Projetos sociais: o foco deve ser sempre nos mais vulneráveis?

By on 12/09/2017

Muitas vezes somos levados a defender a ideia de que se uma organização do terceiro setor ou uma empresa ou um indivíduo decide apoiar um projeto social, deveria priorizar (no grupo escolhido) as pessoas que estão mais vulneráveis e mais necessitadas de apoio. Será?

Suponhamos uma turma de adolescentes de uma escola da rede pública localizada dentro de uma favela de um grande centro urbano. Vamos considerar que todos esses adolescentes estão, sim, em situação de vulnerabilidade, uma vez que vivem numa região expostos a riscos de todo tipo, como mais doenças, violência, drogas; e menosoportunidades de acesso à educação, saúde e lazer sadio do que os demais adolescentes da cidade. Ademais, entre eles, o grau de vulnerabilidade pode ser bastante desigual: é maior entre aqueles que têm uma família desestruturada e vivem largados pelas ruas, e menor entre os que contam com um acompanhamento atento dos pais.

Vamos imaginar que se decida criar um projeto social com o foco nos melhores alunos dessa turma. Para isso, são definidos os critérios para selecionar os “melhores alunos da turma” – e apenas aqueles que preencherem os referidos critérios poderão participar do projeto.

Os críticos virão logo com seus argumentos ferozes: uma vez que todos vivem em situação de vulnerabilidade, por que o projeto vai privilegiar justamente aqueles que já estão em melhor situação daquela turma? Por que não priorizar os mais vulneráveis, ou seja, os que não vão bem na escola, que já repetiram de ano, faltam às aulas e estão no limiar para abandonar a escola? Nesse último caso, são certamente os mais necessitados de apoio; porém, no primeiro caso, o retorno de imagem para o apoiador tenderá a ser maior.

A meu ver, essas críticas não procedem. Porque são os governos que têm a responsabilidade e o compromisso com a promoção da equidade e da justiça social. Os governos, sim, podem e devem ser cobrados para priorizarem os grupos mais vulneráveis em seus programas sociais. Já os indivíduos, o terceiro setor e as empresas, quando desenvolvem os programas sociais, o compromisso deles é estritamente com o público-alvo que eles se propõem a atender.

Faço essa consideração em razão de duas matérias interessantes que li recentemente no jornal Globo. A primeira de Antonio Gois lembra que Lima Barreto, um dos maiores escritores brasileiros, nasceu em 1881 – era negro e filho de escravos. Naquele ano a taxa de analfabetismo dos brasileiros adultos era superior a 80%; quando ele faleceu, em 1922, essa taxa continuava altíssima, em torno de 71%. Assim, se não fosse a sorte de contar com o apoio do “padrinho” Visconde de Ouro Preto, ele jamais teria tido a oportunidade de estudar em um bom colégio. E o Brasil certamente teria desperdiçado um grande talento e sofrido uma grande perda no campo da literatura.

outro artigo é de Mauro Ventura, e conta o caso do fundador e sócio do Banco Modal, Diniz Ferreira Baptista, que criou a Associação Vencer em 1992, motivado por sua história de vida. Nesses 25 anos de sua existência, a Associação tem buscado selecionar os melhores alunos do último ano do ensino fundamental da rede pública municipal do Rio de Janeiro, e então fornece a eles todo o apoio necessário durante o período do ensino médio, para que eles possam ser bem-sucedidos no vestibular: bolsas de estudo integrais em escolas particulares, livros didáticos, uniformes, transporte, aulas de reforço, atendimento pedagógico e psicológico para eles e seus responsáveis, e orientação profissional. Já passaram pela Associação 623 bolsistas.

Segundo Diniz, o objetivo da Associação é abrir a porta do vestibular para esses adolescentes. Quando eles passam, nada mais pode pará-los. Se eles se esforçarem, vão ter um futuro brilhante. …. um professor da rede pública municipal me dizia uma vez que estava cansado de ver os bons alunos dele virarem empacotadores de supermercado.

Nesses dois exemplos, o público-alvo dessas iniciativas sociais foram os mais talentososdentre os que viviam em situação de vulnerabilidade e de carência de oportunidades. Ambas foram voltadas para os que já vinham sendo vencedores em seus contextos. Será que isso reduz o mérito dessas ações sociais?

De forma alguma. Os bons projetos sociais são sempre benvindos para todas as pessoas em situação de vulnerabilidade, independente do grau. Seja no setor corporativo (como comentei em outro artigo que escrevi) ou no terceiro setor, o que vai definir o valor de uma iniciativa social será a sua efetividade, ou seja, a sua capacidade de transformar vidas, o grau de alcance dos objetivos dos resultados esperados e/ou anunciados junto ao seu público beneficiário.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.