A sustentabilidade corporativa irá sobreviver ao Covid-19?

Por on 13/05/2020

No “antigo normal”, quando as empresas estavam financeiramente estáveis, defender ‘propósito` para além de ‘lucratividade` era lugar comum. Seja por modismo, ou porque as empresas tivessem algum grau de comprometimento de fato. Porém, com a inflexão abrupta dos negócios provocada pela pandemia do coronavírus, o que deve ocorrer com os princípios e as práticas da sustentabilidade corporativa: vão definhar ou ganhar musculatura?

Nesse momento, boas perguntas são importantes para estimular às próprias empresas a refletirem sobre o real papel da sustentabilidade pós Covid-19.

  1. Será que planos e metas de sustentabilidade da empresa conseguirão (ainda) ser mantidos, nesse momento em que cortar custos tornou-se decisivo para a empresa segurar prejuízos e não fechar as portas?

Com a pandemia, praticamente os  governos do mundo todo estão tendo que tomar medidas de isolamento físico. Com isso, as empresas estão se vendo obrigadas a reduzir ou paralisar suas atividades. Até quando, não se sabe. Sem ou com muito pouco faturamento, como seguir pagando dívidas contraídas, manter os empregados sem trabalharem, e arcar com os custos fixos?

Não há milagre financeiro; evidentemente será necessário cortar despesas e investimentos. Pois mesmo quando a Covid for (minimamente) controlada em cada localidade, o ritmo de retorno das atividades da maioria das empresas será bem lento, de modo a compensar as fortes perdas sofridas nesse período dos picos da pandemia.  Quais serão os critérios para selecionar ações e processos da empresa a serem mantidos ou eliminados? Como ficarão os quesitos de sustentabilidade?

Até agora, o que se percebe é que apenas poucos segmentos corporativos conseguiram ser preservados da crise, em áreas como produção e distribuição de alimentos, remédios, limpeza e segurança pública.  Alguns outros pouquíssimos até chegaram a ser beneficiados pela crise, como nas áreas de saúde e higiene pessoal.

 

  1. Será que a responsabilidade ‘social` das empresas vai se sobrepor à responsabilidade ‘ambiental` e de ‘ governança`, depois dessa crise do coronavírus?

De 2015 para cá, o que se observava é que a dimensão  ‘social` vinha perdendo espaço no contexto da sustentabilidade para as dimensões ´ambiental` e de ‘governança`. Assim, questões relacionadas às emissões de carbono ou ao funcionamento dos Conselhos de dirigentes é que vinham se tornando as prioridades. Com os estragos da pandemia, os holofotes estão jogando luz no modo como as empresas vão tratar, em especial, os seus colaboradores e as comunidades do entorno: se como sujeitos com necessidades e que precisam de cuidados, ou como objetos a serem usados ou descartados sem nenhuma consideração.

Em especial no caso dos indicadores ambientais, essa redução forçada do nível de atividade já irá fazê-los naturalmente melhorarem (no nível corporativo e do país), evidenciando a clara relação entre os impactos da economia e do comportamento dos indivíduos sobre a degradação do meio ambiente.

 

  1. Será que daqui para frente a sustentabilidade vai ser uma fonte de VALOR para as empresas, e não apenas um fator de custos?

Com a Covid-19, e de modo a evitar o contágio em massa, muitas empresas e empreendedores foram forçados a mudar hábitos, como o trabalho em home-office, atendimentos virtuais, vendas por internet, produção em turnos e com menos gente, realização de reuniões de trabalho e de eventos à distância (como congressos, apresentações,  shows). E tal se deu nos mais diferentes setores, como o financeiro, petróleo, fábricas, médico, comércio, ensino, restaurantes, serviço social, só para citar alguns.

Sem dúvida,  essa nova rationale de operação dos negócios veio para atender as contingências da pandemia. O que ocorre é que as empresas no mundo todo vinham se modernizando, porém a maior parte dos seus hábitos de funcionamento ainda continuavam arraigados ao período ainda pós mecanização, baseado na presença física dos seus diferentes públicos para a interação (colaboradores, acionistas, clientes, fornecedores).

O ponto é que, até o início desse ano, a grande maioria das empresas vinha a passos lentos na introjeção dos benefícios da tecnologia da informação para um novo modo de fazer as coisas. A pandemia foi o empurrão necessário para que muitas empresas passassem a enxergar novas alternativas de funcionamento, possivelmente mais eficientes, sustentáveis e lucrativas. Com muito menos deslocamentos, menos consumo energético, menos emissão de CO2 e menos desperdício em atividades secundárias ao negócio. Porém, com muito mais foco no aprimoramento dos produtos e serviços da organização, e no cuidado com o relacionamento entre os seus públicos.

  1. Será que a força de destruição da Covid-19 vai gerar um senso de urgência e relevância para as questões relacionadas à sustentabilidade?

Mesmo que o uso da tecnologia ainda não estivesse sendo potencializado pelas empresas, já havia uma sensação do poder da tecnologia em multiplicar produtividades e conectividades. Porém, a pandemia surpreendeu a todos quanto à limitação da tecnologia e a finitude do ser humano.

Já vínhamos tendo alguns alertas localizados quanto aos danos que mudanças climáticas e procedimentos inadequados de empresas, indivíduos e governantes poderiam causar – inundações, queimadas, acidentes, furacões, poluição, guerras,  etc…  Dessa vez, o alerta veio invisível e em âmbito global, e foi capaz de evidenciar a incapacidade geral (de todos os países) frente a um vírus, o SARS-CoV-2, e o seu alto poder de desestruturar ordens preestabelecidas  e ceifar vidas. Daí, ou assumimos (todos) de verdade o compromisso com a sustentabilidade, ou em breve a vida, tal como a concebemos hoje, deixará de existir em nosso planeta.

 

  1. Será que conseguiremos medir a sustentabilidade corporativa de forma adequada e confiável?

Há de se convir que até hoje não se tem uma medida amplamente aceita da sustentabilidade. De 2000 para cá, começando com a GRI (Global Reporting Initiative)  em Amsterdã, houve uma proliferação de padrões de referência para avaliar sustentabilidade nas empresas, muitas vezes conflitantes entre si e só servindo para sobrecarregar os gerentes das companhias com o levantamento de dados, a “fadiga dos relatórios de sustentabilidade”.

 Dependendo da agência de rating em sustentabilidade, uma mesma empresa pode estar classificada entre as melhores ou as piores. Segundo estudo do MIT, apenas em 60% das vezes esses resultados estão alinhados.

Ter muitas medidas acerca de um conceito mais atrapalha do que contribui. Acaba por gerar descrédito e insegurança sobre o que foi medido e como foi medido. O desafio está, pois, em evoluir para uma abordagem unificada da sustentabilidade corporativa, levando em consideração os aspectos gerais e as especificidades por setor.

  1. Será que vamos evoluir da sustentabilidade corporativa para a sustentabilidade dos países?

Como mencionado, a Covid-19 pode vir a colocar em prática um novo modo de operar os negócios baseado na tecnologia da informação, que antes estava latente e não emergia. Que vai fazer funcionar os atuais setores tradicionais com muito menos presença física e maior produtividade. Uma nova lógica de produção e de prestação de serviços.

Portanto, a hipótese aqui é a de que esse novo modelo vai ser capaz de liberar pessoas e abrir oportunidades em outras frentes, com isso dinamizando setores que até hoje se encontravam carentes e inadequados na maioria dos países – como infraestrutura, saneamento, educação, cuidados com a saúde.  São setores fortemente relacionados à sustentabilidade das pessoas e da natureza.  Dessa maneira, o foco dos países vai acabar sendo levado para a solução dos seus graves problemas de pobreza e injustiça social, que foram escancarados agora com a pandemia.

 

A Covid-19 foi um golpe violento não apenas sobre as empresas, mas também sobre os indivíduos e no sistema capitalista como um todo. Para as empresas, revelou novas alternativas de funcionamento, possivelmente bem mais sustentáveis, eficientes e lucrativas. Para os indivíduos, alterou os seus marcos de segurança e valores, fazendo que eles vissem que as coisas não precisam ser como sempre foram, e podem ser mudadas. Em relação ao sistema capitalista, evidenciou o tamanho de sua fragilidade e inconsistências (para que tantos carros, aviões e cidades adensadas?), apontando para saídas sustentáveis, baseadas na redução da pobreza e das injustiças sociais.

Daí porque acredito que, com a pandemia, a sustentabilidade vai ganhar musculatura. Vai deixar de ser um “luxo” para ser uma necessidade. Só a empresa sustentável é que sobreviverá!

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.