ESG sob fogo cruzado

Por on 09/03/2023

Bastam as três manchetes abaixo para constatarmos que o movimento corporativo ESG (do inglês Environmental, Social and Governance) está sob fogo cruzado. Não se trata mais de estar na berlinda, mas de já estar sendo fortemente combatido por todos os lados.  A conduta ESG passou a ser percebida como capaz de influenciar o status quo – para o bem (promover justiça social) ou para o mal (“incomodar” o atual modelo de produção vigente).

O que é ‘woke capitalism`? (Corporate Governance Institute, agosto 2022)

Há cinco anos, o analista político Ross Douthat cunhou o termo “capitalismo acordado” ao escrever um artigo de opinião para o New York Times em 2018. Para ele, muitas vezes as grandes empresas nos EUA entram na onda para apoiar um movimento “socialmente consciente”, enquanto fazem pouco para promover os direitos dos trabalhadores em suas próprias empresas e cadeias de fornecedores.  …….  No “capitalismo acordado”, grandes corporações, CEOs e bilionários têm agido com hipocrisia quando apoiam pública e financeiramente causas políticas progressistas de esquerda, tais como #MeToo (Eu também: contra o assédio sexual em locais de trabalho), #Black Lives Matter (Vidas negras contam), casamento entre pessoas do mesmo sexo, ativismo climático e direitos dos animais.

O ESG será a nova vítima da polarização política?  (Capital Reset, set.2022)

Nos Estados Unidos, políticos republicanos partem para o ataque contra instituições que defendem os investimentos sustentáveis.   …..     Ron DeSantis, governador da Flórida, anunciou que os fundos de pensão do estado não poderão mais tomar decisões de investimento baseadas em critérios ambientais, sociais ou de governança.  ….      Controlada pelos republicanos, a assembleia legislativa do Texas, maior estado produtor de petróleo do país, aprovou em 2021 uma lei exigindo que fundos de pensão de funcionários públicos vendessem as ações das instituições que “boicotam” empresas de energia.

As grandes gestoras de recursos de Wall Street veem as campanhas contra ESG como novo risco financeiro (Financial Times e Jornal Valor, março 2023)

“Grandes gestoras como BlackRock e Blackstone incluíram nos seus balanços anuais observações de que ‘pontos de vista divergentes’ e ‘demandas concorrentes’ nos investimentos ESG poderiam prejudicar o desempenho financeiro (delas)   …..   Larry Fink, CEO da BlackRock, disse que os secretários estaduais de Finanças republicanos retiraram, em 2022, cerca de US$ 4 bilhões da gestora, em razão de preocupações com questões ESG …..      Para a Blackstone, pontos de vista divergentes sobre os princípios ESG aumentam o risco de que a ação ou a inação impactem adversamente a reputação e negócios (da companhia) ……..      A maioria dos grandes bancos e gestoras de ativos continua a alertar para problemas como a perspectiva de não conseguir atender à demanda dos investidores por produtos ESG e as acusações de estarem fazendo greenwashing

Será que ESG (ainda) é apenas mais um modismo?

Há quase três anos (maio 2020), escrevi o artigo: Critérios ESG – mais um modismo?  Na época eu lembrava que de 1990 para cá as empresas em âmbito global foram assumindo um discurso e práticas mais humanas em substituição à sua atuação até então eminentemente econômica.  Tal se deu em razão das fortes críticas de ativistas e da sociedade em geral, por volta dos anos 1970-80, ao modo egoísta de operar das empresas.  

Foi assim que inicialmente tivemos a fase de valorização da ´empresa com ação social na comunidade` ( em inglês, corporate philanthropy); na sequência, veio a da ‘empresa com responsabilidade social`, depois a ´empresa sustentável`;  a ´empresa com valor compartilhado` (ou shared value); e, por último, de 2018 em diante a fase da ‘empresa ESG`.

No referido artigo eu havia questionado se a fase ESG não seria apenas mais um novo modismo como as demais fases, que eram caracterizadas sobretudo por mudanças de ênfase no discurso, porém sem qualquer alteração relevante no modo real de proceder das empresas.

Hoje tendo a acreditar que ESG não é mais um modismo. Agora parece incomodar tanto o segmento corporativo como o setor público.  Porque passou a ter poder de influenciar respectivamente o desempenho das empresas (lucratividade), as políticas públicas e os políticos, haja vista os casos nos Estados Unidos (citações do início desse artigo).

 Por que esse  fogo cruzado agora? 

O fogo cruzado sobre a atuação ESG vem por todos os lados – por parte de alguns grupos de empresas, de instituições financeiras, de governantes e da sociedade em geral. Há dúvidas, ataques e defesas. Essa situação já pode ser percebida com clareza nos  Estados Unidos, país  historicamente precursor dos movimentos corporativos. Por que esse fogo cruzado agora?  Abaixo procuro elencar alguns argumentos que têm motivado esses vários lados.

  1. Porque ESG surge a partir da percepção das empresas de que as crises de governança, sociais e ambientais tinham repercussões imediatas e graves no lucro das empresas e para a sociedade em geral. Melhor investir na prevenção do que remediar os altíssimos prejuízos de reputação, financeiros e de desastres climáticos.  ESG vem sendo elevado das áreas periféricas do negócio ao core business.  (Defesa)
  2. Porque uma política ESG tem custos elevados, considerados como investimentos de longo prazo. E não é acessível à maioria das pequenas empresas, que se sentem prejudicadas. (Alerta)
  3. Porque se tem dúvidas se as grandes empresas (corporações) estão de fato investindo em ESG ou só mantendo aparências. Estão apenas fazendo maquiagem para passarem a impressão de estarem comprometidas (greenwashing)? Ou apenas fazendo discursos de intenção (greenwishing)? Ou pior, empurrando as atividades “sujas” para as empresas menores de sua cadeia de fornecedores? (Alerta)
  4. Porque, em um relativamente curto intervalo de tempo, empresas de setores-chave para o desenvolvimento passaram a ser percebidas como nocivas ao desenvolvimento sustentável. São os casos das (então) poderosas empresas de petróleo, gás, combustíveis fósseis em geral, carvão e mineração. A ordem se tornou desinvestir dessas empresas, e investir em empresas que contribuam para preservar o meio ambiente.  Será que essa ordem é factível? Ou melhor, qual a estratégia para torná-la factível? (Ataque dos atores prejudicados)
  • Porque as grandes casas gestoras de recursos dos EUA foram os grandes incentivadores iniciais da adoção dos critérios ESG em suas empresas investidas, como forma de proteger o capital dos seus clientes investidores. A Carta de Larry Fink (CEO da BlackRock) em janeiro 2018 no Fórum de Davos foi um marco.  Porém o que parece estar havendo é uma debandada dos investidores das casas gestoras que apoiam os princípios ESG. Será que ESG é uma ameaça à rentabilidade dos investidores? Ou será que os investidores/capitalistas se desiludiram com a causa ESG por seus excessos? (Ataque dos atores prejudicados)
  • Porque muitas instituições financeiras e bancos têm sido acusados de lançar títulos /fundos com a qualificação ESG, sem que estejam lastreadas em ações e/ou operações de empresas que possam ser de fato caracterizadas como ESG. Ou seja, os produtos ESG podem colocar em risco a reputação dessas instituições.  O que ocorre é que o conceito ainda é fluido nos diversos níveis (de empresas e do mercado financeiro), mesmo sendo cada vez maior a oferta de ratings e selos.  (Alerta)
  • Porque vem sendo cada vez maiores as exigências para uma empresa se tornar ESG. Ela  deve se tornar parceira do Estado na promoção da justiça social, por exemplo, aumentando o acesso aos seus quadros de colaboradores, e também aos de gerência, de mulheres, negros, LGBTQI+, e de pessoas de comunidades vulneráveis. Até há poucos anos, o foco era exclusivo em competências. Na prevenção das mudanças climáticas, a parceria com o Estado pressupõe inovar e investir em tecnologias limpas, mesmo que os custos (presentes) sejam bem superiores ao uso de combustíveis fósseis. Como as empresas ESG vão enfrentar a concorrência com as empresas não ESG? (Alerta)
  • A grosso modo, pode-se afirmar que há  duas grandes linhas de governo e de políticas de desenvolvimento. Uma primeira que pressupõe um Estado mais direcionador, tributador e provedor de bem-estar. E uma segunda corrente mais pró-mercado e liberal, que considera que as próprias forças do mercado são capazes de gerar crescimento com bem-estar. Nos Estados Unidos, essa polarização é representada pelos partidos (respectivamente) Democrata e Republicano. Assim, é essa segunda corrente que tende a atacar os “exageros” das demandas ESG sobre as empresas e o sistema como um todo. (Ataque)

ENFIM, não há dúvidas de que o fogo cruzado sobre o movimento ESG é hoje realidade. Isto porque, diferente dos demais movimentos pró-empresa cidadã que o  antecederam, o movimento ESG incide mais fundo na estrutura e no modo de operar corporativo. Daí acredito que, agora mais do que nunca, três requisitos de processo são imprescindíveis para que o movimento ESG supere essa fase beligerante, saia vencedor e se consolide:  fazer as mudanças necessárias dentro (i) da ordem certa, (ii) da velocidade certa e (iii) adotando os indicadores certos e consensuados. Pois que as mudanças são necessárias para “consertar” o capitalismo, quanto a isso parece não haver dúvidas.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.