de carbono.  

Para Dimon, e eu concordo plenamente com ele, a realidade exige gradualismo. Ele explica que, “embora as tecnologias eólica e solar tenham feito grandes avanços, são usadas principalmente para geração da eletricidade. Não há ainda alternativas limpas para as demandas de energia da indústria e das manufaturas. Nem temos ainda soluções para transporte pesado, como caminhões e viagens aéreas. Além do mais, o crescimento projetado de tecnologias como veículos elétricos vai colocar uma enorme pressão sobre a necessidade de minerais raros (para as baterias), pressionando também o meio ambiente”. (capital reset, 07.04.2021)

Considerações finais

Voltando à pergunta inicial, considero que os bancos XP, BTG Pactual, Itaú BBA e Credit Suisse podem, sim, ter sido coerentes com os princípios ESG ao coordenarem o lançamento na bolsa das ações da 3R e da PetroRio.  

Primeiro, porque é mais do que sabido que o Brasil é fortemente dependente de petróleo e gás – e para tudo: alimentação, transporte, saúde, consumo em geral, iluminação. Então, seria uma irresponsabilidade dos bancos no Brasil cortarem abruptamente o financiamento para as petroleiras. As fontes limpas de energia (hidráulica, solar e eólica) de que dispomos não conseguem ainda suprir as demandas do país. Ou seja, pura demagogia pretender banir o financiamento para toda e qualquer empresa no Brasil que produza e/ou consuma combustíveis fósseis.

Segundo, porque os recursos levantados para as novatas 3R e PetroRio não foram para ampliar a área de exploração de petróleo no país, mas sim para recuperar ao máximo o petróleo de campos antigos. O ponto é que ambas as companhias  têm um modelo de negócio que é voltado para maximizar campos de petróleo existentes, ao invés de abrirem novas fronteiras de exploração. Com isso, acabam tendo muito menos impacto no meio ambiente, e trazendo uma produção a mais curto prazo.

Terceiro, no que tange especificamente ao compromisso de redução das emissões de gases de efeito estufa (ou CO2 equivalente) em consonância com o Acordo de Paris, e na linha da estratégia adotada pelo JP Morgan, o que deveria ser cobrado dos quatro bancos é que eles tenham acertado com as duas petroleiras, entre outras condicionalidades, a medição e a definição de metas de emissão de CO2.  Pois acertos desse tipo representam uma maneira para garantir que a transição rumo à economia de baixo carbono seja firme, persistente, não retroceda e nem perca o foco.  

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.

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