Por que uma iniciativa social não deslancha?

Por on 23/01/2020

Há 15 anos, um jovem da periferia decidiu compartilhar o seu talento musical e ajudar as crianças e adolescentes de sua comunidade, oferecendo oportunidades de lazer, alegria, sociabilidade, autoconhecimento e autoestima. No quintal da casa da sua mãe ele e a turma, que ia se juntando, improvisaram instrumentos musicais a partir de latas, que viraram tambores, chocalhos e pandeiros. Uma animação só, que parecia a de uma escola de samba infanto-juvenil! É um caso real, conduzido em um ambiente de pobreza e violência.

O grupo foi crescendo, e o quintal se tornou pequeno  para reunir tanta gente e alegria aos sábados, domingos e feriados pela manhã…. Com o tempo, a turma foi ganhando visibilidade e passou a ser convidada para tocar em espaços maiores. O jovem músico virou “tio” da garotada, e começou a receber oferta de patrocínios de grandes empresas, ou escolas  públicas ou igrejas, que queriam brilhar como “amigas da comunidade” nos eventos populares. Ele se tornara nitidamente uma liderança local.

Alguns anos depois, esse jovem da periferia enxergou nessa dinâmica bem-sucedida uma oportunidade para si próprio, ou seja, unir o seu dom musical e capacidade de liderança para se tornar um empreendedor social. Só que agora ele já estava casado e com dois filhos. Daí, não poderia continuar atuando de forma (apenas) generosa e voluntária. Teria que encontrar maneiras para que essa sua iniciativa social da música conseguisse custear o seu próprio trabalho e também o das outras pessoas que fossem se engajando.

O desafio estava, pois, lançado. De imediato, viu que teria que formalizar o empreendimento, o que significou obter um ´cnpj` para poder começar a existir.  Daí em diante, ele teria que fazer tudo da maneira legal, seguir todas as obrigações impostas pelo governo e arcar com os respectivos custos da empreitada. Foi quando ele percebeu como o mundo formal é inóspito e cheio de exigências, que parecem querer atrapalhar as boas intenções.

Obstinado, o nosso empreendedor social comunitário não esmoreceu. Ao contrário, frente aos desafios vislumbrados, ele até se sentiu mais forte para perseguir o seu sonho: transformar vidas por meio da música. Iria começar na comunidade em que nascera, e depois expandir para outras comunidades também carentes.

Ele decidiu ir atrás dos seus amigos e conhecidos da comunidade. Uma vez que a sua causa era do bem, ele achava que iria poder contar com a colaboração generosa deles. Na realidade, foi assim no princípio. Conseguiu orientação e apoio para criar uma OSC (organização da sociedade civil), com o formato de ´associação` e com todos os quesitos mínimos necessários para garantir a sua existência, como a especificação de quem seriam os associados e conselheiros, redação do Estatuto, definição da sede, e por ai vai….. Até de  um sobrado abandonado na região ele conseguiu se apossar para ser a sede.

Mas não tardou e as dificuldades foram surgindo.  Começou com o sobrado, ou melhor, com os elevados custos para a sua legalização e recuperação / adequação. Os seus olhos brilhavam só de pensar que iria poder atender a garotada e os seus familiares com um padrão “de primeiro mundo”.

Ele fazia de tudo para superar as dificuldades que ia encontrando:  assistia a todos os cursos e seminários gratuitos de gestão do terceiro setor; participava de reuniões com representantes do setor público e com políticos para tentar angariar simpatia e poder apresentar o seu pretendido trabalho; buscava aproximação com as igrejas locais; resgatava as velhas amizades; se inscrevia em todos os editais de seleção de projetos de que tinha notícia pela internet; fazia visitas a algumas empresas e instituições locais atrás de apoio. Era incansável e obstinado.

Porém, o nosso empreendedor foi aos poucos percebendo que, uma vez com a Associação já formalizada, estava muito difícil prosseguir. Parecia que estava ficando cada vez mais distante o seu sonho de (re)conquistar a empolgação genuína e vibrante das batucadas  do quintal da casa de sua mãe de muitos anos atrás. Nem da garotada local (público-alvo da iniciativa), nem muito menos de parceiros financiadores. A duras penas, o máximo que ele estava conseguindo eram doações pontuais de um ou outro material para remendar o sobrado; e também apoio técnico voluntário para elaborar um projeto social e um site, ambos consistentes com o desejo dele de ajudar e o seu sucesso do passado, porém (possivelmente) com quase nenhuma sintonia com as necessidades presentes das famílias locais.

Por que aquela iniciativa social, tão fervorosamente desejada pelo nosso empreendedor social, não estava deslanchando?

Parecia até que ele tinha sido atingido pela “maldição do sobrado”, tamanha era a sua preocupação inicial com a recuperação do sobrado. Também havia o sentimento dele de estar preso dentro de um círculo fortemente perverso, sem saída: a Associação não começava a funcionar porque não tinha dinheiro nem financiadores. Mas também não tinha financiadores, porque não estava funcionando e ainda não tinha nada (resultados) para mostrar (aos financiadores). Então, como  destravar esse círculo perverso?

Por que essa iniciativa (de inclusão social baseada na música) que, há 15 anos atrás parecia fazer tanto “sucesso” nessa mesma comunidade, não mais comove e nem atrai parcerias?

Sem dúvida, é uma pergunta complexa. Eu não teria uma resposta pronta para dar, mas vejo que não apenas nos empreendimentos sociais, mas em geral, a fase do nascimento é etapa crucial na vida de uma organização. É preciso seguir determinados pré-requisitos básicos nessa etapa, de modo que a organização conquiste a sua razão de ser, legitimidade, apoio da comunidade e parcerias diversas; e consiga ir gradualmente desenvolvendo e moldando o seu modo de atuar.

No caso relatado do nosso empreendedor social, pudemos ver que ele  tinha muitas qualidades, mas incorreu em vários erros de gestão. Dentre as suas qualidades, destaco o idealismo, as boas intenções, ser uma pessoa entusiasmada, ser da própria comunidade em que pretende atuar, ser entrosado e ser proativo. Porém, ele cometeu alguns erros iniciais de gestão graves e capazes de inviabilizar o seu empreendimento social, tais como: atuação individualizada; perder o foco com facilidade; colocar os meios na frente dos fins; perder a sintonia com  as necessidades da comunidade; querer crescer rápido e pular etapas.

Concluindo, o nosso empreendedor social não seguiu as condições necessárias para se iniciar uma iniciativa social de modo consistente e sustentável. E que condições são estas? Por ser uma questão relevante no setor social, voltarei a esse tema em outros posts.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.