Filantropia fora dos trilhos

By on 28/04/2017

Em seu artigo no Financial Times de 26.04.2017 [Silicon Valley philanthropy has unintended consequences], Anjana Ahuja comentou o novo livro de David Callahan “The Givers, considerado provocativo na análise da filantropia. Chamo aqui a atenção para alguns dos aspectos críticos que ela apontou:

  • Os grandes doadores/filantropos estão se transformando em “super-cidadãos”, pois estão ganhando um poder desproporcional na condução da vida pública, com risco de usurparem os objetivos dos governantes democraticamente eleitos dos seus países. Nos EUA o equilíbrio de poder está mudando a tal ponto que “os governantes estão passando a ocupar o banco de trás, e os doadores indo para o banco do motorista”;
  • Os doadores não precisam prestar contas aos seus acionistas ou eleitores, e são pouco controlados. Daí, o dinheiro privado pode fluir para “vazios”, em grande medida viabilizado pela isenção dos impostos.
  • Normalmente as causas sociais apoiadas pelos doadores diferem das questões tidas como fundamentais pelo grosso da população de seus países (como moradia, educação básica e saneamento). Os ricos filantropos tendem a ter uma atuação mais internacionalista, querem contribuir para o desenvolvimento da ciência e das ideias políticas que defendem.

Em especial gostei desse artigo porque volta a enfatizar os riscos da expansão da filantropia, a partir de fatos reais que estão sendo vivenciados hoje nos EUA, país em que mais se avançou nesse campo. Evidentemente precisamos estar atentos a esses riscos, caso tenhamos a intenção de estimular de fato a filantropia, ou o investimento social privado, no Brasil.

Na reflexão que fiz no ano passado sobre a filantropia no Brasil (Revista Filantropia, junho 2016), havia destacado a importância da regulação da filantropia, de modo a delimitar os papéis e espaços que desejamos que a filantropia ocupe em nosso país. Na ocasião, havia sugerido alguns passos no âmbito da regulação, a partir das lições aprendidas com a experiência da filantropia nos EUA, a saber:

  • Definição do marco institucional, com a atribuição das responsabilidades e formas de interação entre as diferentes instituições do terceiro setor, do setor público e do setor privado;
  • Definição dos critérios para a eleição pelos filantropos das causas sociais que querem apoiar, de modo a coibir interesses individuais em detrimento do bem comum;
  • Normas para a condução das ações sociais, sempre baseadas no respeito e na escuta às necessidades das comunidades atendidas;
  • Compromisso com a avaliação dos resultados sociais e a transparência.

Se bem implementados, esses passos podem ajudar a controlar as três ameaças apontadas acima, se pretendemos ampliar o patamar do investimento social privado no Brasil, de forma sustentável. Fica a reflexão!

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.