O caso das gestantes moradoras de rua: de que tipo de projetos sociais precisamos?

Por on 17/01/2023

No domingo (08.01.2023) saiu uma matéria no jornal O Globo que evidenciou a importância das políticas / projetos sociais para a formação do cidadão, sobretudo daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade. Fiquei, no mínimo, perplexa com o tamanho da responsabilidade, que é de todos (indivíduos e famílias envolvidos diretamente ou não, empresas, organizações do terceiro setor e  governos), mas que na maior parte das vezes acaba sendo uma realidade que quase ninguém enxerga ou quer enxergar.

A reportagem, intitulada “Embalando sonhos de mães que criam seus bebês nas ruas” descreve um Projeto na cidade de São Paulo, voltado para gestantes sem-teto. Elas são identificadas a partir do ‘Consultório na Rua` e depois encaminhadas, com suas famílias (ou parte delas), para  abrigos onde passam a ter atendimento médico e assistencial. Nesse projeto coordenado pela Prefeitura, foram atendidas pelo  menos 564 grávidas em situação de rua só em 2022. Lá elas tiveram também chá de bebê, receberam enxoval completo para os recém-nascidos, além de mimos tais como “tirar fotos, fazer o cabelo, maquiagem e massagem nos pés”. Uma das grávidas atendidas até afirmou que “ficou se sentindo como se fosse uma rainha”.  

Como explica a coordenadora do Projeto, “as atividades funcionam como incentivo para aumentar a adesão das grávidas ao pré-natal e prevenir problemas de saúde do bebê. ….. Sem falar que dá dignidade a elas que já vivem em situação tão fragilizada e sofrida”.

É inquestionável o caráter emergencial e ao mesmo tempo imprescindível desse Projeto. Pois o seu público-alvo são mulheres que estão grávidas, em situação de rua, sem condições psicológicas nem econômicas para cuidarem de si próprias nem de seus (futuros) bebês. Precisam de apoio e ajuda urgentes naquele momento crítico (a gravidez), ou então se tornará tarde demais para reverter as consequências na vida delas próprias e dos seus bebês.

Mas será que o Projeto, por mais bem conduzido que seja, vai solucionar o problema social dessas mulheres atendidas e dos seus bebês?

Na realidade, o impacto do Projeto tende a ter fôlego muito curto, tal a gravidade da questão social envolvida. Pois o Projeto atende a cada mulher durante uma (1) gravidez.

Uma vez finalizado o Projeto, a vida dura daquelas mulheres segue em frente, agora com um (ou mais um) filho ……. Então começam a surgir os desafios:

  • Como o bebê que nasceu dessa gravidez (atendida pelo Projeto) será criado daí para frente?
  • Qual será o grau de maturidade e responsabilidade de cada uma dessas mulheres  para educar o(s) seu(s)  filho(s)?
  • Será que a experiência acolhedora do Projeto, em uma das raras vezes em que ela se sentiu cuidada como uma “rainha”, vai se tornar em fator de estímulo para ela ter uma nova gravidez?
  • Ou será que o Projeto chegou a conseguiu mudar (ou influenciar) comportamentos e atitudes das mulheres atendidas, mesmo não sendo esse o seu objetivo explicitado?

Vou tentar responder a essas perguntas acima com a narrativa de um outro caso de que tive conhecimento – caso real, embora os nomes aqui sejam fictícios.

Há alguns anos, Elisa1 morava em um barracão  no subúrbio de uma cidade grande. Ela teve alguns filhos, fez vários abortos, se envolveu com drogas, criou os filhos largados. Tempos depois ficou doente, foi embora daquele lugar e deixou o barraco para duas de suas filhas que, por não se entenderem, acabaram dividindo o barraco entre elas.  Elisa2 é uma dessas filhas, hoje manicure e com 23 anos de idade apenas. Ela também é envolvida com drogas, bebida e aborto; já teve 3 filhos, sendo dois meninos de 9 e 7 anos de idade e uma menina de 4 anos, a Elisa3. Da mesma forma como foi criada, Elisa2 está hoje criando os seus filhos – vão à escola quando querem, ficam o dia todo sozinhos em casa, sem terem o que comer direito, e de noite ainda “assistem às festinhas da mãe em casa com droga liberada e suas consequências”. O Conselho Tutelar já esteve na casa dela mas, por razões que desconheço, “não levou” as crianças.

Uma das vizinhas se apegou muito à Elisa3 e, de vez em quando, leva a menina para a sua casa, dá carinho, roupas e brinquedos para ela. Até a matriculou em uma creche perto. Elisa3 chama a vizinha de “vovó”. De repente, a vizinha foi surpreendida com a notícia de que a mãe (Elisa2) tinha fechado o barraco e simplesmente ido embora morar com o namorado em uma favela distante – e havia levado junto com ela a Elisa3 e os outros dois filhos.

Então, pergunto: que tipo de futuro Elisa3 e os seus dois irmãos vão ter?  Há probabilidade elevada de em breve surgir “uma Elisa4”,  fruto dos exemplos de sua família, abandono, ausência de valores e reprodução da pobreza.

Esse caso ilustra o quanto é imprescindível e urgente a existência de políticas e projetos sociais estruturantes voltados para as crianças e adolescentes mas também para os seus pais e responsáveis, seja na área de educação, saúde, geração de trabalho e renda, habitação e saneamento, esporte e lazer. As famílias vivendo em situação de vulnerabilidade precisam de uma abordagem integrada e complementar de longo prazo, para arregimentarem forças e conseguirem se libertar desse círculo perverso da miséria e de vícios.

CONCLUINDO, nessa frente de extrema vulnerabilidade ambos os tipos de projetos sociais são imprescindíveis e urgentes – tanto os emergenciais como os estruturantes. O fundamental é haver sempre sinergia entre as políticas públicas e os projetos sociais, sejam esses últimos conduzidos pelo “segundo setor” (empresas tradicionais), o terceiro setor (ONGs) e o agora “quarto setor” (empresas /startups com impacto) – além, é claro, do compromisso firme com a causa e a busca incessante por efetividade das ações realizadas. Só assim vamos conseguir, de fato, mudar a realidade dessas famílias.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.