Religião não é precondição para impacto social

By on 10/04/2017

Em entrevista na semana passada ao jornal O Globo, Cassiano Luz, diretor de operações da ONG Visão Mundial, fez duas afirmações que me chamaram a atenção. Ele disse que “não faz sentido querer causar um impacto social sem estar associado a uma igreja”. E também que o modelo de apadrinhamento (de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade), adotado pela Visão Mundial por várias décadas, “está em declínio porque as pessoas não assumem mais esse compromisso social”.

 Leia a entrevista na íntegra.

Discordo dele, e vou explicar porque. De fato, a Igreja – e sobretudo a Igreja Católica por razões históricas – teve um papel muito relevante na formação do terceiro setor no Brasil. Em artigo que escrevi há mais tempo para a revista Conjuntura Econômica (FGV/IBRE), eu analisei os quatro momentos na evolução do terceiro setor em nosso país.

  1. Da época da colonização até meados do século XX: Atuação dominante da Igreja Católica por meio da prestação direta de serviços sociais, assistenciais e de saúde (asilos, orfanatos, as Santas Casas de Misericórdia) e na educação (as várias ordens de colégios católicos).
  2. De 1930 até início dos anos 70: Com o governo populista de Getulio Vargas, a função assistencial se torna política pública, e as entidades sem fins lucrativos são legitimadas no papel de colaboradoras do poder público. A Igreja continua sendo importante aliada do setor público no campo social, e recebe financiamentos do Estado para suas obras sociais.
  3.  Dos anos 1970 até final dos anos 80: Sob o Estado autoritário, surgem as organizações comunitárias e movimentos sociais como expressão de denúncia das injustiças políticas e desigualdades sociais no país. A relação entre a ala progressista da Igreja Católica e o Estado se torna conflitiva, com o surgimento das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).
  4. Dos anos 1990 até hoje: Com a redemocratização, e seguindo a tendência mundial, a agenda do terceiro setor passa a se guiar por ideais de transformação social, do cidadão com direitos,  e do protagonismo e empoderamento das pessoas em situação de vulnerabilidade. Para além do setor público, ganham força as parcerias das organizações do terceiro setor com o setor empresarial, no contexto do movimento da responsabilidade social corporativa (RSC) – depois rebatizado por shared value (ou valor compartilhado).

Apesar do papel relevante que a Igreja Católica teve na condução de ações sociais ao longo da história do Brasil, hoje em dia a abordagem do terceiro setor no campo social já não é mais guiada por princípios de caridade e boa vontade. Ao contrário, do 4º momento em diante têm prevalecido os critérios de efetividade, eficiência, prestação de contas e transparência como norteadores da condução dos programas sociais e delimitadores da capacidade das organizações do terceiro setor para conduzi-los. Ou seja, a capacidade de gestão da organização aliada à sua competência de atuação em determinada área social tornaram-se os fatores preponderantes para promover o impacto social.

Por outro lado, não se pode negar a influência benéfica da religião no comportamento das pessoas, na medida em que as estimula na ajuda ao próximo. Porém,  a religião [e aqui incluo todas as religiões] não é o fator principal para a generosidade das pessoas. Basta ver que o Brasil é um país fortemente religioso. Dados do último Censo Demográfico do IBGE (2010) para o Brasil mostram que, dentre a população residente do nosso país, 64,6% são católicos, 22,2% evangélicos, 2,0 % espíritas, 0,3% afiliados a umbanda e candomblé, 2,7% a outras religiões, e 8,0% não têm religião

Assim, vemos que o percentual dos “sem religião” no Brasil é bem baixo, de apenas 8%, quando comparado a outros países, como Estados Unidos (16,4%), Austrália (24,2%), e Nova Zelândia (36,6%). No entanto, justamente esses três países, com o percentual de pessoas sem religião bem mais elevado do que no Brasil, são os campeões na escala mundial de generosidade, medida pelo World Giving Index, 2016. O Brasil foi classificado em 68º lugar, sendo que os Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia ficaram respectivamente em 2º, 3º e 4º lugares.

A julgar pelo cadastro de associados do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), organização think-tank no Brasil nesse campo, vemos a força que a vinculação das organizações do terceiro setor com o segmento corporativo vem ganhando no Brasil. Exemplifico aqui com algumas organizações que constam do referido cadastro e que estão desenvolvendo um trabalho bem avaliado no campo social: Fundação Bradesco; Instituto Unibanco; Instituto C&A; Fundação Vale. Cabe a ressalva de que o cadastro do GIFE tende a incluir apenas as maiores organizações do terceiro setor. Daí porque formulo a seguinte hipótese, que poderia ser objeto de verificação cuidadosa em futuras pesquisas:  o terceiro setor no Brasil vem estreitando laços com o segmento corporativo em detrimento dos grupos religiosos. Será?! Fica o desafio.

Quanto ao modelo de apadrinhamento adotado pela ONG Visão Mundial, cujo diretor “constata” estar em declínio, isso de fato preocupa. Sou madrinha há muitos anos em uma organização semelhante, o ChildFund Brasil. Ambas são instituições internacionais; quando foram criadas, tinham cunho religioso; e entraram no Brasil em 1966 (ChildFund) e em 1975 (Visão Mundial). Posso atestar o quanto é gratificante essa relação padrinho-afilhado, na medida em que podemos acompanhar a evolução da criança dentro da sua família dos 3 aos 20 anos de idade e, daí, o sentimento de realmente contribuir para a educação e a formação de uma criança se “torna tangível”.

A meu ver, o que está ocorrendo não é o menor compromisso social das pessoas. Há três possíveis explicações para esse retraimento no apadrinhamento, detectado pelo diretor da Visão Mundial. Primeiro, a crise econômica desses últimos anos, tanto no Brasil como nos outros países. Segundo, a queda na participação das doações de padrinhos estrangeiros pode ser explicada em função do Brasil ter sido considerado pela ONU como país de elevado desenvolvimento humano, passando assim a atrair menos ajuda internacional. Uma terceira causa é o assédio do telemarketing das instituições filantrópicas que cresceu muito nesses últimos anos no Brasil, provocando irritação e descrédito junto a nós,  potencial público doador. A esse respeito, sugiro que as organizações do terceiro setor no Brasil repensem com urgência as suas estratégias de marketing, de modo a evidenciar, antes de qualquer pedido de doação, o compromisso e a seriedade do trabalho delas. Parafraseando o “profeta Gentileza”, compromisso social gera compromisso social.

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MARIA CECÍLIA PRATES RODRIGUES
Rio de Janeiro - Brasil

Maria Cecília é economista e mestre em economia pela UFMG, e doutora em administração pela FGV /Ebape (RJ). A área social sempre foi o foco de suas pesquisas durante o período em que esteve como pesquisadora na FGV , e depois em seus trabalhos de monitoria, consultoria, pesquisa e voluntariado.