Bill Gates: é hora de olharmos para a frente e sermos realistas

Por on 05/04/2020

Bill Gates foi sempre uma pessoa à frente do seu tempo, um visionário. Primeiro, no campo da tecnologia da informação. E, segundo, no campo da filantropia.  Apesar de ser figura polêmica para muitos, eu o admiro por sua generosidade e vontade em ajudar os mais vulneráveis do mundo.

Em 1975, Bill Gates criou a Microsoft, referência até hoje em sistema operacional para os computadores pessoais. Como consequência, tornou-se o homem mais rico do mundo.  Mas não se apegou nem ao dinheiro nem ao poder, e colocou-os a serviço da humanidade. Em 2000, ele criou a Fundação (Bill e Melinda) Gates, cujo objetivo central é desenvolver pesquisas / vacinas, e levar saúde e  conforto para milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, que ainda convivem com doenças (já erradicadas nos países ricos) como poliomielite, malária, tuberculose, AIDS, dengue e (o vírus) Ebola.

Há exatos 5 anos (TED, 2015), ele previu a forte possibilidade de consequências catastróficas de uma pandemia causada por vírus. Evidentemente, como ele alertou na época, em caso de não haver um sistema médico preparado para lidar com a pandemia.

Naquela época, Gates afirmou que mais importante do que os países investirem em sistemas militares, seria eles investirem em sistemas de enfrentamanto de pandemias, pois a sua chance de ocorrência e gravidade eram muito maiores. O valor do investimento em pesquisa e desenvolvimento de vacinas seria ínfimo comparado ao tamanho do colapso econômico (de trilhões de dólares) e da crise humanitária (de milhões de vidas perdidas) advindos de uma pandemia.

Infelizmente, os temores de Gates de 2015 viraram realidade. O mundo não se preparou. Hoje não temos sistema algum para lidar com a atual crise de saúde pública  – seja em termos de diagnóstico, infraestrutura, capacitação médica e vacinas. Atualmente, a sensação geral é de perplexidade e de uma total incapacidade de enfrentamento de um inimigo invisível e feroz, a doença Covid-19 (causada pelo vírus SARS-CoV2) .

Bill Gates é incisivo no seu chamamento: nada de lamentarmos esse tempo perdido;  é hora de olharmos para a frente e sermos realistas. A pandemia vai ter, sim, um custo elevado para todos os países sem exceção. Sendo que os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, pagarão um preço ainda mais elevado do que os países ricos, porque já convivem com problemas de desnutrição, doenças endêmicas, pobreza, favelas, o que favorece o contágio da doença e o agravamento das crises econômica e social. (TED, 24.03.2020)

Bill Gates traça um plano para que o seu país consiga superar essa pandemia (Washington Post, 31.03.2020).  Para começar, ele diz que as escolhas que os líderes do seu país fizerem nesse momento vão ter um enorme impacto sobre quanto tempo vai levar para que  os números dos casos de pessoas infectadas comecem a diminuir, por quanto tempo a economia permanecerá em lockdown (fechada), e em quantos americanos terão que enterrar um ente querido por causa do Covid-19.

Nós, aqui no Brasil, deveríamos levar muito a sério esse alerta,  pois ele se tornou um expert em doenças infecciosas. O alerta deveria valer tanto para os nossos governantes, políticos, empresários, lideranças comunitárias e as nossas famílias.

O plano de Bill Gates para os EUA enfrentarem a atual pandemia é constituído basicamente por tres passos: (i) isolamento total (ou lockdown) por no mínimo 10 semanas; (ii)  viabilização e realização ampla de testes para diagnóstico; e (iii) desenvolvimento de tratamentos e vacinas para o vírus.

Em relação a esse terceiro passo, a Fundação Gates está financiando fábricas para que sejam produzidos e testados os 7 projetos mais promissores de vacinas contra a covid-19. A expectativa é que demore ainda pelo menos 18 meses para que a vacina efetivamente fique pronta para o mercado. A Fundação está doando U$ 100 milhões para essa luta contra o coronavírus. (Exame, 03.04.2020)

A meu ver, nós, brasileiros, deveríamos ouvir atentamente  as orientações de Gates quanto aos dois primeiros passos. Ou seja, deveríamos nos concentrar e priorizar esforços e recursos para a viabilização do isolamento total nesse primeiro momento, e para a viabilização e realização ampla dos testes. E deixar que os países ricos, como EUA, invistam no desenvolvimento das vacinas – o que eles já vêm fazendo, e bem. Em outras palavras, por ora o Brasil não deveria desperdiçar recursos escassos com o desenvolvimento de vacinas.

No combate ao coronavírus no Brasil, esses dois passos per se já acarretam desafios enormes nas mais diferentes esferas, seja na coordenação política da crise, na geração e destinação dos recursos públicos, gestão do déficit público, oferta de serviços de saúde, recessão econômica, desemprego, aumento da desigualdade social. É crise por todos os lados, que precisa ser gerenciada.

Para Bill Gates, esses próximos meses vão ser realmente difíceis em todo o mundo. Dessa crise, devemos tirar duas lições fundamentais. Primeiro, temos que aprender a ouvir mais a ciência e, assim, podermos estar preparados para enfrentar as próximas crises que virão, no campo das pandemias de vírus e/ou das mudanças climáticas. Segundo, para enfrentar as crises e deficuldades, é preciso haver muita união e generosidade entre as pessoas. Mesmo nessa fase do “distanciamento físico”, podemos seguir conectados para espalhar ideias, amor e recursos, sem espalhar o vírus.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.