Engajamento com a comunidade: o passo a passo

By on 26/05/2017

No último post eu afirmava que comunidade engajada e uso de indicadores / medição não precisam ser incompatíveis, como infelizmente tem sido observado na prática em muitas iniciativas sociais. Ao contrário, devem ser estratégias complementares para potencializar os resultados e as transformações sociais desejadas.

Para essa interação virtuosa entre engajamento e medição, é importante a maneira como se constrói, desde o início, o engajamento com a comunidade. Paul Schimitz, fundador da Leading Inside Out, defende essa posição e, para isso, propõe um passo a passopara um engajamento bem feito.

Nesse seu trabalho (março 2017), o autor apresentou alguns aspectos interessantes sobre engajamento com a comunidade, tantas vezes negligenciados nos programas sociais.

1. Deixe claro quais são os propósitos do engajamento com a comunidade, e como ele vai contribuir para melhores resultados da iniciativa social – Se os organizadores da iniciativa social vêem o engajamento apenas como algo moderno, “para ficar bem na fotografia” ou como uma maneira de “ticar” o requisito do engajamento, então o engajamento já está fadado de antemão a ser fonte de desconfianças e conflitos. Ao contrário, o engajamento deve ser percebido como algo necessário para alcançar melhores resultados.

Mesmo o programa social guiado por indicadores e evidências tenderá a não ser bem sucedido se não puder contar com as experiências, os conhecimentos, os relacionamentos e a participação efetiva da comunidade. Pois “fazer para a gente, e não com a gente, é a receita certa para o fracasso”.

2.   Identifique qual a estratégia de engajamento com a comunidade é a mais adequada para cada situação. Há cinco estratégias que podem ser escolhidas, segundo uma escala crescente do grau de participação da comunidade. O nível (v) abaixocorresponde ao grau mais robusto de engajamento, porém nem sempre é o recomendável, tendo em vista as circunstâncias de cada comunidade e as características do programa.

i.  A comunidade é informada (sobre os novos programas e serviços);

ii.     A comunidade é consultada (convidada a dar a sua opinião sobre alternativas relacionadas aos novos programas);

iii.     A comunidade é envolvida (alguns dos seus membros são ouvidos em cada estágio do programa: planejamento, tomada de decisão, e execução);

iv.     A comunidade colabora (para que isso seja viável, alguns dos seus membros são capacitados para poderem participar em cada um dos estágios do programa);

v.     A comunidade é empoderada (apenas os membros da comunidade têm poder de decisão sobre o programa; os profissionais cumprem papel consultivo e de apoio).

3.   O engajamento deve buscar valorizar os ativos da comunidade. Ao invés de tratar a comunidade por seus déficits e tentar consertá-los, deve-se descobrir quais são os seus ativos (experiência, conhecimentos, habilidades, talentos e relacionamentos) e buscar trazê-los para o programa. As cinco perguntas-chave a serem feitas são:

i.         O que os membros da comunidade podem fazer melhor por si mesmos?

ii.          Em que eles precisam de ajuda das organizações para fazerem?

iii.          O que as organizações podem fazer melhor?

iv.          O que as organizações e outros parceiros do programa podem parar de fazer, porque as pessoas da comunidade podem fazer por elas mesmas?

v.         O que as organizações e outros parceiros podem oferecer à comunidade, para apoiar as suas ações?

Muitas vezes as organizações só se fazem a 3ª pergunta, e passam a fazer o trabalho para as comunidades, e não a fazer o trabalho com as comunidades. Esquecem que, para que as mudanças desejadas sejam realmente sustentáveis, o importante não é ter programas fortes, mas sim comunidades fortes.

4.   Mapeie quais são os diferentes grupos da comunidade, e qual o potencial de cada um deles para o engajamento. Suponha uma iniciativa voltada para adolescentes em situação de risco social de um dado município. Esses grupos poderiam ser: público alvo; suas famílias; seus vizinhos; líderes religiosos; outros tipos de liderança e influenciadores do local; voluntários; público em geral. Sob a ótica do engajamento, é importante identificar: qual seria a contribuição esperada de cada um dos grupos? Por que o grupo participaria do engajamento? Como o grupo iria se beneficiar com a sua participação?

5.   Para o engajamento, priorize aqueles grupos da comunidade que mais podem contribuir diretamente para os resultados do programa. Para cada grupo prioritário que for identificado, adote abordagens distintas e procure entender a sua cultura, interesses, ativos e contribuições para o programa social.

6.   Construa equidade nas mesas de discussão. É fundamental sempre garantir a participação efetiva de membros da comunidade nos comitês e equipes do programa, para trazerem a sua expertise do contexto, isto é, os seus conhecimentos e vivências diferenciadas acerca da população alvo e das questões relevantes a serem trabalhadas. Mas, não basta garantir um grande número de pessoas da comunidade nos comitês e equipes. Para haver participação efetiva e diálogo “de igual para igual”, os membros da comunidade vão precisar de suporte e capacitação. Para isso, “o objetivo deve ser eliminar disparidades (inequidades) à mesa, para nivelar o campo de jogo”.

7.   Teste sempre (com os membros da comunidade) os pressupostos, as interpretações dos dados e as conclusões tiradas. O que ocorre é que muitas vezes os especialistas se movem muito rápido dos dados para as decisões com os seus vieses implícitos que influenciam na seleção dos dados, interpretações, pressupostos e conclusões. Assim, se não houver equidade nas mesas de discussão do programa (com os membros da comunidade participando efetivamente), então os dados selecionados, as interpretações feitas, os pressupostos adotados e as conclusões tiradas podem estar distorcidos pelo próprio viés analítico dos especialistas e a falta de um conhecimento aprofundado deles da realidade social. Ou seja, é o olhar crítico da comunidade que aprova / reprova / julga a pertinência dos dados e das análises feitas.

8.   Construa parcerias para implementar os programas e serviços, mas comece no âmbito local. Pode ser tentador começar logo por trazer de fora experiências bem sucedidas. Mas, antes procure levantar se existem outros programas ou organizações na comunidade que já oferecem serviços similares. Qualquer que seja a estratégia a ser adotada – seja construir capacidade junto aos provedores existentes, seja trazer de fora um novo provedor, ou ambos -, o importante é identificar se ela é bem vista e goza da confiança da comunidade.

9.   É preciso conciliar urgência e paciência. Nos programas sociais, agir com urgência para enfrentar os muitos desafios sociais é uma atitude mais do que compreensível. Porém, não são raras as situações em que é preferível, no início, investir tempo com o engajamento, do que ter que arcar no longo prazo com investimento e tempo muito maiores, advindos de problemas de desconfiança e conflitos na comunidade. Assim, é preciso paciência no início para poder construir relacionamentos, acordar objetivos, alinhar estratégias, orientar e capacitar as pessoas, resolver conflitos e diferenças, enfim engajar todos em um processo democrático de tomada de decisão.

10.        Construir capacidades para apoiar o engajamento. É preciso identificar quais investimentos e capacidades serão necessários para o engajamento ser bem sucedido, em termos de tempo das equipes, competências, governança, liderança, apoio profissional e parcerias.

Concluindo, sem dúvida esse passo a passo dá orientações práticas importantes sobre como conduzir o engajamento com a comunidade. Porém, no que se refere especificamente à questão da interação entre engajamento e medição, ou seja sobre como conciliar atores com linguagens tão distintas, senti falta de uma abordagem mais direta e precisa. Por ora, vimos que é preciso ter paciência, reduzir diferenças, aparar arestas, fazer capacitações, enfim criar as condições para um trabalho verdadeiramente em comum. Mas, ficou a sensação de que ainda precisamos avançar nessa questão da interação. E, como o próprio Schimitz colocou, trata-se de uma ferramenta em evolução, aberta a sugestões e ideias!

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.