Quando os critérios ESG começam a prejudicar

Por on 09/09/2020

Os critérios ESG (do inglês Environmental, Social and Governance) estão voltados para o desempenho virtuoso das empresas. São critérios muito benvindos. Se bem aplicados, podem contribuir para um padrão de governança transparente e ético,  um desempenho econômico lucrativo, uma relação respeitosa com os públicos envolvidos e cuidadosa com a natureza. Creio, porém, que se os critérios ESG não forem aplicados de forma adequada, podem prejudicar a própria organização e a sociedade como um todo.

ESG – Agora, com legitimidade

Como já comentei (Critérios ESG – mais um modismo), os critérios ESG não são uma tendência nova. Ao contrário, desde 1990, começamos a ter uma sequência de movimentos corporativos com a finalidade inicial de apaziguar as críticas que as empresas vinham sofrendo, por  terem o foco apenas nos interesses dos acionistas (lucro). Assim, tivemos as ‘ondas` do movimento da RSC (Responsabilidade Social Corporativa), da Sustentabilidade, do Valor Compartilhado, da Empresa com Impacto, e por aí vai…..

Á medida em que cada movimento desses ia se tornando desacreditado perante a opinião pública, ele ia sendo substituído pelo seguinte, com uma nova roupagem teórica. E sempre com novos rituais de eventos, terminologias, padrões de certificações, índices e premiações. Na prática, porém, nada de relevante mudava no modo de operar das empresas. Tanto que hoje em dia esses termos seguem sendo usados indistintamente.

De 2018 para cá, chegou a vez do movimento ESG, que nos surpreendeu por sua expansão rápida e capacidade impressionante em atrair apoiadores. O ponto é que, dessa vez, é grande a chance de ESG não ser apenas mais uma ´onda`, como foram as anteriores. E por que será?

 De diferente é que agora o movimento ESG nasce a partir dos próprios investidores  (shareholders) das empresas, e não como um movimento em oposição a eles. Então, já surge com legitimidade e força. Isso porque os investidores se deram conta de que a obstinação por economizar custos no seu relacionamento com os  outros stakeholders (para além dos donos) se tornara um sério fator de ameaça à lucratividade, chegando a colocar em risco a sobrevivência do negócio. Em linguagem figurada, ‘o barato começava a sair muito caro`. 

Na realidade, para medir / tangibilizar os tão valorizados critérios ESG, continua  prevalecendo a mesma lógica que vinha sendo utilizada para avaliar o desempenho em Responsabilidade Social Corporativa e/ou Sustentabilidade desde 2000.  Ou seja, em nível internacional baseada nos conhecidos standards do GRI (Global Reporting Initiative), do DJSI (Dow Jones Sustainability Index) e, a partir de 2010, da Norma ISO 26.000 (Diretrizes de Responsabilidade Social da International Organization for Standardization). No Brasil, a partir de 2005, as referências foram o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) da bolsa de valores, B3; os Indicadores Ethos, do Instituto Ethos; e a Norma ABNT NBR 16001.

ESG – O novo mantra do mercado financeiro

Atualmente, e impulsionado sobretudo pelos Estados Unidos e países da Europa, ESG virou o novo mantra do mercado financeiro. É inegável a relevância que os critérios ESG estão assumindo como filtros para direcionar as aplicações no mercado financeiro – seja por meio  de private equity, ações em bolsa, fundos de ações, ou ainda fundos indexados a índices.

A primeira providência foi mudar o nome – de RSC ou  Sustentabilidade para ESG. Não se ater mais à simples divulgação voluntária dos relatórios corporativos de RSC ou sustentabilidade. E, mais recentemente, a outra providência tem sido passar por ajustes e reformulação de metodologia de ordem pragmática e mais ao gosto das casas de análise e de produção de índices financeiros. 

Desde 2019, o conceito ESG está em ebulição, com novas ponderações, critérios, formas de coleta (das informações das empresas), multiplicação de índices ESG por temas, regiões e setores. Tanto que recentemente os tradicionais referenciais anunciaram a adequação de suas metodologias, como o GRI , Dow Jones / Standard & Poor`s , e o ISE no Brasil. As instituições-referência em análise do mercado financeiro passaram a disponibilizar  e a publicar os seus índices ESG, tais como Bloomberg e MSCI (Morgan Stanley Capital International) e Thomson Reuters; e também até a própria  S&P em parceria com SAM Corporate Sustainability Assessment (CSA).

No Brasil não tem sido diferente, com a crescente valorização e profusão de produtos ESG no mercado financeiro, cada vez mais acessíveis a todo tipo de investidor.  Os grandes bancos e corretoras passaram a disponibilizar várias aplicações em fundos com critérios ESG, como Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e XP (O Globo, 31.08.2020). Só nos últimos 12 meses, ao menos seis novos fundos ESG entraram para as prateleiras do mercado financeiro do país (Valor, 14.07.2020).  Agora mais do que nunca, proclama-se, e sem o devido rigor nessa análise comparativa, que a rentabilidade das empresas ESG é superior às não-ESG. Será que afirmar que o ISE , da B3, subiu mais  (287%) do que o Ibovespa (215%) em seus 15 anos de sua existência (nov.2005 a ago.2020) pode ser atribuído exclusivamente a fatores ESG?

Quando os critérios ESG começam a prejudicar

Se a proposta subjacente aos critérios ESG é a de atender aos interesses de todos os grupos envolvidos com a empresa, e não apenas a de um único grupo [o dos investidores ou shareholders], então como ESG poderia prejudicar?

Diferente dos movimentos anteriores de RSC e de sustentabilidade, vimos que ESG chega com força.  Daí a questão central quanto a efeitos positivos ou negativos vai estar no modo de aplicar os critérios ESG pelo mercado financeiro.

De imediato, vejo com preocupação  que algumas gestoras de recursos, no mundo e no Brasil, estão começando a adotar o filtro de exclusão, bloqueando em ‘lista negra` as empresas pertencentes a determinados setores como os de fumo, bebidas alcóolicas, armas de fogo e de produção de energias fósseis. Com esse comportamento, os investimentos para empresas nesses setores vão começar a ser barrados ou dificultados, pois passam a ser  classificados como ‘Investimentos Não-Socialmente Responsáveis`, em contraposição aos ‘Investimentos Socialmente Responsáveis`.

Discordo desse procedimento simplista e intempestivo. No atual contexto de forte valorização ESG, empresas percebidas pelo mercado financeiro como  não-ESG tenderão a ser muito penalizadas via queda no preço de suas ações e na dificuldade de acesso a capital e empréstimo. Por que partir de imediato para simplesmente rotular uma empresa como não-ESG só porque ela produz ou consome energia fóssil (S&P Fossil Fuel Free index Family)? 

A meu ver, a estratégia de banir empresas de determinados setores tidos como ‘lista negra em ESG`, que começa a ganhar força no mercado financeiro, padece de 3 graves erros, que são 

  1. É  míope, por não enxergar à distância, isto é, os efeitos indiretos e positivos da atuação de tais empresas. Comentei sobre esse ponto no artigo  Empresa com propósito: como desanuviar a cortina de fumaça  , onde dei exemplos para ilustrar que, sob a ótica abrangente dos efeitos indiretos, a princípio todas as empresas deveriam ser consideradas como boas.  A questão está no como produzir.
  2.  Tende a ser demagógica, pois muito provavelmente a instituição financeira visa sobretudo ficar bem na ‘foto` dos critérios ESG.
  3. É irresponsável quanto aos impactos econômicos e sociais da desestruturação empresarial que ela  pode provocar, na medida em que vai gerar  desemprego nessas empresas e falta de produtos e serviços essenciais nos segmentos que dependem delas. Toda transição deve ser gradual.

Evidentemente, o que é desejável é que os índices ESG funcionem como termômetros efetivos (e não cosméticos como eram antes!), de modo a irem orientando e adequando o desempenho em ESG das empresas. Por exemplo, o ISE, da B3, tem essa abordagem inclusiva, como muito bem explicam os seus coordenadores, com referência à reformulação metodológica do Índice:

O ISE vai ganhar uma abordagem ‘big data`, com o rastreamento de informações públicas que vão ajudar na seleção das companhias listadas com o selo de boas práticas de responsabilidade social, ambiental e de governança.  …. O uso de inteligência artificial vai ajudar a ter uma carteira mais rica. A tecnologia que existe hoje para analisar grandes volumes de dados vai ser uma nova fonte de avaliação”  (Aron Belinky)

“A escolha, desde o início, foi não excluir nenhum setor. O consenso foi ter um índice inclusivo. A ideia é ter perto mesmo a empresa que esteja no setor mais controverso para que possa melhorar as suas práticas” (Sonia Favaretto)

Porém, se a evolução do desempenho das empresas não for condizente com o que se espera delas nas dimensões ESG, aí sim elas devem ser penalizadas pelo mercado financeiro. Vale lembrar o caso da JBS, que foi recentemente eliminada da carteira de investimentos da gestora de recursos  Nordea (finlandesa). Segundo a gestora, “só depois de um longo período de compromisso nosso com a JBS, e vendo que os riscos continuavam grandes frente ao desmatamento na cadeia de suprimentos, saúde dos funcionários com a Covid, e na prevenção da corrupção, decidimos zerar a nossa posição em JBS”.

Enfim, os critérios ESG são muito benvindos. Desde que aplicados na dose certa e de forma cuidadosa. Nem tão superficial como na época da RSC, nem tão exagerada e indiscriminada como tem sido agora por algumas instituições. Ademais, a abordagem de Índice ESG pressupõe gradação e evolução, que normalmente vai do zero até o 100. NÃO é para ser zero OU 100, ESG ou não-ESG….

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.

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